Malaparte e eu

Um de meus modelos literários é Curzio Malaparte. Hostilizado e esquecido na própria terra, a Itália, viveu duas guerras mundiais, testemunhou — e, vejam só, apoiou — a escalada do fascismo, de que rapidamente divorciou-se. Enfrentou desterro e prisão por ser um homem de opinião, um homem livre, como ele mesmo se definia. Ver, e principalmente viver, tanta coisa deu a Malaparte matéria à sua pena barroca; páginas e páginas de beleza e horror, como se fossem quadros de Bosch ou de El Greco, os aromas do campo ucraniano, um banquete numa legação diplomática em Helsinque.

Malaparte testemunhou e escreveu sobre os acontecimentos da Segunda Guerra diretamente das frentes de batalha. Depois do armistício de 1943, deixa a Itália — agora nas mãos dos alemães — e passa a colaborar com os Aliados. Seus dois melhores livros são relatos desse período; livros que qualquer pessoa que queira entender o decorrer da Segunda Guerra e o estofo de que é feito a Humanidade precisa ler.

Cada página de Malaparte é uma obra-prima, pois nelas há o que importa ser escrito e o talento de quem sabe escrever.

Comecei o texto falando de mim, indicando que Malaparte é um dos meus modelos. Agora, repensando, comecei dizendo que Malaparte é uma referência para mim. Dizer que ele é meu modelo equivale a dizer que consigo emulá-lo. Quem mo dera!

Gosto de literatura. Não de qualquer literatura, pois é sim preciso fazer diferença. Mas entre gostar de literatura e saber manejá-la há um abismo. A literatura é a mais bela e importante forma de arte, pois faz de palavras, das que usamos no dia a dia, material chão, base para reconstruir a realidade, matizar sentidos; escrever é ser um pouco Deus: fazer um boneco de barro e dar-lhe vida com um sopro. Tento há muito fazer algo que preste, mas entre as várias fases de textos sensaborões, hiatos longos. Agora mesmo saio de um deles. Jamais os chamaria de “jejum criativo”; fazê-lo seria a imodéstia suprema.

Malaparte viveu um período complicado da Humanidade e no epicentro da maior guerra do mundo até o momento. A mais assustadora porque não correu nos lamaçais ao sul, mas no miolo da civilização. Para mim — e quando digo para mim, digo também para qualquer aspirante a escritor coetâneo meu — parece que tudo já foi dito. O que escrever sem cair no banal ou no vulgar? Temáticas estas que são populares, claro, que despertam interesse, mas a cobra da vulgaridade muda de pele frequentemente e o que hoje interessa a todos pode ser comida de traça daqui a dez anos.

Claro que, além dos temas, é preciso talento. Nem todos tem a sorte de conjugar um período de vida interessante com o talento. E de modo algum digo que talento é dom. Não é. Talento é aperfeiçoamento. A sorte de Malaparte foi a conjunção do seu talento com o período.

Mas pode ser que eu esteja choramingando. Machado de Assis viveu numa sociedade provinciana, à borda do mundo, e construiu uma obra fantástica, pois explorou o que tinha mais à mão: a boçalidade humana.

Então, o que me resta? Ou melhor, o que nos resta, pois não estou sozinho nesse dilema. A vulgaridade oca dos hipsters de padaria que imitam Bukowski? A putaria obrigatória dos autores do Baixo Augusta? O relativismo cínico dos escrivinhadores da cantina da Letras da USP? O sicofantismo doentio que tomou conta de todos?

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