Lanche póstumo

Poucas coisas são mais enfadonhas que treinamentos. Volta e meia o banco em que eu trabalhava me fazia ir a um evento do tipo. Lembro-me bem de um curso de vendas, em um hotel no centro, daqueles que já tiveram esplendor, mas hoje são apenas um amontoado decrépito de espelhos manchados e carpetes alergênicos, sepultura de milhões de ácaros.

Nesse dia, a Finada me mandou a um curso de vendas. A Finada era o banco em que eu trabalhava e que não existe mais, foi deglutida por outra instituição gulosa. Eu estava feliz, pois, pelo menos, havia me subtraído a mais um dia horroroso de trabalho, sem empréstimos pessoais ou choramingos financistas.

Entre mil papagaiadas que mais lembravam uma gincana ruim de festa junina, uma mensagem no WhatsApp. Era do meu pai. “Tio Zé morreu”. Tio Zé era um daqueles parentes imprestáveis que só são lembrados entre impropérios. Morreu só, no seu casebre, inchado de pinga, mas finalmente fizera uma boa ação: dava-me a deixa para me livrar do treinamento e do dia de trabalho. O instrutor, tomado de um fundo de piedade, me disse:

— Vá lá. Eu aviso o banco. Aproveite e leve o lanche.

Era uma baguete com queijo, presunto e tomate mais uma caixinha de suco vagabundo. Pus tudo na mochila e comecei o caminho. Atravessei toda a cidade em direção ao cemitério, na periferia, mais de uma hora de trajeto entre metrô e ônibus, mais um trecho a pé, uma ladeira. Quando cheguei, o cortejo já havia saído do velório. Corri pelas alamedas entre cruzes de concreto pintadas de cal azul, rosa e branco. Garoava. No caminho, encontrei alguns parentes que voltavam. Ninguém tinha expressão de choro ou mesmo de pesar. Tio Beto contava uma piada aos irmãos, que riam com as mãos nos bolsos.

Quando cheguei à beira da cova aberta, apenas o coveiro ajeitava o monte de terra para cobrir o caixão. No fundo do buraco, um caixão de pino envernizado, solitário e fechado, o modelo mais barato à disposição no serviço funerário. O coveiro me olhou.

— Parente seu?

— Sim; era meu tio-avô.

— Não veio muita gente.

— Eu sei.

Fiquei ali, sem ter muito que fazer. O coveiro, com alguma impaciência, esperava minha contemplação. Eu nunca tivera muita ligação com o tio Zé, beberrão e encrenqueiro, mas achei que ele precisava de uma última homenagem, para perdoar o escárnio disfarçado de condolência dos outros parentes. Tirei da mochila o pão e o suco do lanche e os joguei na cova, sobre o caixão; caíram com um barulho oco. Achei conveniente dizer algo.

— Vá em paz.

O coveiro apenas completou com uma pá de terra e um “amém”.


Publicado na Tribuna Araraquara em 15/12/2016.

Anúncios

1 Comentário

Filed under Sem categoria

One response to “Lanche póstumo

  1. Mandi

    Um lanche à altura? Talvez Cookies da Bauducco, ou uma barrinha de cereal.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s