Falkands europeias – O referendo catalão

As ilhas Falklands são o calcanhar de Aquiles nas relações anglo-argentinas. As ilhas, ocupadas pelos britânicos desde 1833, são reclamadas pelo país platino, que as chama de Malvinas, e foram mesmo o estopim de uma guerra suicida movida pelo governo militar argentino, em franca decadência, em 1982.

Na Europa, a Espanha tem uma situação similar com o Reino Unido por conta de Gibraltar, sob soberania britânica desde 1704. Mas não é sobre as Falklands nem mesmo sobre Gibraltar o assunto deste texto: é a Catalunha.

A Catalunha é parte da Espanha. Poucos brasileiros sabem que a Espanha não é um monobloco linguístico-cultural: além do castelhano, conhecido internacionalmente como espanhol, são reconhecidas oficialmente o basco, uma língua isolada não indo-europeia, o galego, língua-irmã do português, o catalão e o aranês, uma variedade de gascão — língua d’oc — falada no Vale de Aran, no norte da Catalunha. Fora o asturiano, que conta até mesmo com uma academia própria, o leonês e o aragonês, que não têm reconhecimento oficial, mas apenas uma “política de proteção”.

O calvário catalão começa com a Guerra de Sucessão Espanhola (1701-1714). A Espanha, até aquele momento, era tecnicamente uma união pessoal: existiam a Coroa de Castela e a coroa de Aragão, unidas pelo vínculo com o mesmo monarca. Aragão era então composta pelo que atualmente se identifica com a Catalunha, Aragão, parte da Comunidade Valenciana e as Ilhas Baleares. Durante sua longa história, chegou a governar o Reino de Nápoles, Atenas, a Provença, a Sicília e a Sardenha. Dentro da monarquia plurinacional espanhola, conservou sua autonomia, suas instituições e sua língua.

Carlos II (1661-1700), da casa de Habsburgo, morreu sem herdeiros, o que fez estalar a guerra entre os partidários dos Borbons franceses, que tinham como candidato natural Felipe, neto de Luís XIV, rei da França, e os dos Habsburgos austríacos, com o arquiduque Carlos. A guerra dava-se por temores de que a união dinástica com a França fortalecesse excessivamente este país; também a Áustria ver-se-ia fortalecida.

As Espanhas tiveram de tomar posição. A Coroa de Castela, com posição dominante dentro do reino e sob cuja responsabilidade estava a colonização de a administração do império, ficou com o candidato borbônico, já que era assim o desejo manifestado no testamento do finado Carlos II. Enquanto em Viena era proclamado rei da Espanha o arquiduque Carlos, como Carlos III, Felipe de Anjou assumia de facto o trono como Felipe V.

Ao fim de quase quinze anos de conflito, com a derrota dos austracistas, tem fim a monarquia composta dos Habsburgos e o início de uma política centralizadora dos Borbons. A Coroa de Aragão e suas instituições são extintas pelo Decreto de Nova Planta (1714), o que impnha também o uso do castelhano em um território em que cerca de 90% da população não o entendia. O acordo do fim da guerra trouxe perdas territoriais à Espanha; para o reconhecimento de Felipe V como monarca, o Reino Unido, que lutou do lado dos Habsburgos, ficou com Menorca e Gibraltar.

Desde então, a história da Catalunha é um longo processo de assimilação por Castela. Alguns momentos da história são importantes, como a formação da Mancomunidade da Catalunha, uma federação das quatro províncias catalãs (Lérida, Gerunda, Barcelona e Tarragona), que existiu entre 1914 e 1924. Em 1924, a ditadura do general Primo de Rivera (1923-30) extingue o organismo.

Com a proclamação da Segunda República Espanhola, em abril de 1931, após vitória ampla dos republicanos e a consequente abdicação de Afonso XIII (1886-1941), os sentimentos catalanistas voltam à tona, e se propõe um modelo “federal” de Espanha. É quando nasce o conceito de autonomia e de comunidade autônoma, que serão recuperados com a Constituição de 1978.

A República Espanhola vai trazer instabilidade ao País. Em 14 de abril de 1931, no rescaldo das eleições, Francesc Macià (1859-1933), líder republicano e independentista, proclama a República Catalã “dentro da Federação de Povos Ibéricos”, o que causou desconforto com o novo governo republicano, três dias depois, chega a Barcelona uma comissão de negociação. Macià renuncia a seu projeto, mas exige tratativas para o estabelecimento da autonomia catalã, o que resulta no restabelecimento interino da Generalitat da Catalunha, forma de autogoverno existente dentro da Coroa de Aragão, que se tornaria efetiva após 1932.

