Lourdes

Eram 11h40 da noite de 11 de fevereiro quando a criança nasceu. A mãe, devota de Nossa Senhora de Lourdes, mal acreditou que dera à luz no dia consagrado à aparição mariana, pois havia prometido a Nossa Senhora que batizaria a menina de Maria de Lourdes.

Qual não foi a surpresa quando lhe trouxeram o bebê: era um menino. Naquela época não havia exames de detecção de sexo, ou eram muito caros.

O pai, que aguardava na sala, entrou correndo assim que a parteira o chamara.

— Então é um menino! Um rapagão! Vamos chamá-lo de Jerônimo!

Da cama veio um cicio.

—Nem pensar. Não pode. Prometi a Nossa Senhora de Lourdes que colocaria Maria de Lourdes na menina.

— Mas não é uma menina…

Havia ali um problema para a mãe: a promessa versus a lógica da onomástica. A gravidez havia sido difícil, e a ela se havia agarrado à antiga devoção.

Os dias foram passando e nada de um nome; chamavam o menino apenas de “o menino”. O pai continuava tentando dissuadir a esposa. Do nada, numa manhã, ela saiu da cama num salto.

— Já sei. O menino vai se chamar Lourdes.

O pai achou descabido, mas depois que a mãe repetiu “Lour-des”, escandindo as duas sílabas, umas quinze vezes em sequência, o nome se decompôs. Todas as palavras repetidas à exaustão perdem o sentido, viram apenas sons justapostos.

Lourdes, ou Lourdinho, ou ainda Lourdão, dependendo de quem o chamasse, cresceu saudável. O nome não o incomodou até que ele fosse à escola, onde foi alvo preferencial da troça dos colegas. Cresceu com aquele estigma; cansou de ser chamado de “dona” em lugares públicos e pelo telefone. Não que Lourdes fosse afeminado, mas porque chamavam o nome sem ver de quem se tratava. Era-lhe um peso imenso.

Depois de ter amaldiçoado a mãe todos os dias de sua vida, uma morte lenta veio encontrá-lo. Seu Lourdão reuniu os filhos, Aníbal e Átila — os nomes mais másculos que pôde encontrar —, e comunicou-lhes seu último desejo.

— Quando a sepultura estiver pronta, coloquem a lápide que mandei fazer. Está no maleiro do meu guarda-roupa.

Lourdes não durou uma semana. Os filhos pegaram a lápide, que estava embrulhada, e levaram-na para o funeral. Quando a função havia terminado, Átila pegou o embrulho do carro; a lápide não indicava Lourdes, mas Lúcio. Os filhos assentaram-na no lugar correspondente; quando se afastaram para admirar o serviço, Aníbal viu que a palavra “nascido”, antes da data de nascimento do pai, havia sido escrita “nascida”.


Publicado na Tribuna Araraquara de 8/12/2016.

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