2131 – I, VI

Madrugada de 30 de abril, segunda-feira.

Por volta da uma da manhã, Echeverría apareceu de novo.

— Senhores, vamos.

Descemos as escadas e pegamos um pequeno barco. Chovia menos, mas ainda assim era considerável.

— Por sorte, esta belezinha é equipada com um motor a hidrogênio que não faz barulho. Também o barco tem um desenho que não espirra água. Silêncio e vamos.

Acomodamos-nos no barco, que era um bote de pesca, mas que deslizava rápida e suavemente pelas águas turvas do lago. Fomos até a outra borda, nas proximidades da vila de San Miguel. Descemos em uma praia deserta e, com auxílio apenas da luz da lua, andamos os três até uma montanha, quando nos embrenhamos na mata. Dentro da mata, Echeverría sacou uma lanterna.

Andamos por uns 200 metros, sempre paralelamente à margem do lado, até que chegamos a uma porta. Echeverría bateu duas e duas vezes, ritmado. Esperamos mais dois minutos; Echeverría deu novamente duas e duas pancadinhas. Do outro lado da porta, finalmente um sinal de vida, um assobiozinho fraco, uma musiquinha, que foi completada por Echeverría. Somente após a última nota a porta abriu-se; um homem corpulento e de feições orientais recebeu-nos de rifle nas mãos.

— Entrem.

Depois de um corredor curto, o espaço virava uma escada, que levava para baixo do nível do solo. Ficamos todos em silêncio; nosso anfitrião não se apresentou, mas tinha jeito de coreano. Poderia ser um agente coreano ou alguns dos muitos coreanos estabelecidos no Paraguai.

Chegamos à outra porta que, aberta, revelou um ambiente grande, cujo chão era tomado quase todo por uma piscina longa. Na ponta, algo saía da água. Echeverría tomou a dianteira.

— Ir de barco é muito arriscado. Mesmo com as luzes apagadas, a Marinha Paraguaia poderia nos achar. Vamos com este submarinho, cortesia da Coreia.

Depois da reunificação coreana, com a morte de Kim Bon-hwa da velha Coreia do Norte, por volta de 2080, o país havia se tornado a terceira potência mundial, estabelecendo domínio econômico sobre todo o Oriente. O esfacelamento da China por uma guerra civil, nos anos 2070, foi outro fator decisivo na ascensão coreana. A Coreia tem interesse no restabelecimento de São Paulo, pois o Paraguai lhe é hostil e lhe fecha caminho para matérias-primas nos territórios ocupados, como os poços de petróleo do Médio Tietê.

Fomos até a ponta que saía da água; era a torre de um minissubmarino. O oriental deu-nos algumas instruções.

— Este é muito parecido com o modelo anterior, Echeverría. O Arirang III é mais fácil de pilotar porque é equipado com sonar; prevê obstáculos e mudanças de relevo com 200 metros de antecedência.

Echeverría abriu uma escotilha, e por ela entramos. Era um ovo, mal cabíamos os três; fiquei com os joelhos de Froilão no baço. Um para-brisa e duas janelas redondas nos davam visão frontal e lateral; faróis iluminavam o que se podia ver adiante, não mais de dez metros, por conta de a água ser muito turva. O comandante verificou alguns instrumentos de bordo e ligou o aparelho.

— Vamos navegar no máximo a uns 30 metros de profundidade, com luzes baixas. Se o Solanópolis não estiver por aí, estará tudo bem.

O ARP Solanópolis era uma fragata fluvial paraguaia que fazia ronda em todo o Tietê e era um navio de última geração. Poderia detectar uma bolinha de gude no fundo do lago.

Um leve tranco e saímos. Passamos por um túnel e rapidamente estávamos no fundo do lago.

— É uma instalação grande essa do submarino. As forças de inteligência paraguaias não desconfiam dela? — perguntou Froilão.

— O Paraguai, por ser um estado muito totalitário, tem a inteligência relativamente ruim. É fácil esconder as coisas; e os coreanos são bons nesse tipo de obra. Fizeram esse atracadouro em duas semanas, quando o governo paraguaio contratou uma empresa para sinalizar o lago, um pouco antes da liberação. A empresa ocultou os construtores coreanos, e São Paulo pagou a obra. — disse Echeverría.

Continuamos a viagem em silêncio, apenas o pim de alguns instrumentos, nossa respiração e borbulhas que vinham do leito do lago eram audíveis. Muitas carcaças de automóveis no que foi uma autopista.

— Essa era a chamada marginal Tietê, uma pista expressa gigantesca que atravessava a capital; o Tietê corria no meio da estrada, em um canal.

— Uma obra de engenharia fantástica, hem? — disse Froilão.

— Sim. Coisa que não se tem mais.

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