Monthly Archives: Julho 2017

Dumbo Dinamite

Ladrão é preso com explosivos; alvo era agência bancária

Da redação

A polícia prendeu na manhã desta quarta feira João Vilarinho, mais conhecido como Dumbo Dinamite. Polícia chegou a Dumbo por denúncia anônima, quando investigava o contrabando de 35 kg de dinamite, o que liga Dumbo às explosões de caixas eletrônicos ocorridas em janeiro último.

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Na coletiva de imprensa, a polícia permitiu que Dumbo Dinamite respondesse algumas perguntas. Mas apenas questões que fossem importantes para o caso.

— Reparei que você tem as orelhas pequenas. Por que Dumbo?

— É porque gosto do desenho. Choro sempre que vejo.

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Suspeito de posse de explosivos é fã de desenho animado

Da redação

Dumbo Dinamite, suspeito de roubo preso pela polícia, mostra seu lado humano: apelido vem de gosto pela animação homônima da Disney, em que um elefante de orelhas extremamente grandes, desacreditado pelos outros animais, acaba por voar.

O fato e a metáfora abrem o debate na sociedade: não seria precoce condenar as pessoas que têm seus sonhos interrompidos, como Dumbo Dinamite? O sociólogo Ferdinando Cortese diz que os sonhos interrompidos são os criadores das mazelas da sociedade, causadas principalmente pela desigualdade social, inerente ao capitalismo, nem representando nas instituições bancárias. “Dumbo tem as orelhas grandes, mas é desacreditado pelos outros animais do circo, que são, na verdade, escravos; assim é a nossa sociedade: somos animais de circo, cujo dono são os capitalistas, e nos comprazemos da desgraça de nossos semelhantes”, arremata Cortese.

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Banco indeniza Dumbo Dinamite

Da redação

Em decisão unânime, o Tribunal da Corte inocentou Dumbo Dinamite da acusação de roubo e condenou o banco que teve os caixas explodidos a pagar uma pensão vitalícia ao inocentado. O Banco Caraminguá não comentou a ação, mas fontes garantem que a instituição não recorrerá da decisão. O sociólogo Ferdinando Cortese, especialista em reabilitação social, comemorou o que chama de “lógica perversa do capitalismo”; aproveitando a deixa, Cortese diz que a decisão sobre o caso Dumbo Dinamite abre precedente para outras revisões de posição de empresas capitalistas.

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Ao vencedor, as batatas

Parece que o portal ACidadeOn, sucessor digital da Tribuna Araraquara, foi escolhido/eleito pela Associação Comercial e Industrial de Araraquara (Acia) como o melhor da cidade.

Ser o melhor portal de internet de Araraquara não significa nada, principalmente com uma concorrência indigente e faminta. Mais uma troca de carícias entre a Acia, que outorgou a “honraria”, e a EPTV, proprietária do portal premiado e afiliada da Rede Globo.

O mais dolorido para Araraquara é que o galardão vai inflar ainda mais o ego da burrocracia da empresa, que, apesar do prêmio, recusa-se a interpretar a cidade, valendo-se de esquemas pré-fabricados.

Aqui, algumas considerações sobre a relação da EPTV com a cidade de Araraquara, apenas para contextualização.

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2131 – I, XI

Começo da noite de 14 de maio, segunda.

Assim que entramos, fomos recebidos pelo comissário, que aparentava nervosismo extremo.

— Rápido, vamos pra sala de reunião do segundo andar.

Pelo prédio todo, policiais. Algo acontecera.

— Entrem, tranquem a porta e sentem-se.

O comissário acendeu apenas as luzes sobre a mesa principal; o restante da sala ficou na penumbra.

— O crânio foi roubado.

Ficamos sem palavras. Quase ninguém tinha conhecimento daquela operação.

