Monthly Archives: Dezembro 2016

Impressões urbanas

Há muito eu pensava em escrever este texto, e foi bom tê-lo feito somente agora, depois de repensar o tema.

O que é uma cidade? A resposta pode ser tão marota quanto a definição de palavra que me foi dada em uma aula de filologia, de que palavra é o que há entre dois espaços tipográficos: a cidade é um aglomerado de construções. O Dicionário Houaiss traz-nos algo dessa linha, apenas mais rebuscado:

Aglomeração humana localizada numa área geográfica circunscrita e que tem numerosas casas, próximas entre si, destinadas à moradia e/ou a atividades culturais, mercantis, industriais, financeiras e a outras não relacionadas com a exploração direta do solo; urbe.

A introdução do adjetivo “humana” para qualificar “aglomeração” é absolutamente desnecessária; o conceito de cidade é um fenômeno humano e só pode ser usado para os chamados animais sociais como metáfora, já que suas colônias são algo mais parecido com fábricas ou campos de trabalho.

Voltando à cidade, vou usar como modelo a única que acredito conhecer com alguma profundidade: a metástase de concreto chamada São Paulo. E conhecer com alguma profundidade significa conhecer ambientes prototípicos, que possam responder por outros, já que o paulistano circula muito, pois geralmente não vive perto do trabalho, mas conhece pouco, pois limita-se a aglomerações de serviços em áreas determinadas, como o Centro, a região da avenida Paulista, a área da Berrini e outras. Um habitante da Cidade Líder, na Zona Leste, não tem motivo algum para ir à Brasilândia, na Zona Norte, salvo que alguma relação pessoal o ligue à área. O paulistano pode passar anos deslocando-se da sua casa ao trabalho sem prestar atenção aos nomes das avenidas por que trafega, que dirá descer em algum ponto para conhecer a área ao redor, afinal, tal ação não é segura ou producente. E o mesmo comportamento do paulistano, deve tê-lo o nova-iorquino ou o londrino.

Eu fui um paulistano de pés rápidos. Para desespero dos meus pais, durante o começo da minha adolescência, andei por São Paulo como turista: visitei igrejas, museus, espaços históricos, estações de trem como poucos paulistanos devem ter feito. É claro que assim que tive consciência do perigo que é andar por São Paulo, o instinto de conservação falou mais alto, e passei a sair bem menos. Guardo desses lugares seus nomes e as impressões que me causaram; refiro-me a eles com familiaridade, mesmo que em alguns casos a visita tenha sido há mais de vinte anos.

Mas fora dos pontos de referência — falar em ponto “turístico” em São Paulo seria quase um estupro do adjetivo —, há aquela massa de casas, nas áreas periféricas, e de prédios, na área central ou nos bairros semiperiféricos eleitos como queridinhos do mercado imobiliário. Em alguns lugares, como aquela Vila Carrão que não é Vila Carrão, à beira da Radial Leste, os edifícios, angulosos e refulgentes, elevam-se como ofensas ao céu e formam verdadeiros paredões, como castelões de contos de fada.

O aspecto da cidade tem relação direta com seus habitantes e as condições socioeconômicas destes. Recorro às impressões da minha infância. Dos seis aos 29 anos, vivi em um bairro paulistano chamado Jardim Brasília, na Zona Leste, às margens da avenida Itaquera. No período de 1987 a 1993, as lembranças que tenho do bairro são de casas sem terminar, muitas sem reboque, de armações de aço das colunas incompletas que arranhavam o horizonte. No começo, a rua não tinha asfalto, que chegou apenas no fim de 1989, com direito a discurso da então prefeita, Luiza Erundina, da calçada de casa. Eu mesmo não o vi ou ouvi, pois estava na escola, terminando o primeiro ano do primeiro grau. Os tons dominantes na paisagem eram o cinza das casas incompletas e o vermelhão das ruas sem pavimento; aqueles que podiam um pouco mais pintavam suas casas invariavelmente de branco. Havia ainda o cinza sujo dos telhados de amianto, que davam um aspecto escamoso às bordas do horizonte, e casas com chão de terra batida; me lembro de ter entrado em alguns cômodos assim. Lembro-me de gente que criava porcos e galinhas. Havia ainda Fuscas, centenas deles; o raro ruído do motor Volks era o que se ouvia na avenidinha acanhada do bairro, onde ficavam as escolas, o bazar, a lotérica e aquele que foi o único restaurante do bairro por mais de vinte anos. Um restaurante sujo, com uma mesa apenas, cujo único habitué era o barbeiro do bairro.

