Impressões urbanas

Há muito eu pensava em escrever este texto, e foi bom tê-lo feito somente agora, depois de repensar o tema.

O que é uma cidade? A resposta pode ser tão marota quanto a definição de palavra que me foi dada em uma aula de filologia, de que palavra é o que há entre dois espaços tipográficos: a cidade é um aglomerado de construções. O Dicionário Houaiss traz-nos algo dessa linha, apenas mais rebuscado:

Aglomeração humana localizada numa área geográfica circunscrita e que tem numerosas casas, próximas entre si, destinadas à moradia e/ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e a outras não relacionadas com a exploração direta do solo; urbe.

A introdução do adjetivo “humana” para qualificar “aglomeração” é absolutamente desnecessária; o conceito de cidade é um fenômeno humano e só pode ser usado para os chamados animais sociais como metáfora, já que suas colônias são algo mais parecido com fábricas ou campos de trabalho.

Voltando à cidade, vou usar como modelo a única que acredito conhecer com alguma profundidade: a metástase de concreto chamada São Paulo. E conhecer com alguma profundidade significa conhecer ambientes prototípicos, que possam responder por outros, já que o paulistano circula muito, pois geralmente não vive perto do trabalho, mas conhece pouco, pois limita-se a aglomerações de serviços em áreas determinadas, como o Centro, a região da avenida Paulista, a área da Berrini e outras. Um habitante da Cidade Líder, na Zona Leste, não tem motivo algum para ir à Brasilândia, na Zona Norte, salvo que alguma relação pessoal o ligue à área. O paulistano pode passar anos deslocando-se da sua casa ao trabalho sem prestar atenção aos nomes das avenidas por que trafega, que dirá descer em algum ponto para conhecer a área ao redor, afinal, tal ação não é segura ou producente. E o mesmo comportamento do paulistano, deve tê-lo o nova-iorquino ou o londrino.

Eu fui um paulistano de pés rápidos. Para desespero dos meus pais, durante o começo da minha adolescência, andei por São Paulo como turista: visitei igrejas, museus, espaços históricos, estações de trem como poucos paulistanos devem ter feito. É claro que assim que tive consciência do perigo que é andar por São Paulo, o instinto de conservação falou mais alto, e passei a sair bem menos. Guardo desses lugares seus nomes e as impressões que me causaram; refiro-me a eles com familiaridade, mesmo que em alguns casos a visita tenha sido há mais de vinte anos.

Mas fora dos pontos de referência — falar em ponto “turístico” em São Paulo seria quase um estupro do adjetivo —, há aquela massa de casas, nas áreas periféricas, e de prédios, na área central ou nos bairros semiperiféricos eleitos como queridinhos do mercado imobiliário. Em alguns lugares, como aquela Vila Carrão que não é Vila Carrão, à beira da Radial Leste, os edifícios, angulosos e refulgentes, elevam-se como ofensas ao céu e formam verdadeiros paredões, como castelões de contos de fada.

O aspecto da cidade tem relação direta com seus habitantes e as condições socioeconômicas destes. Recorro às impressões da minha infância. Dos seis aos 29 anos, vivi em um bairro paulistano chamado Jardim Brasília, na Zona Leste, às margens da avenida Itaquera. No período de 1987 a 1993, as lembranças que tenho do bairro são de casas sem terminar, muitas sem reboque, de armações de aço das colunas incompletas que arranhavam o horizonte. No começo, a rua não tinha asfalto, que chegou apenas no fim de 1989, com direito a discurso da então prefeita, Luiza Erundina, da calçada de casa. Eu mesmo não o vi ou ouvi, pois estava na escola, terminando o primeiro ano do primeiro grau. Os tons dominantes na paisagem eram o cinza das casas incompletas e o vermelhão das ruas sem pavimento; aqueles que podiam um pouco mais pintavam suas casas invariavelmente de branco. Havia ainda o cinza sujo dos telhados de amianto, que davam um aspecto escamoso às bordas do horizonte, e casas com chão de terra batida; me lembro de ter entrado em alguns cômodos assim. Lembro-me de gente que criava porcos e galinhas. Havia ainda Fuscas, centenas deles; o raro ruído do motor Volks era o que se ouvia na avenidinha acanhada do bairro, onde ficavam as escolas, o bazar, a lotérica e aquele que foi o único restaurante do bairro por mais de vinte anos. Um restaurante sujo, com uma mesa apenas, cujo único habitué era o barbeiro do bairro.