— Não temos ideia do que ocorreu; a única pista que temos é o corpo do guarda que vigiava a sala. Ele foi envenenado. Mandamos gente às residências e locais de trabalho de vocês para achá-los, mas, pelo jeito, vocês já estavam a caminho. Geraldo não foi localizado…

Eu e Froilão nos olhamos.

— Comissário…

— E os senhores estão detidos até segunda ordem. Além do maluco e do ministro, apenas nós três tínhamos conhecimento da operação.

Pensei em argumentar, mas o comissário tinha razão. O sumiço de Geraldo e o roubo do crânio poderia ter sido ocultado por nós. Quando se está em operações de inteligência, rapidamente se chega à conclusões corretas.

O comissário saiu e um guarda entrou. Foi uma longa madrugada. Os barulhos no prédio rapidamente cessaram, o que indicava que as buscas e as investigações já estavam em outro lugar. Ficamos sentados naquela sala até o começo do dia seguinte; foi uma longa madrugada. O guarda não abriu a boca durante todas aquelas horas, e tampouco nós. Froilão tinha uma expressão desanimada; certamente se sentia traído por Geraldo.

Por volta de umas 7 horas, um intendente da comissão abriu a porta. Não conhecia aquele rosto. Com ele, entraram mais dois guardas.

— Froilão e Martim, correto?

— Sim.

— Pode algemá-los. — disse o intendente sem olhar para o nosso rosto.

Os guardas nos algemaram, nos retiraram do prédio, nos revistaram e nos puseram em um camburão. Credenciais, documentos e objetos foram confiscados.

Pensei no que seria de nós, onde terminaria tudo aquilo.

Fim da parte I.

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Malaparte e eu

Um de meus modelos literários é Curzio Malaparte. Hostilizado e esquecido na própria terra, a Itália, viveu duas guerras mundiais, testemunhou — e, vejam só, apoiou — a escalada do fascismo, de que rapidamente divorciou-se. Enfrentou desterro e prisão por ser um homem de opinião, um homem livre, como ele mesmo se definia. Ver, e principalmente viver, tanta coisa deu a Malaparte matéria à sua pena barroca; páginas e páginas de beleza e horror, como se fossem quadros de Bosch ou de El Greco, os aromas do campo ucraniano, um banquete numa legação diplomática em Helsinque.

Malaparte testemunhou e escreveu sobre os acontecimentos da Segunda Guerra diretamente das frentes de batalha. Depois do armistício de 1943, deixa a Itália — agora nas mãos dos alemães — e passa a colaborar com os Aliados. Seus dois melhores livros são relatos desse período; livros que qualquer pessoa que queira entender o decorrer da Segunda Guerra e o estofo de que é feito a Humanidade precisa ler.

Cada página de Malaparte é uma obra-prima, pois nelas há o que importa ser escrito e o talento de quem sabe escrever.

Comecei o texto falando de mim, indicando que Malaparte é um dos meus modelos. Agora, repensando, comecei dizendo que Malaparte é uma referência para mim. Dizer que ele é meu modelo equivale a dizer que consigo emulá-lo. Quem mo dera!

Gosto de literatura. Não de qualquer literatura, pois é sim preciso fazer diferença. Mas entre gostar de literatura e saber manejá-la há um abismo. A literatura é a mais bela e importante forma de arte, pois faz de palavras, das que usamos no dia a dia, material chão, base para reconstruir a realidade, matizar sentidos; escrever é ser um pouco Deus: fazer um boneco de barro e dar-lhe vida com um sopro. Tento há muito fazer algo que preste, mas entre as várias fases de textos sensaborões, hiatos longos. Agora mesmo saio de um deles. Jamais os chamaria de “jejum criativo”; fazê-lo seria a imodéstia suprema.

Malaparte viveu um período complicado da Humanidade e no epicentro da maior guerra do mundo até o momento. A mais assustadora porque não correu nos lamaçais ao sul, mas no miolo da civilização. Para mim — e quando digo para mim, digo também para qualquer aspirante a escritor coetâneo meu — parece que tudo já foi dito. O que escrever sem cair no banal ou no vulgar? Temáticas estas que são populares, claro, que despertam interesse, mas a cobra da vulgaridade muda de pele frequentemente e o que hoje interessa a todos pode ser comida de traça daqui a dez anos.