A Catalunha autonomia vai existir até 1939, quando a vitória dos nacionalistas espanhóis na Guerra Civil (1936-9), chefiados por Francisco Franco (1892-1975), extingue as instituições de autogoverno na Espanha e instaura uma ditadura que duraria até a morte de Franco. O último presidente da Generalitat antes da guerra, Lluís Companys (1882-1940), morreu fuzilado.

O período franquista foi marcado pela repressão a tudo que não fosse castelhano: língua, cultura e intenções políticas. O catalão perdeu a oficialidade, mas a cultura, mesmo sob os grilhões da ditadura floresceu. Continuavam-se a editar livros, e a música, a partir dos anos 1960, tem uma ampla penetração na sociedade, com nomes como Lluís Llach (1948) e Joan Manuel Serrat (1943).

O governo da Generalitat continua no exílio, com Josep Irla (1940-54) e Josep Tarradellas (1954-80). Quando é restabelecido o autogoverno catalão, em 1977, Tarradellas volta do exílio e assume provisoriamente o governo, até 1980.

A morte de Francisco Franco e a nomeação de Juan Carlos de Borbon como rei da Espanha marcam o retorno da Espanha à vida democrática. A nova constituição (1978) garante o direito ao autogoverno dentro de uma monarquia constitucional; não obstante o novo texto ter sido costurado para agradar tanto aos que eram apeados do poder como os que eram eleitos para os cargos, as tensões seguiam em alta, tendo seu ponto culminante em 23 de fevereiro de 1981, quando membros da Guarda Civil de orientação franquista tomam o hemiciclo das Cortes, em Madri, aos tiros, comandados pelo tenente-coronel Antonio Tejero (1932), durante a sessão de investidura de Leopoldo Calvo-Sotelo como primeiro-ministro, às 18h23. Apesar da tensão, o golpe só teve reconhecimento pelo comando militar de Valência e seu tenente, Jaime Milans del Bosch (1915-1977). Na madrugada do dia 24, à 1h14, o rei Juan Carlos I fez um breve pronunciamento na Televisão Espanhola (TVE), reiterando o papel da Coroa na manutenção da democracia, o que foi entendido como um rechaço ao que acontecera nas Cortes. Imediatamente após o pronunciamento real, começa a desmobilização do golpe, que se concretiza às 5h45, quando o tenente Del Bosch suspende o estado de exceção que vigorava em Valência. Embora Tejero só tenha abandonado o Congresso por volta do meio-dia do dia 24.

Teve papel importante o então presidente da Generalitat, Jordi Pujol, que pouco antes da 10 da noite do próprio 23 de fevereiro, fez um pronunciamento pela Rádio Nacional da Espanha (RNE) e pela Rádio Exterior da Espanha (REE) pedindo calma e tranquilidade aos espanhóis.

Depois desse incidente, a Generalitat adaptou-se bem ao clima democrático espanhol, mas a pressão de vários setores da sociedade catalã pela independência não foi mitigado, mas entrou no jogo. A Esquerda Republicana Catalã (ERC) sempre foi a força catalanista mais forte nesse período, a Convegência Democrática da Catalunha (CDC) e a União Democrática da Catalunha (UDC) formaram, em 1978 a Convergência e União (CiU), mais centrista e de cunho fracamente catalanista. A agremiação deu dois presidentes à Generalitat: Jordi Pujol (1980-2003) e Artur Mas (2010-6), mas dissolveu-se em 2015, dando origem ao Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT). Nesse interregno dos convergentes, a Generalitat esteve nas mãos do Partido Socialista da Catalunha (PSC), braço do Partido Socialista Trabalhista Espanhol (PSOE).

Assunção ao poder de Carles Puigdemont (1962) ao poder, em janeiro de 2016, cimentou o caminho catalão à autodeterminação, que teve, até o momento, seu ponto mais alto com o referendo de 1º de outubro, que, não obstante ter sido ilegal do ponto de vista da lei espanhola, marca um momento único da vida civil catalã, além de mostrar qual é o estofo real da Espanha castelhana: centralismo, repressão e violência. Foi esse espírito que permitiu que os Borbons assumissem o trono e fizessem o decreto de Nova Planta; foi esse espírito que trouxe Primo de Rivera, a República e a Guerra Civil; foi esse espírito com que Franco plasmou seu regime, em que se podia apenas falar na “língua do império”. E foi esse espírito que deixou seu ranço azedo na Constituição de 1978.

