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Irreparabile fugit tempus

Quando “Xica da Silva” começou a ser transmitida pela finada Rede Manchete, canal 9 de São Paulo, eu estava terminando o oitavo ano do primeiro grau, o equivalente hoje ao novo do fundamental, ou seja estava terminando a etapa.
 
Eu me lembro muito bem que as pessoas consideravam a novela uma espécie de Cine Privé* continuado, ou seja, um pornô soft com historinha sem graça. O negócio mesmo era ver a Taís Araújo, na glória de seus dezessete aninhos, deixar ver um bico de peito ou uma forma mais arredondada das suas, hum, nalgas. Ou mesmo dos ombros nus.
 
Qual não foi minha surpresa estes dias, quando um desses sites que faz “jornalismo de listas” citou a novela como “a primeira com uma protagonista negra”.
 
Nem sei se de fato isso condiz com a realidade, mas vejam vocês como o tempo muda e (de)forma o nosso juízo. Eu não sou o fedelho pretensioso de quinze anos que era na ocasião, e “Xica da Silva” foi alçada de novelinha que velhões cansados acompanhavam com a esposa apenas para ver uma peitolinha e não incorrerem em sanção conjugal a “produção artística” lacradora.
O tempora, o mores!
* * *
* Cine Privé era nome do espaço de cinema adulto softcore que a Rede Bandeirantes, canal 13 de São Paulo, levava ao ar com produções B do gênero.
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Yo quisiera ser argentino

O Brasil nos afasta de sermos brasileiros porque nosso nacionalismo é feito de paisagens: praias, corcovados, cachoeiras. Não há nada mais sólido que nos una, temos apenas esse amor telúrico e irracional, não há tradições sólidas, não há uma cultura digna desse nome. Apenas rastros no meio da selva e prédios feios de concreto armado. Um nacionalismo de cartões-postais baratos.

Cuspimos no melhor que poderíamos ter como povo de origem colonial: as relações preferenciais com Portugal, sua história e sua língua. Assim que nos separamos, cuspimos no prato e agarramo-nos à França, essa prostituta de setecentos anos. Deixamos uma Lisboa pombalina para morar num lupanar parisiense. Herdamos toda a parte ruim da cultura francesa em cópulas infamantes. O Brasil está sempre agarrado à puta do momento, seja a França, o Reino Unido ou os Estados Unidos.

Não bastassem as doenças próprias, nossos impaludismos da alma, e as doenças venéreas estrangeiras, criamos uma síndrome preconceituosa contra os argentinos. Sim, guerreamos com eles, mas há coisa de quase duzentos anos, mas também lutamos juntos, como contra o Nero paraguaios, Solano López. A rixa nas armas deu lugar aos extremismos futebolísticos.

Maradona, Pelé; Pelé, Maradona. Quem é o melhor? Os argentinos ficam com Maradona, cada vez mais parecido com o objeto que costumava chutar; os brasileiros ficamos com Pelé, digníssimo no que fez, não no que fala, e por ser compatriota. Também temos mais títulos mundiais que eles: cinco, nós, e os argentinos, dois.

Mas nada além da presunção futebolística e naturalística sustenta nosso orgulho pátrio.

Basta ver quantos prêmios Nobel detém a Argentina: cinco. Dois da paz, dois de fisiologia ou medicina e um de química. Nós, apesar do tamanho e da verba que nossa academia consome, não temos galardão algum do gênero.

Fora a questão literária, que é a que mais me interessa. Embora não tenham Nobel nessa área, os argentinos têm um século XX recheado de autores excelsos, como o hors-concours Jorge Luis Borges, Ernesto Sabato, Adolfo Bioy Casares e ainda outros menores. Nós temos de nos contentar com esteticismo esquisito de Guimarães Rosa e algo como “Macunaíma” elevado a clássico por falta de algo melhor. Do século XX, só Lima Barreto nos salva.

O brasileiro nunca está contente com sua identidade nacional; ele passa por várias fases de querer ser outra coisa e, com o tempo, resigna-se ao pavilhão verde e amarelo. Não que as outras nacionalidades sejam melhores, afinal, nacionalidade implica em carregar um Estado nas costas, mas é que a nossa não tem quase nada a oferecer.

Não tenho mais pretensões. Uma nacionalidade é mais que documentos, geografia, política e economia; é principalmente cultura. E, esse ponto, posso dizer que tendo mais ao estuário do Prata que à baía de Guanabara ou ao sertões áridos.