Claro que, além dos temas, é preciso talento. Nem todos tem a sorte de conjugar um período de vida interessante com o talento. E de modo algum digo que talento é dom. Não é. Talento é aperfeiçoamento. A sorte de Malaparte foi a conjunção do seu talento com o período.

Mas pode ser que eu esteja choramingando. Machado de Assis viveu numa sociedade provinciana, à borda do mundo, e construiu uma obra fantástica, pois explorou o que tinha mais à mão: a boçalidade humana.

Então, o que me resta? Ou melhor, o que nos resta, pois não estou sozinho nesse dilema. A vulgaridade oca dos hipsters de padaria que imitam Bukowski? A putaria obrigatória dos autores do Baixo Augusta? O relativismo cínico dos escrivinhadores da cantina da Letras da USP? O sicofantismo doentio que tomou conta de todos?

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O fulgurante comércio de Araraquara

O comércio de Araraquara é famoso pelo mau atendimento. Mesmo os aborígenes têm essa opinião. Não obstante a folclórica má vontade, o comércio araraquarense é falto. Não tem quase nada além do estritamente básico; a imaginação não tem lugar, pois lhe falta o suporte material.

Narro dois fatos acontecidos comigo, ou seja, não é de orelha ou mera reprodução de boatos: vêm dos dedos que marcam estas teclas.

I

Por conta de uma pequena reforma em casa, fui a uma grande loja de ferragens de Araraquara. Aliás, loja em que você não consegue comprar um arame sem ter de falar com vendedor, quando não tem de fazer o objeto vir do almoxarifado. Pois bem; peguei o que precisava, um martelo incluso, e quando a vendedora perguntou se eu desejava mais alguma coisa, respondi-lhe que sim, pois não havia achado pregos.

— Não trabalhamos com pregos.

Sempre que alguém me diz que trabalha ou não com algo, imagino-a tendo por colegas de trabalho os objetos.

— Não trabalham? Um lugar que vende martelos, mas não vende pregos?

— Trabalhamos [de novo] apenas com ferramentas. — Uma resposta úmida como um golpe de vento no Sertão ao meio-dia.

É como um lugar que vende coador de papel para café e não vende o pó, ou cigarros, mas não isqueiro. É ilógico.

II

Há produtos que saem de moda, como certas peças de vestuário ou algumas palavras. O fato de algo não ser mais usado, ou pouco usado, não quer dizer que não exista. Mas quando você entra em algum lugar e o atendente faz cara de quem tivesse sido interpelado em servo-croata, você se sente um alienígena.

— Boa tarde. Tem goma-arábica?

— Quê?! — Nesse tom, entre a mofa e o descrédito, como se estivesse sendo vítima de uma pegadinha, me respondeu a balconista magrela.

— Go-ma-a-rá-bi-ca. — Talvez ela não tivesse entendido da primeira vez, eu compreendo; às vezes mastigo um pouco as palavras. Repito o pedido, silabando-o.

— Gomarábica?

— Goma. Arábica.

— E pra que serve?

— Ora, pra colar. Antigamente tinha nos correios, pra fechar as cartas… — Entreguei o quão antiga é essa história de goma-arábica.

— Ah, cartas. Não tem. — Se é para cartas, é coisa de velho. Logo, não há.

Agradeci e virei as costas. Pude sentir o olhar da magricela me queimando a nuca. Certeza que, na sequência, chamou os outros empregados e contou dum maluco que veio tirar um sarro dela dizendo que procurava “gosmarábica”.

— Ha! Mas eu sou mais esperta. Todo mundo sabe que papel se cola com cola.

E apenas como arremate, fica a vez em que tive de explicar a uma atendente de papelaria o que era uma caneta hidrográfica.