Com a melhora progressiva da situação econômica, as casas foram terminadas. Reboque e pintura faziam-nas parecer maiores do que realmente eram; as esquadrias de alumínio refulgiam de novas. Colocava-se revestimento de pedra em meia parede; alguns telhados de amianto ganharam telhas cerâmicas. E assim foi da minha adolescência até a idade adulta.

Adulto já feito, mudei de cidade, vim para o interior do Estado. Moro em um bairro que lembra muito a Vila Matilde nos anos 80, não a de hoje, com prédios residenciais altos e que tem até uma lanchonete Subway, mas aquele bairro acanhado, de casas baixas no topo de uma colina e de velhas conversando na porta de casa.

Quando volto a São Paulo, ao bairro onde ainda tenho família, parece que o progresso fez grandes alterações; de fato, no espaço de seis anos, o lugar é outro. Há uma predominância de tons berrantes; pintam-se as casas de verde-abacate, amarelo-limão, fúcsia. Agora terminadas, ganham um segundo, terceiro andar, varandas, terraços nas lajes, tudo pintado de cores horríveis; o revestimento de pedra de alguns lugares foi coberto por tinta vulgar. A sujeira impera; apesar do colorido canceroso, há um aspecto encardido, de uma sujeira impossível de tirar, fora as pichações onipresentes e indecifráveis. O hábito nocivo de pôr azulejo de banheiro nas fachadas invadiu algumas áreas de São Paulo. Quanto à cidade, tudo me parece deformado, fora de proporção; tudo é novo, mas é sujo e desgastado ao mesmo tempo. Parece que as construções já nascem decadentes.

É isso que a cidade me passa: um ambiente artificial, compacto, palco de horrores sociais e estéticos. Em suma: um lugar feio. Não há cidades belas no mundo; as há diferentes. Pensemos em Florença: ruelas estreitas, casas de tijolos; havia sim alguma preocupação estética, mas imagine o que era a Florença medieval: as ruelas estreitas, malsãs, com esgoto a céu aberto, sem iluminação noturna. Claro que, aos olhos do turista, hoje, Florença é das cidades mais maravilhosas do mundo, desde que tornada limpa e segura. São Paulo tornar-se limpa e segura não é impossível, mas bela é muito improvável. Uma cidade que se torna outra a cada cinquenta anos não pode ser bela, pois cede à estética — ou à anestética — vigente. Os registros de Militão não me deixam mentir: basta comparar o que era São Paulo em 1870, em 1920 e o que é hoje.

Qual é o nosso conceito de estética urbana atualmente? São as obras medonhas dos discípulos de Le Corbusier ou os frisos romanos pré-moldados que gente cafona sobrepõe a prédios igualmente pré-moldados.

Ou criamos uma estética nova para as cidades, ou fazemos o que já se faz em outras áreas do conhecimento humano, simplesmente chamando de belo o que é feio.

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2131 – I, VIII

Continuávamos deslizando pelo fundo do lago, numa paisagem fantasmagórica, até que o submarino tomou o rumo da esquerda.

— Estamos chegando à ilha da Igreja. — disse Echeverría — Vamos próximo a um pequeno mangue, próximo das ruínas de São Bento, entre as duas ilhas, no estreito de Añangabahú, pois a praia do Colégio é muito exposta. Dali, vocês peguem o caminho à direita, reto, que vão sair nas proximidades da velha Catedral.

Era claro que Echeverría ficaria no submarino.

— Peguem esses comunicadores. No caso de alguma emergência, tentem me avisar. Mas só os liguem se for necessário, pois a Marinha Paraguaia ou a Gendarmeria podem rastrear a frequência. Volto para San Miguel e venho pegá-los amanhã, neste exato local, às 2 da manhã. Se vocês não aparecerem até as duas e meia ou não derem sinal pelo rádio, serão considerados mortos para todos os efeitos.

Eram quase 5 da manhã. Precisávamos chegar à igreja antes de o sol nascer, para não sermos vistos à distância; e só poderíamos trabalhar à noite, pois haveria grupos de turistas na ilha durante o dia e o barulho poderia atraí-los à sala subterrânea da Catedral.

