‘Dom Camaleão – Retrato de uma Itália quadrúpede’, prefácio da edição de 1953

De Curzio Malaparte
Tradução: Sérgio Mendes

A fanfara

O leitor, italiano e estrangeiro, de Dom Camaleão deve lembrar-se a cada página de que este meu livro apareceu na Itália pela primeira vez em 1928. Em 1928. E não depois de 1945, quando Mussolini já estava morto e sem ter como defender-se, mas em 1928, quando ele estava vivo, são, prepotente e podia defender-se, como de fato o fez, jogando o livro na fogueira e ameaçando de fazer o mesmo com o autor. (O que fez alguns anos depois, quando foi lançando Técnica do Golpe de Estado). E certamente cumpriria a ameaça se não fosse por aquela liberdade de espírito e pelo “sense of humor” que então possuía e depois os foi perdendo lentamente, para a desgraça da Itália. Se eu já não tivesse publicado Dom Camaleão quando Mussolini vivia, evitaria imprimi-lo novamente.

Muitos homens livres dos nossos dias têm apenas um defeito: o de terem se sentido livres somente depois da morte de Mussolini. Eu sempre me senti um homem livre, mesmo quando estava em Regina Coeli ou em Lípari. O homem nasce livre, não se torna. O leitor de Dom Camaleão verá que sempre fui um homem livre, e que a liberdade não me foi dada de presente pelas baionetas inglesas e americanas, as quais libertaram na Itália apenas os escravos, aqueles que têm natureza de servos e que servos permaneceram mesmo em tempos de liberdade.

*

Em França (Monsieur Caméléon, aux éditions de La Table Ronde, chez Plon, Paris, 1948), Dom Camaleão causou estupor imenso. Parecia impossível que um escritor italiano tivesse ousado escrever e publicar tal livro na Itália, em 1928, com Mussolini vivo. Dom Camaleão chegou oportunamente para desmentir, em França e na Europa, todos aqueles, de Gramsci a Ignazio Silone (cujo verdadeiro nome, e que não poderia ser outro, é Secondino Tranquilli), que por razões alheias à literatura se haviam esforçado para espalhar a lenda de que os escritores que ficaram na Itália sob Mussolini eram servos e cortesãos, instrumentos vis da tirania.

O caso de Gramsci é compreensível e desculpável: ele estava cheio de ódio e desprezo por aquela sociedade (e pela literatura daquela sociedade) que o condenara a apodrecer no cárcere. Ele julgava os homens e os fatos do fundo da sua prisão e falava, por isso, de coisas e de pessoas que não conhecia. Se Gramsci tivesse lido Dom Camaleão, tenho certeza de que mudaria de opinião não apenas a meu respeito, mas sobre todos os escritores daqueles anos que ele chamava, com rancor sectário, de “gângsteres da cultura italiana”.

Do pobre Ignazio Silone, escritorzinho de meia pataca, e dos outros “Secondini” nada há para entender ou desculpar: o que eles diziam e dizem para difamar a literatura italiana é mais verdadeiro para eles do que para nós, que ficamos na Itália. Já que sempre, em todas as épocas e nações, a literatura dos exilados ou é boa, e é paga pelo tirano para que defenda a liberdade de um modo útil à tirania, ou é má, e o tirano nem se preocupa em pagá-la, pois é-lhe útil, se verdade for que ao tirano é proveitoso tudo o que não lhe é nocivo.

*

A literatura dos vários Silone, que escreviam no exílio, com segurança e conforto, é uma canjinha, canja para doentes, diante de Dom Calameão, que não é canja, mas uma fanfara. É assim chamada em Prato uma iguaria local, feita de miúdos de boi ou carneiro, fígado, coração, bofes, intestinos, passarinha, rins, e temperada com muita pimenta vermelha e pimenta-do-reino, de forma que queima qual fogo, e somente paladares fortes podem suportá-la.

O leitor verá que esta minha fanfara parece feita de propósito para queimar a boca de todos os Tranquilli que por tantos anos difamaram os escritores italianos chamando-os de cortesãos e servos, e a todos os Tartufos da Itália, que hoje consideram os escritores livres como os piores e mais perigosos não que a tirania, mas que a liberdade.

Prato, outubro de 1953.

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