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O triunfo da má vontade

Quando o grupo EPTV comprou a antiga Tribuna Impressa de Araraquara, em 2011, ficou claro que seus burocratas não entendiam a cidade. A administração alienígena, mofina e ao mesmo tempo assustadiça, nunca entendeu Araraquara; nunca quis entendê-la; achava que os conceitos que formados sobre Ribeirão Preto — então o novo centro de irradiação da corporação sobre o jornal e onde o grupo já havia adquirido outro jornal tradicional, A Cidade — seriam eficazes.

Araraquara não é uma cidade fácil de compreender. É de tamanho médio, com uma economia igualmente média, condizente com seu tamanho, mas cuja mentalidade é de cidade pequena, para bem e para mal. O araraquarense é bairrista, principalmente o araraquarano — um nome engraçado usado pejorativamente para designar o patriciado. É zeloso da sua cidade, do seu time de futebol, das suas instituições sociais.

A cidade torceu um pouco o nariz quando seu principal veículo impresso caiu na mão de “estrangeiros”. O assunto não passou despercebido pelos centros de poder, do Sexto Andar da Prefeitura aos bancos polidos por nádegas edílicas da Ca-Suco.

No fim das contas, Araraquara aceitou a Tribuna; ou a reaceitou. Afinal, seu quadro de jornalistas era basicamente o mesmo, com gente da terra. O cenário, depois da aceitação, parecia promissor. O principal concorrente, O Imparcial, jornal venerando, mas mal administrado e moribundo, perdia vitalidade e anunciantes. Várias pesquisas davam à Tribuna o primeiro lugar da mídia impressa em Araraquara, inclusive à frente dos jornalões capitalinos.

Parecia que a coisa finalmente andava. O problema, não o principal, mas um dos maiores, foi o medo que a burocracia do grupo mostrava em suas relações com a Administração Pública. O medo de indispor-se com o Poder Público tornou-se a tônica depois de um tempo, o que resultou em alterações em matérias e uma censurinha básica a articulistas. Fique registrado, para que não sejamos injustos, que essas censurinhas eram, na verdade, sugestões, feitas por telefone, de Ribeirão Preto, em um tom paternalista e carinhoso. E outro: era o único jornal realmente idôneo da cidade, não obstante a pusilanimidade administrativa.

A crise finalmente bateu às portas. A Tribuna, mesmo antes da marolinha, já vinha com um quadro enxuto. A foice passou várias vezes pela redação; editorias foram cortadas, o papel encolheu, o número de páginas foi reduzido; até que ficassem uns gatos pingados, a quem, infelizmente, coube a difícil tarefa de apagar as luzes e fechar as portas; estamos em janeiro de 2017, 10 de janeiro.

A estratégia do grupo foi substituir a Tribuna por A Cidade, o jornal de Ribeirão Preto, com uma página dedicada a Araraquara. Apenas para exemplo, usemos a edição de hoje (11/7) para ver como andam as coisas. Não há um anúncio sequer de empresas de Araraquara. Ou seja: a aceitação local é nula, ou próximo disso.

A EPTV não entende Araraquara. Nunca a entendeu e continua não fazendo o menor esforço para entendê-la. Trouxe um jornal de fora, feito por gente de fora, para circular numa cidade extremamente bairrista. A empreitada está fadada ao fracasso: A Cidade foi oferecida no lugar da Tribuna para os assinantes; grande parte deles declinou a oferta. É triste: porque, ao fim e ao cabo, era um bom jornal, além de deixar uma cidade que tem um curso de jornalismo órfã de publicações periódicas com um mínimo aceitável de qualidade. Brevemente estaremos novamente relegados às páginas mal-diagramadas e um pouco sibilinas de O Imparcial. Horácio já nos deixou por escrito como terminam essas cabeçadas: parturiunt montes, nascetur ridiculus mus, ou seja, os montes estão em trabalho de parto: nascerá um rato ridículo.

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