Parasitas do pensamento

A faceta mais malévola do politicamente correto é a autocensura, um cisticerco que se implanta na cabeça da gente, que a parasita e a impede de pensar com coerência.

Lembro-me bem de dois episódios ocorridos dentro da redação do jornal em que trabalhei. Aliás, é curioso como se comportam os jornalistas em cativeiro: gostam de jactanciar-se, de iludir-se num espírito coletivo difuso, na guilda que formam — e nesse sentido só perdem para os advogados —, mas borram-se quando alguma manifestação de descontentamento chega de fora e os atinge dentro do palácio de cristal.

Um dos episódios tem relação com o uso da expressão “lista negra” em u’a matéria. A diretora do órgão municipal das políticas para a população afro ligou para a redação. Não sei qual foi o teor exato do telefonema, mas nosso diretor apareceu suado e vermelho, pedindo prudência no uso desses termos. Não adiantou dizer-lhe que o uso da expressão era consagrado e nada tinha a ver com a cor de pele ou com a etnia de outrem, o diretor deixou escapar o que tentara dourar antes: era uma proibição. A lógica ou a etimologia não faziam parte dos motivos da decisão, que se baseou apenas no achismo de uma apaniguada da administração municipal.

O outro episódio me vem à mente por conta de um comentário sobre um traveco que canta — há controvérsias nesse ponto —, o tal Pablo Vitar. Discuti com uma jornalista que deveria ser o travesti, já que, originalmente, a pessoa que seria referenciada era homem. Aí foi um rosário de justificativas e imposições do politicamente correto, porque o travestido em questão “não se sentia homem”, o que não é questão para a gramática, mas para a psiquiatria. A gramática preocupa-se apenas com concordância nominal.

Esses dois fatos lembraram um terceiro: uso da palavra paraolímpico. O Comitê Paraolímpico Brasileiro cismou em usar um decalque do inglês em seu nome, “paralímpico”, construção tão espúria quanto ridícula. Sendo o neologismo falto de base lógica, continuei a usar “paraolímpico” e seus derivados; afinal, se a autoridade da Academia Brasileira de Letras no assunto já é duvidosa, que dirá a de uma organela paraestatal. Ela tem autoridade sobre desportos paraolímpicos; sobre palavras, que a deixe para quem pode.

Num plantão da redação, uma repórter veio com o jornal do dia dizendo que “havia um erro”. Mesmo em se tratando de um jornal pequeno e com revisor, cargo ocupado então por mim, era impossível que o jornal saísse sem erro algum, pois é uma quantidade considerável de texto para ser revisada em coisa de cinco horas. Fora a correria desnecessária que costuma haver nesse tipo de ambiente, o que prejudica ainda mais a qualidade do trabalho.

E lá veio a mulher com o jornal. “Olha, aqui está ‘paraolímpico’; está errado, pois o certo é ‘paralímpico’”. Tudo bem, mas está errado com base em quê? No dicionário (o Houaiss, no caso) só consta “paraolímpico”. “Foi o comitê que ‘decretou’”. Primeiro: comitê não decreta nada, pois não é executivo eleito por voto direto, a quem é dada a faculdade de emitir decretos; segundo: o assunto deles são esportes olímpicos para deficientes, não ortografia; terceiro: como já dito antes, a construção é bastarda e sem sentido.

Pois não teve jeito: a mulher fez ouvidos moucos saiu trombetando o ‘erro’ na redação toda.

A questão dos ‘erros’ é assunto para outro texto, e mostra o quanto as pessoas não gostam de estudar nada, menos ainda o vernáculo. Apegam-se a uma possibilidade e basta; o resto é erro.

Esses três casos mostram bem os estragos que o politicamente correto faz ao idioma e ao raciocínio das pessoas. O medo de ‘ofender’ quem quer que seja as transforma em zumbis, e assim a novilíngua politicamente correta vai ampliando seu vocabulário e seus horizontes.

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