O submarinho ganhou a superfície; estávamos a uns 20 metros da ilha. Eu e Froilão saímos e nadamos até a margem; as roupas de borracha nos protegiam da água fria. Na margem, ainda vimos a torre do submarino submergir. Estávamos sós e chovia muito.

Com uma lanterna de luz difusa, caminhamos pelos montes de entulho e por ruínas de silhuetas fantasmagóricas, cujas janelas pareciam as órbitas vazias de imensos crânios geométricos. Chegamos rapidamente à Catedral, e o pedaço de metal que eu deixara na entrada estava do mesmo jeito. Entramos e fechamos a portinhola de metal. Teríamos de esperar mais de 12 horas para começar a abertura do sepulcro de Tibiriçá.

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Mortos fictícios

Gennaro tomava cuidado para não repetir-se e ser pego em flagrante. Antes de dar a desculpa definitiva, consultava suas anotações em uma agenda com capa de couro preto para não matar alguém que já houvesse matado. A cara de contrição não precisava mais de ensaio; Gennaro cuidava apenas para não parecer muito feliz, pois geralmente a desculpa era pretexto para ficar em casa, sem fazer nada, ou fazendo algo de seu interesse. Como tinha apenas mãe viva e família pequena, toda de fora da cidade, criou vários parentes para matar conforme a necessidade.

Fez isso muitas vezes depois de 1978, ano em quando matou o primeiro, tia Vanda, para escapar da festa de Natal da empresa. As anotações começam sucintas: “Tia Vanda Frondizi. 22 dez 1978. Coração”.

Pela evolução das anotações, vê-se que Gennaro preocupava-se com a verossimilhança do que contava. Prima Dolores, que foi usada como desculpa para fugir de um treinamento comercial de três dias em Serra Negra, tem um registro mais detalhado: “Dolores Albión, prima-irmã por parte de pai. 35 anos. Atropelamento em Santos, pela manhã. Ônibus. 20 agosto 1983”. Na página seguinte, uma frondosa árvore genealógica entrelaçando os Albión, de seu pai, e os Frondizi, de sua mãe. Dona Gemma Frondizi, que era filha única, ganhou doze irmãos; seu Antonio Albión, outros dez. Com uma média de três filhos por casal, Gennaro tinha 88 parentes diretos para matar em caso de necessidade.

No final do ano, eram dois mortos: o peru da ceia e um parente fictício, sempre para escapar das festividades corporativas natalinas. Quando tinha vontade de escapar da ceia em família, matava um colega de trabalho, o que não precisava de muitos detalhes com relação à vida do morto, mas com o próprio dia do funeral, como vemos nestas anotações de 1987: “Augusto do Financeiro. 24 dez 1987. Casado, 50 anos, dois filhos. 10-15h velório. 15h30 enterro”.

Nos primeiros anos, os assassinatos falsos concentravam-se nos finais de ano. Após 1991, Gennaro, agora mais velho e com menos paciência, começou a matar parentes e colegas na Páscoa, no Dia do Trabalho, no Carnaval. Em 1993, matou 13 pessoas. Aos colegas e parentes, provavelmente a onda de mortes começou a tomar ares de esquisitice. Alguém deve ter dito a Gennaro:

— Poxa, mas você gosta de um cemitério.

A situação começa a ficar estranha em 1995. Segundo as anotações da agenda, Gennaro mandou rezar uma missa de sétimo dia para Preziosa Frondizi, tia fictícia. No ano seguinte, nas datas dos enterros falsos, Gennaro ia aos cemitérios; três visitas a necrópoles estão registradas na agenda, naquele ano.

Durante 1999, a situação econômica de Gennaro apertou-se, mesmo solteiro e sem filhos; vivia apenas com o salário mínimo da aposentadoria. Não se fez de rogado: matou-se com um atestado de óbito falso. Infarto do miocárdio. Recebeu o seguro de vida e mudou-se para Nueva Helvecia, no Uruguai. Tinha fim ali a carreira do maior assassino fictício que de que já ouvi falar, com 72 mortes nas costas.

 A agenda, achei-a num banco de ônibus, quando, de férias, ia de Montevidéu a Colônia do Sacramento. Pode ser que tudo se trate de ficção de uma mente doentia.