Não tenho certeza se a Catalunha conseguirá de fato sua independência, mas uma coisa é certa: nada será como antes.

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Ovo de serpente

De novo a “arte” moderna nos surpreende. E de maneira negativa. Não bastasse a fuzarca por conta do Queermuseu em Porto Alegre, com apoio “cultural” e logístico do Santander e aporte financeiro do pagador de impostos, uma “exposição” no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) colocou um “artista” nu para que o público o tocasse, público que incluiu crianças.

“A arte é para chocar”, dizem os modernosos, como se falassem de ovos. A única coisa que está sendo chocada é o ovo de serpente que esse tipo de “arte” representa. Ou melhor, ovo maligno que já eclodiu há muito. Chocar, para essa malta de mamadores do úbere público, é simplesmente destruir os valores remanescentes que fazem de nós civilização.

Não tenho particularmente nada contra o nu, mas fazer dele “obra de arte” interativa é grotesco, horripilante, dantesco. Pôr crianças na ciranda, então, é o píncaro da perversão. Uma coisa é a sexualidade que se desenvolve com a idade, outra é uma indução doentia dos instintos. Essa gentalha faz de seus vícios e taras bandeira política.

Tampouco é questão de ataque “à moral e aos bons costumes”, essa linha já foi ultrapassada faz tempo, mas é a espetacularização do ridículo e do nocivo.

Se essa choldra não tem o interesse de destruir o que sobrou do Ocidente, está a mando e a soldo de quem o deseja. Lembremos que a infâmia tem dedo do Itaú, outro banco.

O fechamento de tal exposição não é censura, mas a negação de que tais manifestações sejam mesmo classificadas como arte. Arte não choca. Se você quer chocar, sente-se sobre uns ovos. De preferência, longe de câmeras e janelas.

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Governo Bolsonaro

As atuais condições políticas indicam uma vitória do deputado Jair Bolsonaro (Patriotas-RJ) na eleição para presidente da República, mas um quase certo governo Bolsonaro não será fácil, não obstante a provável redução da bancada da esquerda no Congresso Nacional.

Muitos dos nossos parlamentares, sem ideologia alguma a não ser a da locupletação pessoal, tendem ao “centrão”, e isso hoje quer dizer ficar em cima do muro, com opiniões pautadas pelo politicamente correto. Bolsonaro enfrentará um parlamento hostil a suas propostas, chiliquento; e aí reside um dos grandes mitos da política brasileira: prestamos muita atenção a quem colocamos na curul presidencial, mas elegemos qualquer idiota para nos representar no Congresso. Basta ver as caras do chamado “baixo clero”: representam o que de mais asqueroso há na sociedade brasileira, seja em vícios como fisionomia — Lombroso adoraria vê-los e classificá-los. É com esse tipo de gente, interesseira e fisiologista, que Jair Bolsonaro terá de haver-se, infelizmente.

O governo Bolsonaro será o começo de uma reviravolta na vida pública brasileira, mas, como toda mudança, não será fácil. E nem será imediata, como muita gente pensa.

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Passando recibo

No artigo anterior, sobre o depoimento de Antônio Palocci, tecemos algumas considerações breves a respeito das reações lulescas às declarações do ex-aliado. A carta em que Palocci pede sua desfiliação do PT, dirigida a Gleisi Hoffmann, presidente da organização criminosa, expôs com ainda mais clareza a minha teoria de que o PT não seria destruído por alguma força extrapartidária, mas por seus próprios membros.

Palocci, o novo Roberto Jefferson, pôs as coisas em termos que já usamos há muito para tratar do PT; o uso de “seita” é o mais sintomático do novo momento. A deputada Maria do Rosário, muito conhecida por seus chiliques e pelos processos intimidadores contra quem não lhe faz coro, disse, pelo Twitter, que Palocci não fala como “homem livre”, insinuando que o ex-ministro fora coagido a escrever daquela maneira.

Acontece que os que se sentem apeados da posição privilegiada que tinham sob as asas de Lula, e não têm mais a quem recorrer, estão jogando os “ídolos” ao fogo para tentar salvar-se. Palocci tem a perspectiva de apodrecer na cadeia, como está acontecendo como Zé Dirceu e, abandonado por Lula, que mal tem conseguido defender-se, resolveu abrir o bico e entregar as falcatruas do chefe.

Palocci passou o recibo a Lula. E, convenhamos, recibos muito mais legítimos que os de aluguel apresentados por Lula a Sérgio Moro, vergonhosamente falsificados.

