O fulgurante comércio de Araraquara

O comércio de Araraquara é famoso pelo mau atendimento. Mesmo os aborígenes têm essa opinião. Não obstante a folclórica má vontade, o comércio araraquarense é falto. Não tem quase nada além do estritamente básico; a imaginação não tem lugar, pois lhe falta o suporte material.

Narro dois fatos acontecidos comigo, ou seja, não é de orelha ou mera reprodução de boatos: vêm dos dedos que marcam estas teclas.

I

Por conta de uma pequena reforma em casa, fui a uma grande loja de ferragens de Araraquara. Aliás, loja em que você não consegue comprar um arame sem ter de falar com vendedor, quando não tem de fazer o objeto vir do almoxarifado. Pois bem; peguei o que precisava, um martelo incluso, e quando a vendedora perguntou se eu desejava mais alguma coisa, respondi-lhe que sim, pois não havia achado pregos.

— Não trabalhamos com pregos.

Sempre que alguém me diz que trabalha ou não com algo, imagino-a tendo por colegas de trabalho os objetos.

— Não trabalham? Um lugar que vende martelos, mas não vende pregos?

— Trabalhamos [de novo] apenas com ferramentas. — Uma resposta úmida como um golpe de vento no Sertão ao meio-dia.

É como um lugar que vende coador de papel para café e não vende o pó, ou cigarros, mas não isqueiro. É ilógico.

II

Há produtos que saem de moda, como certas peças de vestuário ou algumas palavras. O fato de algo não ser mais usado, ou pouco usado, não quer dizer que não exista. Mas quando você entra em algum lugar e o atendente faz cara de quem tivesse sido interpelado em servo-croata, você se sente um alienígena.

— Boa tarde. Tem goma-arábica?

— Quê?! — Nesse tom, entre a mofa e o descrédito, como se estivesse sendo vítima de uma pegadinha, me respondeu a balconista magrela.

— Go-ma-a-rá-bi-ca. — Talvez ela não tivesse entendido da primeira vez, eu compreendo; às vezes mastigo um pouco as palavras. Repito o pedido, silabando-o.

— Gomarábica?

— Goma. Arábica.

— E pra que serve?

— Ora, pra colar. Antigamente tinha nos correios, pra fechar as cartas… — Entreguei o quão antiga é essa história de goma-arábica.

— Ah, cartas. Não tem. — Se é para cartas, é coisa de velho. Logo, não há.

Agradeci e virei as costas. Pude sentir o olhar da magricela me queimando a nuca. Certeza que, na sequência, chamou os outros empregados e contou dum maluco que veio tirar um sarro dela dizendo que procurava “gosmarábica”.

— Ha! Mas eu sou mais esperta. Todo mundo sabe que papel se cola com cola.

E apenas como arremate, fica a vez em que tive de explicar a uma atendente de papelaria o que era uma caneta hidrográfica.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s