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Lanche póstumo

Poucas coisas são mais enfadonhas que treinamentos. Volta e meia o banco em que eu trabalhava me fazia ir a um evento do tipo. Lembro-me bem de um curso de vendas, em um hotel no centro, daqueles que já tiveram esplendor, mas hoje são apenas um amontoado decrépito de espelhos manchados e carpetes alergênicos, sepultura de milhões de ácaros.

Nesse dia, a Finada me mandou a um curso de vendas. A Finada era o banco em que eu trabalhava e que não existe mais, foi deglutida por outra instituição gulosa. Eu estava feliz, pois, pelo menos, havia me subtraído a mais um dia horroroso de trabalho, sem empréstimos pessoais ou choramingos financistas.

Entre mil papagaiadas que mais lembravam uma gincana ruim de festa junina, uma mensagem no WhatsApp. Era do meu pai. “Tio Zé morreu”. Tio Zé era um daqueles parentes imprestáveis que só são lembrados entre impropérios. Morreu só, no seu casebre, inchado de pinga, mas finalmente fizera uma boa ação: dava-me a deixa para me livrar do treinamento e do dia de trabalho. O instrutor, tomado de um fundo de piedade, me disse:

— Vá lá. Eu aviso o banco. Aproveite e leve o lanche.

Era uma baguete com queijo, presunto e tomate mais uma caixinha de suco vagabundo. Pus tudo na mochila e comecei o caminho. Atravessei toda a cidade em direção ao cemitério, na periferia, mais de uma hora de trajeto entre metrô e ônibus, mais um trecho a pé, uma ladeira. Quando cheguei, o cortejo já havia saído do velório. Corri pelas alamedas entre cruzes de concreto pintadas de cal azul, rosa e branco. Garoava. No caminho, encontrei alguns parentes que voltavam. Ninguém tinha expressão de choro ou mesmo de pesar. Tio Beto contava uma piada aos irmãos, que riam com as mãos nos bolsos.

Quando cheguei à beira da cova aberta, apenas o coveiro ajeitava o monte de terra para cobrir o caixão. No fundo do buraco, um caixão de pino envernizado, solitário e fechado, o modelo mais barato à disposição no serviço funerário. O coveiro me olhou.

— Parente seu?

— Sim; era meu tio-avô.

— Não veio muita gente.

— Eu sei.

Fiquei ali, sem ter muito que fazer. O coveiro, com alguma impaciência, esperava minha contemplação. Eu nunca tivera muita ligação com o tio Zé, beberrão e encrenqueiro, mas achei que ele precisava de uma última homenagem, para perdoar o escárnio disfarçado de condolência dos outros parentes. Tirei da mochila o pão e o suco do lanche e os joguei na cova, sobre o caixão; caíram com um barulho oco. Achei conveniente dizer algo.

— Vá em paz.

O coveiro apenas completou com uma pá de terra e um “amém”.


Publicado na Tribuna Araraquara em 15/12/2016.

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Juó Bananére faz o Enem

Mignos caríssimos amici.

Embora io segia o giurnaliste maise affamato da Mooca, addove io moro adispoise que a migna casa no Abaix’o Pigues (o ladera da Memorie, come dígono os rapaizigno) fui demolita, arresorvi aprestá u tar de Enem, o Insamo Nazionale do Insino Médio, purque io tegno o sogno di sê ingeniere civile di quando io ero un mulequigno. U, que bô si eu passava!

O grande prubleme è qui a scuola addove io tigna di fazê u insamo stava occupata pur uns vagabôndimo i io fiqué pra segonda leva. Tuttas gente mi aparlô: “Juó, cuidado c’a redaçô. Si vucê tirá un brutto zero, perde tuttos insamo”. Maquê io tirá uno zero! Io sono giurnaliste i barbiere antes de o Vílio Vacco nascê, porca pipa! E o Vílio Vacco non sabe afazê as barba com io! Io sono arfabetizádimo desde os migno sei mesos i agiudê u Uáizimo a rivizá as Costituçô, no millenovescentossissantassette e no millenovecentosottantaotto. Os bolítico, assi que mi via pelos corridoio, si nascondeva tuttos, purque illos son tuttos burro, maise burro di una porta. Maise burro du Lixandro Frotte coa Carola Pirese!

