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2131 – I, X

De volta a Pinda, tivemos duas semanas dias de descanso. Entregamos os crânios ao ministro.

Fiquei quase todo o tempo no meu apartamento funcional, perto do centro. Eu não sabia onde Froilão morava, pois era vetado aos agentes saberem da vida pessoal dos colegas; conhecia apenas sua paixão pela numismática e os álbuns que ele confeccionava. Sua coleção era notória nos círculos técnicos por ser uma das mais completas; e também era seu álibi. Ele mantinha uma loja de artigos numismáticos na avenida Jorge Tibiriçá, que era o único local em que podíamos nos encontrar fora do trabalho.

Um dia de tarde, entediado, peguei o metrô e fui até lá.

A loja ficava em um escritório, no terceiro andar de um prédio baixo. Entrei, e Froilão saiu de sua mesa, onde havia uma luminária fixa, lentes e moedas, e abaixou o som ambiente, que tocava uma sinfonia de Mahler.

— Martim! Como vai?

Froilão tirou uma garrafa de uísque e dois copos de um armário.

— Vamos tomar uma!

Os ambientes em que ficam os espiões são totalmente limpos. Afinal, quem vai conseguir pôr escutas onde estiver um espião treinado? Froilão tinha duas décadas de serviço; era extremamente cuidadoso.

— Sabe, estive lendo umas coisas e acho que sei por que Geraldo tem tanto interesse no crânio.

Eu ainda não sabia, mas o crânio sólido que estava dentro do esquife não era de pedra, mas de cristal de quartzo.

— Nos laboratórios da comissão, os nossos técnicos retiraram a camada de tinta. Geraldo sabia que era um crânio de quartzo, e era o que lhe interessava. O outro, o de verdade, foi mandado para o Museu Nacional de História, onde ficará longe de olhos curiosos. O Saraiva trabalha lá.

Saraiva era outro agente da comissão, considerado também muito eficiente. O crânio de Tibiriçá teria que ficar oculto, pois indicaria uma incursão ilegal em território paraguaio, que poderia causar desde uma crise diplomática até a retomada das hostilidades.

— Pois é, Froi. Imagine a crise diplomática se esse crânio aparecesse aqui em Pinda.

Conversamos do mais e do menos; Froilão me mostrou as moedas que tirara das ruínas, em nossa primeira visita à ilha.

— Vão me dar um bom dinheiro, umas 10 ou 15 mil libras.

O meu álibi era ser funcionário administrativo de um frigorífero, no qual aparecia de quando em quando. Os outros funcionários do matadouro me desprezavam um pouco, pois, aparecendo quase nunca, era tido como rico, parente do dono. E era exatamente esse papel que a comissão me deu: um bon-vivant.

— É bom ter um álibi rentável. E o que você leu sobre o crânio, Froi?

Froilão tirou da gaveta da mesa um livro muito velho, coisa do final do século XX. Estava em inglês, mas a capa puída trazia nitidamente a foto de um crânio de quartzo.

— Está vendo este crânio? Pois bem, o formato dele lembra muito o formato do crânio pintado que recuperamos da urna de Tibiriçá. Se este crânio for o que estivava escondido na urna, temos algo de monta, amigo. Aliás, à noite fomos convocados para comparecer à sede da comissão. Se quiser aguardar aqui, vamos juntos.

Concordei e sentei-me no sofá. As paredes do escritório eram cobertas de quadros com cédulas antigas. Na estante, a biblioteca rara de obras do tema, com tomos até do século XIX. Froilão me deixou com a garrafa de uísque e voltou para a sua escrivaninha.

É curioso não saber nada de quem trabalha com você há tanto tempo. Além de não saber onde morava, não sabia se era casada, se tinha filhos. Trocávamos impressões gerais das coisas, nada muito profundo.

Depois de mais umas doses de uísque, fomos no carro de Froilão à sede da comissão, um desses prédios feios da arquitetura do começo do século XXI que hoje são patrimônio histórico.

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