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Teste David cum Sybilla

Depois do depoimento fracassado de Lula, em que ele chama o ex-aliado Palocci de dissimulado, frio e calculista, minha esposa me lembrou de uma das minhas “profecias”.

Há coisa de uns dois anos, eu disse que o PT não seria destruído por nenhum partido da oposição, porque, como já bem se percebeu, a oposição tem rabo preso com as mesmas pessoas. O PT sofreria um processo de autofagocitação. Conforme os cabecilhas fossem presos e delatando, o castelo de areia e excremento do PT e de parte da esquerda viraria um montão de sujeira. Dito e feito: o partido caminha para um ocaso sujo, enlameado no descrédito e com seu principal pilar carismático, Lula, transformado numa caricatura ridícula, um homúnculo que joga o peso das acusações nas costas da mulher defunta.

Está acabando. Acabou.

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A exposição do ódio

Apenas mais algumas considerações sobre a barafunda da exposição de pseudoarte.

Muita gente, inclusive o filósofo Luiz Felipe Ponde, resumiu a questão à mera escolha, ou seja, se algo não me agrada, basta não ir ver. Mas não podemos ser assim tão simplistas.

O Santander ter recuado e tirado a exposição de seu recinto cultural mostra, pela primeira vez em muito tempo, uma capacidade de reação do brasileiro que há muito parecia perdida: a de indignar-se. Não há nada mais grave para um banco que perder correntistas. É dinheiro que se vai, e arte, para banco, é apenas u’a maneira de fazer meio de campo com a turminha pseudointelectual. Assim que começou a debandada de contas — fala-se em até 20 mil —, o Santander, desesperado, e com razão, suspendeu a exposição.

O fim da exposição é um marco. A população, sem apoio de políticos ou de instituições, mostrou capacidade de mobilizar-se por algo que acredita justo, valendo-se basicamente das redes sociais. A esquerda, a maior derrotada dessa história toda pelo seu apoio ao lixo artístico, teve questionado seu papel de intelligentsia e vai passar a enfrentar resistência cada vez maiores em nichos que considerava praticamente feudos, como a arte e a cultura.

A turminha estava acostumada a fazer seus disparates — exposições, instalações e outras ‘ções’ — regados a dinheiro público, mas agora vê-se diante de um novo cenário, bem mais hostil a manifestações pseudoartísticas. Curioso, porque a coisa se inverteu. O quanto essa gente não encheu o saco em ocasiões anteriores, como o boicote ao Festival de Cinema do Recife, unicamente porque o filme “O Jardim das Aflições” estava inscrito no evento.

Depois das reações por conta do fim da exposição em Porto Alegre, a única coisa exposta é o ódio da esquerda, justamente o sentimento mais atribuído a qualquer um que não compactue dos mesmos ideais.

São novos tempos. E 2018 está aí.

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Arte quem nem arte é

Não tenho nada contra arte moderna, fora o fato de ela ser geralmente tosca e mal executada. O problema recente com a exposição “Queermuseu”, no Santander Cultural da capital gaúcha, vai muito além do fato de gostar ou não de arte ou de ser cristão ou não.

Os organizadores e os bate-paus da imprensa dizem que a exposição sobre a “diversidade sexual” foi cancelada. Lá havia telas que mostram crianças com frases acerca da sexualidade destas. Basicamente é a sexualização de crianças, prato cheio para os pedófilos.

O fato de tal arte ser ruim e que há gente que a defenda é compreensível. Se merda enlatada pode ser considerada arte, tecnicamente qualquer coisa pode sê-lo. Tudo tem seu mercado consumidor, por mais pavoroso que seja, como pornô com excrementos e chuva de mijo. A grita generalizada e o consequente fechamento da exposição nada têm a ver com arte; o fato de ser produção de baixa qualidade, provavelmente organizada por gente apenas a fim de ganhar uns trocos, é o de menos. O problema é querer que aceitemos desvios sexuais e taras com crianças e animais como algo natural. A população, por mais alienada que seja, tem escrúpulos e direito de manifestar-se contra o que considera potencialmente nocivo.

Rebaixar as manifestações à simples ignorância, de que as pessoas não entendem de arte ou são “fascistas”, é argumento vazio e nitidamente mal-intencionado. Pois ali nem arte há.

Se você curte um pornozão com merda e mijo, fique sossegado: você está no seu direito e nas suas taras. Apenas não peça que as pessoas aceitem e deixe as crianças longe disso. Do resto, vale até sexo com um tomahawk no rabo.

Organizadores e patrocinadores deram sorte. Se tal infâmia fosse num país islâmico, a coisa teria terminado com explosões ou xadrez e chibata.

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