Chigué na scuola e adispoise que o inspetore aparlô tutto o qui tigna di aparlá (come parla ista gente!), deu as fogligna coas questió i maise a foglia pra iscrivê a redaçô; io fize tuttas questió i tigna duas horases pra afazê a redaçô. U tema era: “camignos pra gombattê o razzílimo nu Brasile”. Facile maise d’un boio.

Come io guardé u rascugno, metto qui pra vostra come io sono bô nistas cosa. E’ certo que vô tirá um deize.

Pra aprarlá do prubleme do razzílimo nu Brasile, vô cuntá un caso personale migno. Ma non è di nero, perquê d’istas cosa tuttos mondo già sabe. E io tengo un amico, o Benedetto, que è mais pretto d’una latta di pixe. Vô aparlá di quando io chiguê nu Brasile.

Ningué gustava dos italiano. Os guattrocentô axingava a gente tuttos di burro, di gargamano, di varridore di rua i artras cosa inda meno bunita. Quando io giuntê os aramo necessaro, muntê o migno saló de barbiere (perquê io sono barbiere e giurnaliste), ma solo os migno patrizio que vigna cortá o gabello e afazê a barba. Os baolista passava na porta i ogliava pra drento con una gara xiigna di disprêzzimo.

Un die, passó un giovinotto, tuttos bunito i bé-visiido. Io stava na porta, cumendo una raranxa. Illo ogliô bê pra mim i mi disse baxigno:

— Ô sô gargamano. Dixe de sê porco, oglia a mundiça que vucê stá fazendo. E’ assi que vucê cumia na sua terra, sô gara di gavallo?

Io non resisti. Piguê illo pelos colarigno i disse:

— O sô guattrocentô di mezza tigélia, o que vucê está aparlando? Vucê vai inguli tuttas istas parola giunto c’os dente!

Io non sô un uômino viulento, ma aquillo mi fizo fervê o sânguino inda as vêia. O uomigno recuô uns passo, spaventato.

— Io sô rappresentante di una razza que suffreu molto, sô animale! I si questa cittá cresce è purquê noi garregamo illa nas costa. E vucê, que è? Un vagabôndimo, un gianotta gabeçadura, um morfadigna.

As parola congelaro na guela do gara di palo.

— O signore mi discurpe…

— Discurpá un’ova! Vucê offende tutto un popolo i adipoise vé con ista conversigna molle di discurpa? Noi entramo inda a Tribolitânia, combattemo os turcoses. I vucê, pedacigno de pastelo, u que vucê feze?

O uomo foi-s’imbora. Na frente da migna babieria tigna um montô di gente apuladindo: intaliano, baolista, brasiliane, libanese inté o Gerardigno Álquime, o santigno, que è di Pignagnognangabe, i o Zuluio das Parmada, o uôminio que aliderô o popolo no Quilômbolo das Parmada.

Sissignhore. O razzílimo a gente combate con postura, come as galligna. També era bô un poquigno de auzílio do guvêrnimo, que podia coloca nas scuola uns curso pra gente aprendê a sê maise educata. A famiglia è a base di tutto: pircisa inducá os bambino desde a crexe. As organizaçô guvernamentale ma non troppo, as ONGs, pircisa fazê coro. Prima di tutto: rispetto!

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2131 – I, VII

É intrigante e importante saber como uma região rica, como foi um dia a República de São Paulo, foi simplesmente dizimada e ocupada. Para tanto, precisamos recuperar rapidamente os últimos 130 anos de história, ainda no tempo do Brasil.

Em 2002, um partido da chamada esquerda, o Partido dos Trabalhadores, subiu ao poder em Brasília e deu início à tomada do Estado. Só foi temporariamente afastado em 2016, quando a então presidente da República, Dilma Rousseff, sofreu um processo de impedimento. Bons tempos aqueles em que os governantes ruins podiam simplesmente ser sacados da cadeira por um parlamento eleito. O Partido dos Trabalhadores, depois de algum tempo de ocaso e reorganização, conseguiu voltar ao poder em 2030, quando Luís Inácio Lula da Silva, retornando do exílio no Uruguai, funda a Frente Neogetulista e consegue eleger-se novamente presidente do Brasil com uma votação jamais vista até aquele momento, com quase 170 milhões de votos. O país todo contava então com cerca de 240 milhões de habitantes.

