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Yo quisiera ser argentino

O Brasil nos afasta de sermos brasileiros porque nosso nacionalismo é feito de paisagens: praias, corcovados, cachoeiras. Não há nada mais sólido que nos una, temos apenas esse amor telúrico e irracional, não há tradições sólidas, não há uma cultura digna desse nome. Apenas rastros no meio da selva e prédios feios de concreto armado. Um nacionalismo de cartões-postais baratos.

Cuspimos no melhor que poderíamos ter como povo de origem colonial: as relações preferenciais com Portugal, sua história e sua língua. Assim que nos separamos, cuspimos no prato e agarramo-nos à França, essa prostituta de setecentos anos. Deixamos uma Lisboa pombalina para morar num lupanar parisiense. Herdamos toda a parte ruim da cultura francesa em cópulas infamantes. O Brasil está sempre agarrado à puta do momento, seja a França, o Reino Unido ou os Estados Unidos.

Não bastassem as doenças próprias, nossos impaludismos da alma, e as doenças venéreas estrangeiras, criamos uma síndrome preconceituosa contra os argentinos. Sim, guerreamos com eles, mas há coisa de quase duzentos anos, mas também lutamos juntos, como contra o Nero paraguaios, Solano López. A rixa nas armas deu lugar aos extremismos futebolísticos.

Maradona, Pelé; Pelé, Maradona. Quem é o melhor? Os argentinos ficam com Maradona, cada vez mais parecido com o objeto que costumava chutar; os brasileiros ficamos com Pelé, digníssimo no que fez, não no que fala, e por ser compatriota. Também temos mais títulos mundiais que eles: cinco, nós, e os argentinos, dois.

Mas nada além da presunção futebolística e naturalística sustenta nosso orgulho pátrio.

Basta ver quantos prêmios Nobel detém a Argentina: cinco. Dois da paz, dois de fisiologia ou medicina e um de química. Nós, apesar do tamanho e da verba que nossa academia consome, não temos galardão algum do gênero.

Fora a questão literária, que é a que mais me interessa. Embora não tenham Nobel nessa área, os argentinos têm um século XX recheado de autores excelsos, como o hors-concours Jorge Luis Borges, Ernesto Sabato, Adolfo Bioy Casares e ainda outros menores. Nós temos de nos contentar com esteticismo esquisito de Guimarães Rosa e algo como “Macunaíma” elevado a clássico por falta de algo melhor. Do século XX, só Lima Barreto nos salva.

O brasileiro nunca está contente com sua identidade nacional; ele passa por várias fases de querer ser outra coisa e, com o tempo, resigna-se ao pavilhão verde e amarelo. Não que as outras nacionalidades sejam melhores, afinal, nacionalidade implica em carregar um Estado nas costas, mas é que a nossa não tem quase nada a oferecer.

Não tenho mais pretensões. Uma nacionalidade é mais que documentos, geografia, política e economia; é principalmente cultura. E, esse ponto, posso dizer que tendo mais ao estuário do Prata que à baía de Guanabara ou ao sertões áridos.

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