2131 – I, VII

É intrigante e importante saber como uma região rica, como foi um dia a República de São Paulo, foi simplesmente dizimada e ocupada. Para tanto, precisamos recuperar rapidamente os últimos 130 anos de história, ainda no tempo do Brasil.

Em 2002, um partido da chamada esquerda, o Partido dos Trabalhadores, subiu ao poder em Brasília e deu início à tomada do Estado. Só foi temporariamente afastado em 2016, quando a então presidente da República, Dilma Rousseff, sofreu um processo de impedimento. Bons tempos aqueles em que os governantes ruins podiam simplesmente ser sacados da cadeira por um parlamento eleito. O Partido dos Trabalhadores, depois de algum tempo de ocaso e reorganização, conseguiu voltar ao poder em 2030, quando Luís Inácio Lula da Silva, retornando do exílio no Uruguai, funda a Frente Neogetulista e consegue eleger-se novamente presidente do Brasil com uma votação jamais vista até aquele momento, com quase 170 milhões de votos. O país todo contava então com cerca de 240 milhões de habitantes.

Lula, que já havia sido presidente entre 2003 e 2010, era então um homem de 85 anos e senil. Sua eleição trouxe todo o totalitarismo de esquerda; a presidência ficou nas mãos dos burocratas da FNG, que governavam enquanto Lula, vitimado por um derrame, detinha o poder apenas nominalmente. O parlamento, totalmente tomado pela FNG, outorgou, no final de 2031, uma nova constituição, em substituição à Remendada, ou seja, a velha Constituição Brasileira de 1988. A Constituição de 2031 fundou o Estado Novíssimo, e a República Federativa do Brasil passou a ser o Estado Brasileiro; os velhos estados foram reduzidos a províncias, toda a toponímia ligada à religião foi removida. O Estado de São Paulo foi dividido e renomeado como Cistietê, o sul, e Transtietê, o norte. Lula morreu em 2037, com 92 anos.

Toda essa situação começou a gerar tensão entre as várias partes do Brasil, até que, em 2039, surgiu a Frente São Paulo-Sul, que juntou tropas do que eram antes São Paulo e os três estados do Sul, contra o governo central, no que ficou conhecido como Primeira Guerra Civil Brasileira. São Paulo ainda mantinha o motor econômico do país e, com ajuda dos sulistas, combateu o Brasil durante quase seis anos, chegando a ocupar Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás; o governo brasileiro teve de transferir-se provisoriamente para Manaus.

Em 2045, com a guerra quase perdida, o Brasil pediu cessar-fogo e negociações. Reconheceu-se a independência de São Paulo e da Federação do Pampa; a área de Volta Redonda, antes parte do Estado do Rio, o Triângulo Mineiro e Mato Grosso do Sul foram incorporados a São Paulo.

Com a paz, o regime neogetulista do Brasil entrou em colapso e, em 2048, o país caiu em outra guerra civil entre rebeldes, o Exército de Libertação do Brasil, e as tropas oficialistas. Os rebeldes, com ajuda da inteligência paulista, limparam o país do neogetulismo; o Paraguai valeu-se da desordem para recuperar território perdido na Primeira Guerra do Paraguai (1864-1870), além de anexar quase metade de Mato Grosso. A Segunda Guerra Civil Brasileira arrastou-se até 2053.

No período de transição, a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Brasil, a Minusbrá, capitaneada pelo Haiti, conseguiu levar o Brasil de volta ao rol das nações democráticas.

São Paulo havia se tornado, em 2045, uma nação independente, mas sua economia, por conta da guerra, estava em frangalhos. Uma política de isenção fiscal conseguiu atrair investimentos estrangeiros, principalmente britânicos. O Reino Unido, com a saída da União Europeia, em 2019, e a dissolução do bloco, em 2028, tornou-se a segunda potência mundial, principalmente por conta dos desenvolvimentos da área de informática e cibernética, com os sistemas de transporte autônomos.

Em homenagem ao apoio britânico recebido, São Paulo batizou sua nova moeda como libra, dividida em cem dinheiros. Como já se sabe, a inflação comeu o valor de compra da moeda, e hoje não usamos mais os dinheiros, apenas as libras.

São Paulo começou a reerguer-se, mas começou a atrair as atenções paraguaias, dominado pela ditadura de Diego Solano Silva, que dizia ser descendente de Francisco Solano López, o ditador paraguaio à época da Primeira Guerra do Paraguai. Sem a influência do Brasil, a nova potência regional começou com investidas diplomáticas e maquinações para interferir na política interna de seus vizinhos mais fracos. Por causa disso, a Federação do Pampa e o Uruguai formaram, em 2056, uma confederação, o Pampa-Uruguai, que participou dos Jogos Olímpicos de Adis-Abeba, em 2060, e dos de Jacarta, em 2064.

Em 2075, tendo se tornado o país mais poderoso do Hemisfério Sul, o Paraguai entrou em guerra de conquista com seus vizinhos Pampa-Uruguai e São Paulo; conseguiu praticamente metade do Paraná, Mato Grosso do Sul e o Oeste paulista. Em 2078, usou arsenal atômico, apesar das advertências da ONU, sobre a capital paulista, que foi convertida em um grande cemitério, com milhões de mortos, o que provocou a capitulação do Pampa-Uruguai e de São Paulo.

Pelos termos do Acordo de Araxá, assinado em 20 de janeiro de 2080, São Paulo perdia Mato Grosso do Sul, o Triângulo Mineiro e toda porção a oeste da linha Joanópolis-Bertioga, conservando, porém, Volta Redonda. A capital é transferida oficialmente para Pinda, onde já estava desde 2078.

Ainda em 2080, o parlamento pampeano-uruguaio aprova a união com a Argentina, que tinha condições de manter o Paraguai longe, embora tenha perdido o Oeste paranaense e a região do Contestado catarinense. Cabe lembrar que as antigas províncias argentinas de Misiones e Corrientes já eram paraguaias desde 2035, quando um referendo assim decretou.

Todo o território paulista incorporado passou por um processo de paraguaização, com substituição do português pelo espanhol e alteração de toda a toponímia local. Presidente Prudente passou a ser Solanópolis; alguns foram apenas aclimatados, como Guarulhos, para Guarullos, ou Arujá, para Aruyá. Houve um êxodo imenso, de quase 10 milhões de pessoas dos territórios ocupados para o território paulista remanescente. Pinda, que tinha 200 mil habitantes no começo da Primeira Guerra Civil Brasileira, hoje tem 3 milhões, tendo crescido de maneira totalmente caótica; cerca de metade da cidade é composta por favelas e sub-habitações. Pinda englobou a antiga cidade de Taubaté e ainda outras, como Bonsucesso, Tremembé e Roseira.

A região da antiga capital, afetada pela radiação da bomba, foi transformada em uma zona de exclusão de 20 km ao redor do marco zero; a explosão rebaixou o relevo da capital, e o Tietê encheu o espaço, formando o lago, como hoje se encontra.

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1 Comentário

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One response to “2131 – I, VII

  1. Mandi

    Pela santa mãe do guarda!

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