Lula, que já havia sido presidente entre 2003 e 2010, era então um homem de 85 anos e senil. Sua eleição trouxe todo o totalitarismo de esquerda; a presidência ficou nas mãos dos burocratas da FNG, que governavam enquanto Lula, vitimado por um derrame, detinha o poder apenas nominalmente. O parlamento, totalmente tomado pela FNG, outorgou, no final de 2031, uma nova constituição, em substituição à Remendada, ou seja, a velha Constituição Brasileira de 1988. A Constituição de 2031 fundou o Estado Novíssimo, e a República Federativa do Brasil passou a ser o Estado Brasileiro; os velhos estados foram reduzidos a províncias, toda a toponímia ligada à religião foi removida. O Estado de São Paulo foi dividido e renomeado como Cistietê, o sul, e Transtietê, o norte. Lula morreu em 2037, com 92 anos.

Toda essa situação começou a gerar tensão entre as várias partes do Brasil, até que, em 2039, surgiu a Frente São Paulo-Sul, que juntou tropas do que eram antes São Paulo e os três estados do Sul, contra o governo central, no que ficou conhecido como Primeira Guerra Civil Brasileira. São Paulo ainda mantinha o motor econômico do país e, com ajuda dos sulistas, combateu o Brasil durante quase seis anos, chegando a ocupar Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás; o governo brasileiro teve de transferir-se provisoriamente para Manaus.

Em 2045, com a guerra quase perdida, o Brasil pediu cessar-fogo e negociações. Reconheceu-se a independência de São Paulo e da Federação do Pampa; a área de Volta Redonda, antes parte do Estado do Rio, o Triângulo Mineiro e Mato Grosso do Sul foram incorporados a São Paulo.

Com a paz, o regime neogetulista do Brasil entrou em colapso e, em 2048, o país caiu em outra guerra civil entre rebeldes, o Exército de Libertação do Brasil, e as tropas oficialistas. Os rebeldes, com ajuda da inteligência paulista, limparam o país do neogetulismo; o Paraguai valeu-se da desordem para recuperar território perdido na Primeira Guerra do Paraguai (1864-1870), além de anexar quase metade de Mato Grosso. A Segunda Guerra Civil Brasileira arrastou-se até 2053.

No período de transição, a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Brasil, a Minusbrá, capitaneada pelo Haiti, conseguiu levar o Brasil de volta ao rol das nações democráticas.

São Paulo havia se tornado, em 2045, uma nação independente, mas sua economia, por conta da guerra, estava em frangalhos. Uma política de isenção fiscal conseguiu atrair investimentos estrangeiros, principalmente britânicos. O Reino Unido, com a saída da União Europeia, em 2019, e a dissolução do bloco, em 2028, tornou-se a segunda potência mundial, principalmente por conta dos desenvolvimentos da área de informática e cibernética, com os sistemas de transporte autônomos.

Em homenagem ao apoio britânico recebido, São Paulo batizou sua nova moeda como libra, dividida em cem dinheiros. Como já se sabe, a inflação comeu o valor de compra da moeda, e hoje não usamos mais os dinheiros, apenas as libras.

São Paulo começou a reerguer-se, mas começou a atrair as atenções paraguaias, dominado pela ditadura de Diego Solano Silva, que dizia ser descendente de Francisco Solano López, o ditador paraguaio à época da Primeira Guerra do Paraguai. Sem a influência do Brasil, a nova potência regional começou com investidas diplomáticas e maquinações para interferir na política interna de seus vizinhos mais fracos. Por causa disso, a Federação do Pampa e o Uruguai formaram, em 2056, uma confederação, o Pampa-Uruguai, que participou dos Jogos Olímpicos de Adis-Abeba, em 2060, e dos de Jacarta, em 2064.

Em 2075, tendo se tornado o país mais poderoso do Hemisfério Sul, o Paraguai entrou em guerra de conquista com seus vizinhos Pampa-Uruguai e São Paulo; conseguiu praticamente metade do Paraná, Mato Grosso do Sul e o Oeste paulista. Em 2078, usou arsenal atômico, apesar das advertências da ONU, sobre a capital paulista, que foi convertida em um grande cemitério, com milhões de mortos, o que provocou a capitulação do Pampa-Uruguai e de São Paulo.

Pelos termos do Acordo de Araxá, assinado em 20 de janeiro de 2080, São Paulo perdia Mato Grosso do Sul, o Triângulo Mineiro e toda porção a oeste da linha Joanópolis-Bertioga, conservando, porém, Volta Redonda. A capital é transferida oficialmente para Pinda, onde já estava desde 2078.