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Parasitas do pensamento

A faceta mais malévola do politicamente correto é a autocensura, um cisticerco que se implanta na cabeça da gente, que a parasita e a impede de pensar com coerência.

Lembro-me bem de dois episódios ocorridos dentro da redação do jornal em que trabalhei. Aliás, é curioso como se comportam os jornalistas em cativeiro: gostam de jactanciar-se, de iludir-se num espírito coletivo difuso, na guilda que formam — e nesse sentido só perdem para os advogados —, mas borram-se quando alguma manifestação de descontentamento chega de fora e os atinge dentro do palácio de cristal.

Um dos episódios tem relação com o uso da expressão “lista negra” em u’a matéria. A diretora do órgão municipal das políticas para a população afro ligou para a redação. Não sei qual foi o teor exato do telefonema, mas nosso diretor apareceu suado e vermelho, pedindo prudência no uso desses termos. Não adiantou dizer-lhe que o uso da expressão era consagrado e nada tinha a ver com a cor de pele ou com a etnia de outrem, o diretor deixou escapar o que tentara dourar antes: era uma proibição. A lógica ou a etimologia não faziam parte dos motivos da decisão, que se baseou apenas no achismo de uma apaniguada da administração municipal.

O outro episódio me vem à mente por conta de um comentário sobre um traveco que canta — há controvérsias nesse ponto —, o tal Pablo Vitar. Discuti com uma jornalista que deveria ser o travesti, já que, originalmente, a pessoa que seria referenciada era homem. Aí foi um rosário de justificativas e imposições do politicamente correto, porque o travestido em questão “não se sentia homem”, o que não é questão para a gramática, mas para a psiquiatria. A gramática preocupa-se apenas com concordância nominal.

Esses dois fatos lembraram um terceiro: uso da palavra paraolímpico. O Comitê Paraolímpico Brasileiro cismou em usar um decalque do inglês em seu nome, “paralímpico”, construção tão espúria quanto ridícula. Sendo o neologismo falto de base lógica, continuei a usar “paraolímpico” e seus derivados; afinal, se a autoridade da Academia Brasileira de Letras no assunto já é duvidosa, que dirá a de uma organela paraestatal. Ela tem autoridade sobre desportos paraolímpicos; sobre palavras, que a deixe para quem pode.

Num plantão da redação, uma repórter veio com o jornal do dia dizendo que “havia um erro”. Mesmo em se tratando de um jornal pequeno e com revisor, cargo ocupado então por mim, era impossível que o jornal saísse sem erro algum, pois é uma quantidade considerável de texto para ser revisada em coisa de cinco horas. Fora a correria desnecessária que costuma haver nesse tipo de ambiente, o que prejudica ainda mais a qualidade do trabalho.

E lá veio a mulher com o jornal. “Olha, aqui está ‘paraolímpico’; está errado, pois o certo é ‘paralímpico’”. Tudo bem, mas está errado com base em quê? No dicionário (o Houaiss, no caso) só consta “paraolímpico”. “Foi o comitê que ‘decretou’”. Primeiro: comitê não decreta nada, pois não é executivo eleito por voto direto, a quem é dada a faculdade de emitir decretos; segundo: o assunto deles são esportes olímpicos para deficientes, não ortografia; terceiro: como já dito antes, a construção é bastarda e sem sentido.

Pois não teve jeito: a mulher fez ouvidos moucos saiu trombetando o ‘erro’ na redação toda.

A questão dos ‘erros’ é assunto para outro texto, e mostra o quanto as pessoas não gostam de estudar nada, menos ainda o vernáculo. Apegam-se a uma possibilidade e basta; o resto é erro.

Esses três casos mostram bem os estragos que o politicamente correto faz ao idioma e ao raciocínio das pessoas. O medo de ‘ofender’ quem quer que seja as transforma em zumbis, e assim a novilíngua politicamente correta vai ampliando seu vocabulário e seus horizontes.

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O passageiro

Quando me empurraram para dentro da cabina, jurei vingança.

— Você vai ficar lá três minutos. O que pode fazer para mudar o rumo dos acontecimentos?

Eu havia sido preso por ter uns jornais britânicos comigo, uns recortes, o que era crime na União Indiana. Transferiram-me para um campo de trabalhos forçados perto Bloemfontein, ou sei lá como esses gujaratis chamam a cidade, pois trocaram o nome de quase todas depois da invasão. Cheguei ao campo em 25 de maio de 2155 e lá fiquei por cinco anos, atém que me arrancaram do campo e me enfiaram nessa cabina.

