Mortos fictícios

Gennaro tomava cuidado para não repetir-se e ser pego em flagrante. Antes de dar a desculpa definitiva, consultava suas anotações em uma agenda com capa de couro preto para não matar alguém que já houvesse matado. A cara de contrição não precisava mais de ensaio; Gennaro cuidava apenas para não parecer muito feliz, pois geralmente a desculpa era pretexto para ficar em casa, sem fazer nada, ou fazendo algo de seu interesse. Como tinha apenas mãe viva e família pequena, toda de fora da cidade, criou vários parentes para matar conforme a necessidade.

Fez isso muitas vezes depois de 1978, ano em quando matou o primeiro, tia Vanda, para escapar da festa de Natal da empresa. As anotações começam sucintas: “Tia Vanda Frondizi. 22 dez 1978. Coração”.

Pela evolução das anotações, vê-se que Gennaro preocupava-se com a verossimilhança do que contava. Prima Dolores, que foi usada como desculpa para fugir de um treinamento comercial de três dias em Serra Negra, tem um registro mais detalhado: “Dolores Albión, prima-irmã por parte de pai. 35 anos. Atropelamento em Santos, pela manhã. Ônibus. 20 agosto 1983”. Na página seguinte, uma frondosa árvore genealógica entrelaçando os Albión, de seu pai, e os Frondizi, de sua mãe. Dona Gemma Frondizi, que era filha única, ganhou doze irmãos; seu Antonio Albión, outros dez. Com uma média de três filhos por casal, Gennaro tinha 88 parentes diretos para matar em caso de necessidade.

No final do ano, eram dois mortos: o peru da ceia e um parente fictício, sempre para escapar das festividades corporativas natalinas. Quando tinha vontade de escapar da ceia em família, matava um colega de trabalho, o que não precisava de muitos detalhes com relação à vida do morto, mas com o próprio dia do funeral, como vemos nestas anotações de 1987: “Augusto do Financeiro. 24 dez 1987. Casado, 50 anos, dois filhos. 10-15h velório. 15h30 enterro”.

Nos primeiros anos, os assassinatos falsos concentravam-se nos finais de ano. Após 1991, Gennaro, agora mais velho e com menos paciência, começou a matar parentes e colegas na Páscoa, no Dia do Trabalho, no Carnaval. Em 1993, matou 13 pessoas. Aos colegas e parentes, provavelmente a onda de mortes começou a tomar ares de esquisitice. Alguém deve ter dito a Gennaro:

— Poxa, mas você gosta de um cemitério.

A situação começa a ficar estranha em 1995. Segundo as anotações da agenda, Gennaro mandou rezar uma missa de sétimo dia para Preziosa Frondizi, tia fictícia. No ano seguinte, nas datas dos enterros falsos, Gennaro ia aos cemitérios; três visitas a necrópoles estão registradas na agenda, naquele ano.

Durante 1999, a situação econômica de Gennaro apertou-se, mesmo solteiro e sem filhos; vivia apenas com o salário mínimo da aposentadoria. Não se fez de rogado: matou-se com um atestado de óbito falso. Infarto do miocárdio. Recebeu o seguro de vida e mudou-se para Nueva Helvecia, no Uruguai. Tinha fim ali a carreira do maior assassino fictício que de que já ouvi falar, com 72 mortes nas costas.

 A agenda, achei-a num banco de ônibus, quando, de férias, ia de Montevidéu a Colônia do Sacramento. Pode ser que tudo se trate de ficção de uma mente doentia.

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