2131 – I, IX

A sala estava do mesmo jeito. Arrumamos um canto menos bagunçado, limpamos o chão e deitamo-nos. A noite de sono curta nos havia deixado quebrados.

Passado um tempo, acordei como se tivesse dormido anos. O relógio me disse que ainda eram 2 da tarde, mas, como o ambiente era desprovido de janelas, não víamos a luz do sol. E poderia ainda estar chovendo. Froilão roncava com as costas apoiadas em uma cadeira deitada. Liguei a lanterna e passei o facho de luz pelo ambiente. Apesar da loucura que era aquilo, a sensação de estar na cripta da Catedral me dava calma; era como estar na casa de um parente mais velho.

Depois de outro cochilo, meu relógio deu o alarme das 8 da noite. Era hora. Acordei e Froilão já estava de pé, procurando moedas.

— Achou algo, Froi?

Ele tirou do bolso um monte de peças, paulistas, brasileiras e até um solano e um bandeirante, ambas as peças de ouro. Estava contente qual pinto no lixo.

Tirei da jaqueta o cortador térmico, e fomos para o sepulcro de Tibiriçá.

— Segure a lanterna no alto, Froi.

Comecei a cortar a junta das pedras de revestimento.

— E se não tiver nada aí?

— Provará apenas que Geraldo é um enrolão que será mandado para Cabinda.

Continuei cortado até que a pedra soltou-se.

— Ilumine lá dentro, Froi.

O facho de luz mostrou uma urna preta. Confesso que aquilo me deu alguma emoção. Arrastamo-la para fora, e passei o cortador na tranca. Dentro, ossos. Fêmur, tíbia, como se fosse um jogo de montar, mas sem sinal de um crânio. Começamos a tirar os ossos e, no fundo, finalmente um crânio esquisito. Pusemo-lo à luz.

— Não é de osso; pesa uma tonelada.

Parecia um crânio esculpido de pedra.

— É maciço. Duvido que seja o crânio de Tibiriçá.

Dentro do nicho, no fundo, um crânio de verdade, oco. O que seria aquele negócio?

— E qual levamos? — Perguntou Froilão.

— Levamos os dois. Geraldo decide o que vai fazer com eles… talvez em Cabinda.

Esperamos ainda que desse uma e meia da manhã.

— Será que está chovendo?

— Pode ser.

Saímos e chovia. Provavelmente não havia tido excursões à ilha naquele dia. Caminhamos de volta a São Bento. Eram dez pra uma quando chegamos à prainha; resolvemos nos acoitar em um ônibus abandonado, parado diante do templo e ligamos o radiocomunicador. Mais uns minutos, um bipe, o sinal; fomos à praia e uma silhueta pairava na água; era a torre do Arirang. Nadamos até ela, e dei três pancadinhas na escotilha, que se abriu impulsionada por Echeverría.

— Muito bem, cavalheiros. Agora a cereja do bolo. Peguem este negócio e o instalem na torre da igreja de São Bento. É um transmissor codificado que nos dirá, a cada três horas, a posição dos navios da Armada Paraguaia.

Voltamos à praia e foi fácil subir à torre da igreja, embora estivesse empesteada de morcegos. Escondemos o transmissor nas traves do telhado, o cobrimos com palha que havia ali, de um ninho abandonado, e voltamos para o submarino.

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