Explicaram-me, entre insultos, que a tal cabina, que se tratava de um experimento de viagem no tempo. A porcaria seria lançada ao espaço e giraria a velocidades incríveis em órbita contrária à da terra. Eu demoraria cerca de meia hora para voltar quatrocentos anos.

Empurraram-me para dentro do cubículo e mandaram que eu me fodesse.

— Mandem esse imundo para o espaço.

Subi, como um foguete e depois que a cápsula entrou em órbita, fique meia hora prensado no fundo, por conta da velocidade. Finalmente a cápsula ficou mais lenta e começou a cair. Um paraquedas abriu-se, deu para sentir.

Ao abrir a portinhola, dei de cara com uma paisagem pastoril. Ao longe, um grupo de pastores ou agricultores brancos agitava as mãos. Chegaram perto, com algum receio. Falavam inglês e levavam um fardo consigo. Eu poderia estar na Inglaterra ou nas Colônias da América do Norte.

— Quem és tu? Vens por parte de Deus ou de Belzebu?

Pelo linguajar e pelas roupas, o experimento dos indianos havia dado certo. Eu poderia me afastar da cápsula e ficar ali, no século XVII ou XVIII, mas os gujaratis haviam atado a mim explosivos que detonariam em três horas. Se eu quisesse viver, teria de voltar para a cápsula, mas viver no meio daqueles filhos da puta era o mesmo que morrer.

— O que levam no fardo?

— Jeanette. Acabou de morrer de bexigas. Vieste tu buscá-la?

— Sim; vim em nome de Deus arrebatá-la.

Fazia mais de 150 anos que a varíola estava extinta. Se morro, levo esse presentinho aos indianos. Passaram-me o fardo, que depositei no fundo da cápsula.

— Amém, irmãos. Agora afastai-vos, que a carruagem volta para os céus.

A porta travou e os motores rugiram. Em cinco minutos, estávamos eu e o cadáver de Jeanette prensados no fundo da cápsula; o lençol que o cobria escorregou e vi o rosto jovem, mas macilento, recoberto de feridas, com os olhos entreabertos.

A cápsula começou a cair. Outro paraquedas abriu-se. Caímos onde deveríamos cair, pois não tardou quinze minutos para que abrissem a porta. Os mesmos indianos oleosos; estávamos perto de Bloemfontein.

— O que você trouxe aí, seu branquelo?

— Um presente.

Dois oficiais trouxeram o fardo que continham Jeanette e o abriram.

— Mas que merda é essa? Um cadáver?

Tomei uma coronhada e caí por terra.

Leve esse idiota de volta para o campo e o cadáver para geladeira da morgue. Talvez tenha algo que o valha.

Em quatro dias, cinco oficiais do campo apresentaram os sinais da varíola. Eu também tive, mas fugi do campo e me refugiei numa gruta. A doença não me matou, mas me deixou com um aspecto pavoroso. Fiquei vivendo nas matas.

O êxodo que a doença provocou foi imenso. Muitas pessoas saíram das cidades para o campo, muita gente morreu, principalmente entre os ocupantes indianos. O renascimento da varíola em um mundo em que a doença não existia mais permitiu que a África do Sul, limitada à província do Cabo Ocidental, recobrasse forças e expulsasse os indianos. Graças à varíola.

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Afroetnicomatemática e outras bizarrices

Faz uns meses que a Universidade Federal do ABC (UFABC), no ABC Paulista, planejou enfiar no currículo obrigatório uma disciplina nomeada Afroetnicomatemática. A ideia, segundo seu propositor, o Coletivo Negro Vozes, era rebater a “supervalorização do pensamento de matriz europeia em detrimento da produção intelectual de origem africana”.

Sempre fui grosso em exatas. Vivo basicamente com as operações básicas, regras de três e frações. De resto, sou uma negação; passava nas matérias que exigiam cálculo com o mínimo necessário, raspando mesmo. Mas sempre reconheci o papel crucial da matemática, que nos permitiu o desenvolvimento, por exemplo, da eletrônica e, em consequência, da informática. Devemos tais desenvolvimentos a matemáticos europeus, que receberam a álgebra dos árabes, que a desenvolveram bem por conta de seu sistema de numeração, herdado, por sua vez da Índia. Uma contribuição única desse sistema foi a introdução de uma representação para o nada, o zero, palavra de origem árabe. Sem o zero e Blaise Pascal, o sistema binário, base da informática, seria impossível.

