Toninho Tibúrcio

Toninho Tibúrcio dirigia sua caminhonete cabine dupla pela estradinha poeirenta; a camisa apertada suportava mal as banhas malseguras, que insistiam em pular a cada tranco do carro. A escuridão do semiárido era quebrada apenas pelo facho de luz dos faróis, que, de supetão, deram forma a uma choça. Toninho parou e pôs o corpanzil para fora, deixando a luz dos faróis chapando o casebre.

O trajeto, feito uma vez por semana, deixava Toninho cansado, mas era preciso; o calor desenhava-lhe rodas de suor sob os sovacos. O homem monumental parou diante da porta e bateu três vezes; de dentro, uma vozinha milenária fez-se ouvir.

— De quem é a mão que bate na minha porta?

E daquele homenzarrão saiu um fiozinho de voz.

— Do prefeito Toninho…

A porta abriu-se. Toninho sentou-se no chão, pois no único cômodo de terra batida não havia sequer um banquinho. Ao centro, uma fogueira quase apagada, atrás da qual estava sentada uma velha magrinha, de rosto escavado.

— Boa noite, dona Doroteia. Trouxe a lei orçamentária pra que a senhora desse uma olhada…

A velha interrompeu Toninho com um gesto de mão. Cutucou a fogueira com um graveto e ficou observando a reação do fogo.

— É não.

— Mas não quer nem ver?

— Diga apenas que não. E basta.

Toninho levantou-se e fez uma reverência; fez ainda um ademane como se fosse sacar a carteira, mas foi interrompido pelo mesmo gesto de mão.

— Apenas mande rezar uma missa na matriz.

O adiposo prefeito escorregou para fora da casa e para dentro do carro. Hesitou; três vezes pôs as mãos no volante e três vezes as tirou. Fez o caminho de volta para a cidade do mesmo jeito, tomando cuidado para não ser visto.

No dia seguinte, com uma camisa nova, apresentou-se na Câmara de Vereadores, na sessão em que nove vereadores mal-ajambrados, magricelas e banguelas alguns discutiam a lei orçamentária da cidadezinha.

A presença do prefeito tomou o ambiente, uma sala sem reboque e com piso de cimento; sua figura valia por quatro vereadores. Parou diante dos edis, que imediatamente ficaram mudos. A voz cheia ribombou na sala.

— Não.

— Mas por que, Tonim?

— Não. E basta.

No mesmo pé, o excelentíssimo prefeito girou no sentido contrário e foi-se embora. Voltando para casa, nas trevas diurnas daquele fim de mundo, Toninho Tibúrcio estava convencido de que fizera o certo, pois assim mandara a vontade que o mantém no comando.


Publicado na Tribuna Araraquara de 1º/12/2016.

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