Com a melhora progressiva da situação econômica, as casas foram terminadas. Reboque e pintura faziam-nas parecer maiores do que realmente eram; as esquadrias de alumínio refulgiam de novas. Colocava-se revestimento de pedra em meia parede; alguns telhados de amianto ganharam telhas cerâmicas. E assim foi da minha adolescência até a idade adulta.

Adulto já feito, mudei de cidade, vim para o interior do Estado. Moro em um bairro que lembra muito a Vila Matilde nos anos 80, não a de hoje, com prédios residenciais altos e que tem até uma lanchonete Subway, mas aquele bairro acanhado, de casas baixas no topo de uma colina e de velhas conversando na porta de casa.

Quando volto a São Paulo, ao bairro onde ainda tenho família, parece que o progresso fez grandes alterações; de fato, no espaço de seis anos, o lugar é outro. Há uma predominância de tons berrantes; pintam-se as casas de verde-abacate, amarelo-limão, fúcsia. Agora terminadas, ganham um segundo, terceiro andar, varandas, terraços nas lajes, tudo pintado de cores horríveis; o revestimento de pedra de alguns lugares foi coberto por tinta vulgar. A sujeira impera; apesar do colorido canceroso, há um aspecto encardido, de uma sujeira impossível de tirar, fora as pichações onipresentes e indecifráveis. O hábito nocivo de pôr azulejo de banheiro nas fachadas invadiu algumas áreas de São Paulo. Quanto à cidade, tudo me parece deformado, fora de proporção; tudo é novo, mas é sujo e desgastado ao mesmo tempo. Parece que as construções já nascem decadentes.

É isso que a cidade me passa: um ambiente artificial, compacto, palco de horrores sociais e estéticos. Em suma: um lugar feio. Não há cidades belas no mundo; as há diferentes. Pensemos em Florença: ruelas estreitas, casas de tijolos; havia sim alguma preocupação estética, mas imagine o que era a Florença medieval: as ruelas estreitas, malsãs, com esgoto a céu aberto, sem iluminação noturna. Claro que, aos olhos do turista, hoje, Florença é das cidades mais maravilhosas do mundo, desde que tornada limpa e segura. São Paulo tornar-se limpa e segura não é impossível, mas bela é muito improvável. Uma cidade que se torna outra a cada cinquenta anos não pode ser bela, pois cede à estética — ou à anestética — vigente. Os registros de Militão não me deixam mentir: basta comparar o que era São Paulo em 1870, em 1920 e o que é hoje.

Qual é o nosso conceito de estética urbana atualmente? São as obras medonhas dos discípulos de Le Corbusier ou os frisos romanos pré-moldados que gente cafona sobrepõe a prédios igualmente pré-moldados.

Ou criamos uma estética nova para as cidades, ou fazemos o que já se faz em outras áreas do conhecimento humano, simplesmente chamando de belo o que é feio.

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1 Comentário

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One response to “Impressões urbanas

  1. Texto interessante. Mas veja bem, as cidades medievais podem não ter sido tão sujas quanto você imagina. Existe um blog especializado neste assunto, e este reúne material de vários medievalistas para tratar sobre assuntos do medievo. Uma coisa interessante que tirei destes relatos é que algumas cidades medievais me parecem muito mais limpas do que o bairro em que vivo no Rio de Janeiro.

    https://cidademedieval.blogspot.com.br/2015/11/higiene-e-saude-nas-ruas-e-nas-casas.html

    Um abraço

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