Temos então a matemática como uma ciência muito cultivada por árabes e desenvolvida por europeus. O que propõe então a tal disciplina de afroetnicomatemática? “Inúmeros estudos de grande credibilidade […] atestam as contribuições milenares da África para a formação do conhecimento científico que se desenvolveu no resto do mundo, como[,] por exemplo[,] a construção das pirâmides do antigo Egito”, diz o documento do coletivo.

Um coletivo chamado Negro Vozes, imagina-se, tem como motivo a recuperação da herança africana no Brasil, basicamente de povos subsaarianos, mas a inclusão do Egito antigo nessa história traz dois fatores: um panafricanismo amalucado, de cepa gaddafi-nasseriana, que ignora a divisão clara entre o norte da África, árabe, e a região subsaariana, com interconexões, mas etnicamente muito diversa, além de um anacronismo patente. O antigo Egito pode ser considerado uma civilização africana? Apenas em conceituação geográfica arbitrária. A África não é, e nunca foi, um conjunto cultural coeso.

Na África subsaariana tínhamos basicamente povos ágrafos, ou seja, povos que tinham de transmitir seus conhecimentos oralmente, fato que limita e muito a transmissão eficaz e, o mais importante, a acumulação do conhecimento. O uso da escrita é tão importante que se considera como marco inicial da história, em oposição à pré-história; qualquer livro didático sério de história não me deixa mentir.

A tentativa de relativizar uma ciência exata, embora ridícula, abre precedentes perigosos. Fica parecendo que qualquer coisa pode ser subjetiva, como acontece com as ciências humanas e é fonte de seu atual estágio de destruição e descrédito. A tal afroetnicomatemática tem um conceito que é mais feio que seu nome — nome, aliás, todo composto com prefixos e radical de línguas indo-europeias —: a relativização cultural. Matemática não pode ser reduzida a manifestações culturais, ou estará excessivamente limitada e descontextualizada. Falar em geometria dando como exemplo as pirâmides é fácil e desonesto. Qual a contribuição dos povos bantos no desenvolvimento do sistema binário ou do teorema de Tales? Que tais povos tenham a repetição de padrões geométricos para fins estéticos não os põe na vanguarda da geometria. Usar padrões geométricos não quer dizer que se pensava neles com algum fim que fosse além da decoração.

E certamente não é com iniciativas desse cariz, panfletárias, que o Brasil vai conseguir um Nobel.

Por sorte, por conta da repercussão negativa, a UFABC recuou nessa loucura. Quem disse que a opinião pública não serve de nada?

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Arrazoando a ração

Ração vem de ratiorationis, latim que quer dizer parte, como efetivamente se mostra na palavra razão, com o sentido de parte. Antes de ser associada à comida animal, ração é sinônimo de alimento, é a comida diária do soldado, sua parte, sua ração. Ou mesmo como adjetivo, como o racionamento de comida que ocorreu em vários países europeus durante e após a Segunda Guerra.

O chilique provocado pela ração humana do prefeito de São Paulo, João Dória, foi ambidestro. O produto (ou subproduto) alimentício seria distribuído à população carente do município.

Tanto a esquerda como a direita fustigaram a ação. Os canhotos dizem que é desumano dar aquilo de comer às pessoas; os destros, que é desumano dar aquilo de comer às pessoas e que há dedo da elite globalista ali.

O curioso é que esse mesmo produto, a tal ração humana, até outro dia, era considerado um produto fitness, da moçada que puxa ferro e cuja meta de vida não é outra que a busca do abdome tanquinho, o Santo Graal do narcisismo moderno.

Logo, os transportes dos clubinhos não têm razão alguma a não ser a de criar celeuma. Não que Dória valha algo, pois, mesmo como alpinista político, está deixando a desejar. A ração é mamona na briga de rua em que se transformou o debate político. A inobservância semântica — ou mesmo o puro e simples analfabetismo funcional de conveniência — é fonte de falácias argumentativas.

Ora, raciocinemos e sejamos razoáveis.

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Soy un truhan, soy un señor – uma pseudocontradição constitucionalista

Peguei-me em uma possível contradição e sinto-me na obrigação de aclará-la. Ninguém gosta de ser pego em contradições. Mas, como diria o mestre Julio Iglesias, “Hey, no vayas presumiendo por ahí…”.

Se há um documento jurídico mais irritante que a Constituição Federal de 1988, eu não o conheço. Sempre defendi que a nossa carta magna é uma geringonça que funciona mal e, não obstante ter sido apodada “constituição cidadã”, ela está mais para constituição totalitária, pois quer regular tudo e mais um pouco; muito do que deveria ser legislação infraconstitucional está embutido lá, numa marchetaria de gosto e eficácia duvidosos. Precisamos de um texto constitucional mais conciso e coerente, não um arremedo de texto populista e inútil.