Ainda em 2080, o parlamento pampeano-uruguaio aprova a união com a Argentina, que tinha condições de manter o Paraguai longe, embora tenha perdido o Oeste paranaense e a região do Contestado catarinense. Cabe lembrar que as antigas províncias argentinas de Misiones e Corrientes já eram paraguaias desde 2035, quando um referendo assim decretou.

Todo o território paulista incorporado passou por um processo de paraguaização, com substituição do português pelo espanhol e alteração de toda a toponímia local. Presidente Prudente passou a ser Solanópolis; alguns foram apenas aclimatados, como Guarulhos, para Guarullos, ou Arujá, para Aruyá. Houve um êxodo imenso, de quase 10 milhões de pessoas dos territórios ocupados para o território paulista remanescente. Pinda, que tinha 200 mil habitantes no começo da Primeira Guerra Civil Brasileira, hoje tem 3 milhões, tendo crescido de maneira totalmente caótica; cerca de metade da cidade é composta por favelas e sub-habitações. Pinda englobou a antiga cidade de Taubaté e ainda outras, como Bonsucesso, Tremembé e Roseira.

A região da antiga capital, afetada pela radiação da bomba, foi transformada em uma zona de exclusão de 20 km ao redor do marco zero; a explosão rebaixou o relevo da capital, e o Tietê encheu o espaço, formando o lago, como hoje se encontra.

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Lourdes

Eram 11h40 da noite de 11 de fevereiro quando a criança nasceu. A mãe, devota de Nossa Senhora de Lourdes, mal acreditou que dera à luz no dia consagrado à aparição mariana, pois havia prometido a Nossa Senhora que batizaria a menina de Maria de Lourdes.

Qual não foi a surpresa quando lhe trouxeram o bebê: era um menino. Naquela época não havia exames de detecção de sexo, ou eram muito caros.

O pai, que aguardava na sala, entrou correndo assim que a parteira o chamara.

— Então é um menino! Um rapagão! Vamos chamá-lo de Jerônimo!

Da cama veio um cicio.

—Nem pensar. Não pode. Prometi a Nossa Senhora de Lourdes que colocaria Maria de Lourdes na menina.

— Mas não é uma menina…

Havia ali um problema para a mãe: a promessa versus a lógica da onomástica. A gravidez havia sido difícil, e a ela se havia agarrado à antiga devoção.

Os dias foram passando e nada de um nome; chamavam o menino apenas de “o menino”. O pai continuava tentando dissuadir a esposa. Do nada, numa manhã, ela saiu da cama num salto.

— Já sei. O menino vai se chamar Lourdes.

O pai achou descabido, mas depois que a mãe repetiu “Lour-des”, escandindo as duas sílabas, umas quinze vezes em sequência, o nome se decompôs. Todas as palavras repetidas à exaustão perdem o sentido, viram apenas sons justapostos.

Lourdes, ou Lourdinho, ou ainda Lourdão, dependendo de quem o chamasse, cresceu saudável. O nome não o incomodou até que ele fosse à escola, onde foi alvo preferencial da troça dos colegas. Cresceu com aquele estigma; cansou de ser chamado de “dona” em lugares públicos e pelo telefone. Não que Lourdes fosse afeminado, mas porque chamavam o nome sem ver de quem se tratava. Era-lhe um peso imenso.

Depois de ter amaldiçoado a mãe todos os dias de sua vida, uma morte lenta veio encontrá-lo. Seu Lourdão reuniu os filhos, Aníbal e Átila — os nomes mais másculos que pôde encontrar —, e comunicou-lhes seu último desejo.

— Quando a sepultura estiver pronta, coloquem a lápide que mandei fazer. Está no maleiro do meu guarda-roupa.

Lourdes não durou uma semana. Os filhos pegaram a lápide, que estava embrulhada, e levaram-na para o funeral. Quando a função havia terminado, Átila pegou o embrulho do carro; a lápide não indicava Lourdes, mas Lúcio. Os filhos assentaram-na no lugar correspondente; quando se afastaram para admirar o serviço, Aníbal viu que a palavra “nascido”, antes da data de nascimento do pai, havia sido escrita “nascida”.


Publicado na Tribuna Araraquara de 8/12/2016.

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