Laçando bois

Estava eu em casa, pensando com meus botões. Fiz dois quadros com cédulas brasileiras repetidas da minha coleção; em um deles, doze cédulas dos anos 1950 e 1960; no outro, mais doze, que cobrem o período de 1981 a 2002. Neste último quadro, coloquei a famosa peça do gaúcho, de 5 mil cruzeiros reais, emitida em 1993. As duas últimas emissões desse padrão, os valores de 5 mil e 50 mil — além da de 10 mil, da rendeira, concebida mas nunca emitida — atraem-me por conta da estética diferente: além da representação de “protótipos” populares — o gaúcho e a baiana, algo que me lembra vagamente as emissões iugoslavas de 1950 a 1989 — havia nelas um prenúncio da primeira série do real, que é o verso “deitado”, ou seja a vertical da imagem alinhada com a horizontal da cédula.

No caso do meu quadro, deixei a cédula do gaúcho mostrando seu verso, que tem a representação de um gaúcho a cavalo prestes a laçar um boi. Penso o que aconteceria se uma cédula com essa imagem fosse lançada hoje, a repercussão negativa que traria, a grita generalizada. Na época, eu tinha onze anos; sempre prestei muita atenção às emissões de cédulas e moedas, pois coleciono desde os seis anos, e, mesmo que a cédula em questão tenha demorado em chegar à minha mão — na verdade, como ela foi lançada meses antes do Plano Real, vi realmente poucas — não me lembro de nenhum comentário que a desqualificasse pela arte do verso.

Isso me veio à mente após o exame fugaz do exemplar no quadro de casa e da questão da nova — já não tão nova assim — cédula inglesa de 5 libras ornamentada com o retrato de Winston Churchill. Vegetontos — gosto de chamá-los assim — estavam boicotando os fives porque na composição do polímero da cédula estava presente uma substância animal. Vejam, nem se tratava do quem a cédula trazia representado, o grande primeiro-ministro do período da Segunda Guerra Mundial, mas uma substância presente no suporte da cédula.

Imaginem agora se uma cédula brasileira com a temática do gaúcho, tal qual aquela de 5 mil cruzeiros reais, fosse lançada hoje, os chiliques a que estaríamos sujeitos nas redes sociais, as síncopes, os protestos, os abaixo-assinados motivados pela figura de um gaúcho laçando um boi.

Esse tipo de megassensibilidade ridícula empurrou países a fazerem cédulas inócuas e sem graça, como o nosso real, o euro e outras mundo afora. Se a ditadura dos ofendidos não existe, eu não saberia explicar o porquê de papel-moeda que parece dinheirinho do Banco Imobiliário ou do Jogo da Vida. Morto, sem graça, representativo de nada. O politicamente correto matou até a única possibilidade que o dinheiro tinha de ser algo minimamente vivo.

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