Porém, quando Dilma foi ser cassada e começou a grita por eleições, defendi a aplicação da Constituição, do seu art. 80, que previa a posse do vice, pois, nessa parte, ou seja, na regulação do funcionamento do poder político, ela é aceitável. Não se pode simplesmente mudar as regras do jogo com a partida em andamento. Tampouco defendo que o texto constitucional é imutável, mas que as mudanças, que podem e devem ser feitas, não podem simplesmente seguir ao sabor das conveniências momentâneas, como foi feito à época da Emenda da Reeleição (1997).

Além dessa aparente contradição, pego-me em uma mais recente, no caso da independência catalã. Como defendi a constitucionalidade do afastamento de Dilma, vejo, seja aqui como em Espanha, gente a dizer que a separação é ilegal porque contraria a Constituição espanhola de 1978.

A Constituição de 1978 tem uma grande desvantagem e uma grande vantagem. A primeira também impacta a nossa, só que de maneira diferente: as duas foram escritas em um período de transição, de término de um período totalitário — se bem que a nossa ditadura rotativa foi ficha comparada ao regime de Francisco Franco. No caso espanhol, o texto teve de incluir dispositivos e fórmulas para agradar aos dois lados, a turma do Movimento Nacional, que deixava o poder, e o PSOE, que se articulava para governar Espanha em breve. No nosso caso, a Constituição encheu-se de penduricalhos para evitar o “autoritarismo estatal”. Pois bem, hoje sabemos como esses mecanismos são usados para acobertar malfeitos. A Constituição Federal foi elaborada pela Assembleia Constituinte e entrou em vigor em 5 de outubro de 1988.

A vantagem da Constituição espanhola é ela ter sido referendada. Após a elaboração pelas Cortes constituintes, o texto foi referendado pela população em 6 de dezembro de 1978, o que deu vigência à carta a partir de 29 de dezembro. A Constituição Federal não deveria ter passado por processo similar?

Em todas as circunscrições eleitorais a carta espanhola foi aprovada, com índices que variaram entre 64,6% (Guipúscoa/País Basco) e 93,6% (Santa Cruz de Tenerife/Canárias). Tal processo torna a Constituição espanhola mais legítima que a nossa.

Então, por que desrespeitá-la, já que ela diz, em seu art. 2º que:

A Constituição fundamenta-se na unidade indissolúvel da Nação espanhola, pátria comum e indivisível de todos os espanhóis, e reconhece e garante o direito à autonomia das nacionalidades e regiões que a integram e a solidariedade entre todas elas. (tradução nossa)

Nosso texto traz no caput do art. 1º:

A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito […]

Não estamos mais falando do funcionamento político do Estado, como era o mecanismo de afastamento do presidente da República, mas de uma cláusula que impede o que se chama de autodeterminação dos povos.

Se considerarmos que uma Constituição é imutável, a Constituição Sul-Africana de 1961 incorporava e validava a legislação prévia que criou o conceito de “desenvolvimento separado”, o Apartheid, como o Separate Representation of Voters Act (1951), o Prohibition of Mixed Marriages Act (1949) e o Population Registration Act (1950), que davam arcabouço legal ao regime de segregação racial. Pois bem, algo extremamente injusto e desumano, mas que estava contemplado em leis e na constituição.

Logo, nos meus posicionamentos vários com relações às questões envolvendo o constitucionalismo brasileiro e o espanhol, não há, de fato, incoerência, mas, sim, a interpretação de mecanismos justos e injustos. Manter um povo dentro de uma “nação” da qual ele não se sente parte é injusto, mesmo que a Constituição diga que o país é “indissolúvel”. E a história mostra em várias ocasiões que não há nação indivisibiliter ac inseparabiliter eterna e que não foram apenas leis que serviram de respaldo às aspirações nacionais, mas revoltas, desobediência civil e guerras. O Estado romano, em seus quase mil anos de existência, foi, certamente, muito mais sólido que Espanha e, sem sobra de dúvida, que o Brasil. Mesmo essa estabilidade não impediu que ele ruísse de desse origem aos estados bárbaros, que são a gênese dos estados que estão hoje na Europa latina, ocupando o espaço territorial do Império. O que faz pensar que esses estados possam ser eternos e indivisíveis?

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