O passageiro

Quando me empurraram para dentro da cabina, jurei vingança.

— Você vai ficar lá três minutos. O que pode fazer para mudar o rumo dos acontecimentos?

Eu havia sido preso por ter uns jornais britânicos comigo, uns recortes, o que era crime na União Indiana. Transferiram-me para um campo de trabalhos forçados perto Bloemfontein, ou sei lá como esses gujaratis chamam a cidade, pois trocaram o nome de quase todas depois da invasão. Cheguei ao campo em 25 de maio de 2155 e lá fiquei por cinco anos, atém que me arrancaram do campo e me enfiaram nessa cabina.

Explicaram-me, entre insultos, que a tal cabina, que se tratava de um experimento de viagem no tempo. A porcaria seria lançada ao espaço e giraria a velocidades incríveis em órbita contrária à da terra. Eu demoraria cerca de meia hora para voltar quatrocentos anos.

Empurraram-me para dentro do cubículo e mandaram que eu me fodesse.

— Mandem esse imundo para o espaço.

Subi, como um foguete e depois que a cápsula entrou em órbita, fique meia hora prensado no fundo, por conta da velocidade. Finalmente a cápsula ficou mais lenta e começou a cair. Um paraquedas abriu-se, deu para sentir.

Ao abrir a portinhola, dei de cara com uma paisagem pastoril. Ao longe, um grupo de pastores ou agricultores brancos agitava as mãos. Chegaram perto, com algum receio. Falavam inglês e levavam um fardo consigo. Eu poderia estar na Inglaterra ou nas Colônias da América do Norte.

— Quem és tu? Vens por parte de Deus ou de Belzebu?

Pelo linguajar e pelas roupas, o experimento dos indianos havia dado certo. Eu poderia me afastar da cápsula e ficar ali, no século XVII ou XVIII, mas os gujaratis haviam atado a mim explosivos que detonariam em três horas. Se eu quisesse viver, teria de voltar para a cápsula, mas viver no meio daqueles filhos da puta era o mesmo que morrer.

— O que levam no fardo?

— Jeanette. Acabou de morrer de bexigas. Vieste tu buscá-la?

— Sim; vim em nome de Deus arrebatá-la.

Fazia mais de 150 anos que a varíola estava extinta. Se morro, levo esse presentinho aos indianos. Passaram-me o fardo, que depositei no fundo da cápsula.

— Amém, irmãos. Agora afastai-vos, que a carruagem volta para os céus.

A porta travou e os motores rugiram. Em cinco minutos, estávamos eu e o cadáver de Jeanette prensados no fundo da cápsula; o lençol que o cobria escorregou e vi o rosto jovem, mas macilento, recoberto de feridas, com os olhos entreabertos.

A cápsula começou a cair. Outro paraquedas abriu-se. Caímos onde deveríamos cair, pois não tardou quinze minutos para que abrissem a porta. Os mesmos indianos oleosos; estávamos perto de Bloemfontein.

— O que você trouxe aí, seu branquelo?

— Um presente.

Dois oficiais trouxeram o fardo que continham Jeanette e o abriram.

— Mas que merda é essa? Um cadáver?

Tomei uma coronhada e caí por terra.

Leve esse idiota de volta para o campo e o cadáver para geladeira da morgue. Talvez tenha algo que o valha.

Em quatro dias, cinco oficiais do campo apresentaram os sinais da varíola. Eu também tive, mas fugi do campo e me refugiei numa gruta. A doença não me matou, mas me deixou com um aspecto pavoroso. Fiquei vivendo nas matas.

O êxodo que a doença provocou foi imenso. Muitas pessoas saíram das cidades para o campo, muita gente morreu, principalmente entre os ocupantes indianos. O renascimento da varíola em um mundo em que a doença não existia mais permitiu que a África do Sul, limitada à província do Cabo Ocidental, recobrasse forças e expulsasse os indianos. Graças à varíola.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s