2131 – I, V

Domingo, 29 de abril.

Sem novidades durante a semana, apresentamo-nos na delegacia de São José à meia-noite, como fora combinado. O intendente Arruda nos esperava.

— Vou levá-los à fronteira, senhores. Têm tudo de que precisam?

Estávamos com os documentos, uma bússola e tínhamos de memória os lugares do trajeto até a locadora de barcos em Guarullos. Nada de comunicadores, pois os paraguaios poderiam rastrear o sinal.

Arruda nos levou a um ponto remoto da fronteira, já perto de Aruyá.

— Aqui os deixo, cavalheiros. Boa sorte. — disse Arruda batendo continência.

Mal saímos do carro, e Arruda disparou de volta com o carro. A fronteira não estava mais que dois quilômetros daqui, mas era mata quase fechada até a clareira já no Paraguai, antes da vila de Aruyá. Eram quase 3 da manhã e havia sete quilômetros para fazer; pela mata, chegaríamos à clareira no meio da manhã. Com um facão, começamos a abrir caminho; de quando em quando, alguma casa abandonada, que a selva havia reconquistado, aparecia. Eram velhos sítios e casas de campo, abandonadas ainda à época da Guerra Civil Brasileira, entre 2039 e 2045. A população daquela área havia fugido para a velha capital por conta da proximidade da frente de batalha de Minas Gerais, e o território nunca mais foi repovoado, o que provocou o inchaço da chamada Zona Leste, que chegou aos 6 milhões de habitantes. Depois ainda teve a Segunda Guerra do Paraguai, que terminou com a bomba e com a perda de quase todo o território da República de São Paulo.

— Hum… nessas casas, tenho certeza que há moedas…

— Nem pensar, Froilão.

Continuamos a travessia do matagal em sentido sudoeste e, por volta das 10 da manhã, totalmente encharcados, pois ao amanhecer caiu um toró, chegamos à clareira, de onde partia uma estradinha. Do lado esquerdo, um casebre.

— Será que é aqui? — perguntou Froilão.

— Só pode. Buenos días. ¿Hay alguien?

Apenas os pássaros chilreavam alegremente ao sol, por entre as árvores.

Hola! Buenos días. ¿Loyola?

A porta do casebre abriu-se.

Buenas. ¿Qué quieren? ¿Tienen hambre?

Deu as caras um homem de feições indígenas.

— ¡Hombre, si! Comeríamos a um cerdo vivo.

— Ótimo, venham comigo.

Loyola nos levou ao fundo do casebre. Se fosse um agente duplo, estaríamos mortos. Mas, atrás do casebre, havia um trastemóvel, uma furgoneta com a pintura de uma oficina mecânica. Ele nos deu as chaves, e eu tirei do bolso da jaqueta um saquinho com moedas de ouro paraguaias, uns 200 solanos, coisa de umas 150 mil libras, praticamente um ano de salário de um operário paulista. Loyola nem abriu o saco na nossa frente; deu-nos as costas e voltou para o casebre. Da porta, nos alertou, com sotaque castelhano forte:

— Não se pierdan. Hay gasolina suficiente para llegar ao vosso destino, ni mais, ni menos.

Fiz positivo com a mão, e tomamos a estrada.

— Loyola é agente argentino; ou tentou passar-se por tal. — disse eu a Froilão. — A Argentina pode estar na jogada, o que mostra o pântano em que estamos entrando.

A estrada seguia pela serra da Cantarera e, em alguns trechos, parecia que ia desbarrancar encosta abaixo. Depois de umas duas horas, a mancha suja de Virgen de los Guarullos apareceu.

— Cidadezinha morfética.

Guarullos não tinha boa fama, como toda cidade fronteiriça de médio porte. Contrabando, prostituição, máfias y otras cositas. O tráfico de órgãos tinha seu epicentro na cidadezinha. Havia clínicas clandestinas e desova de carcaças humanas no lago. O futuro turismo por conta dos passeios no lago fizeram o ayuntamiento usar como lema perla del lago. Mas, por ora, a pérola era apenas u’a mancha de sujeira. Entramos pelo subúrbio leste, a área mais barra-pesada da cidade. Crianças seminuas jogavam bola, casebres pestilentos e palafitas formavam a paisagem. Eu já havia ficado ali por uma semana, em outra missão, havia já alguns anos. Rapidamente chegamos ao centro e à área do porto. Porto, fique claro, era apenas licença poética, pois se tratava apenas de um píer. Do outro lado, a ilha de la Peña.

Uma placa verde imensa anunciava: “Bienvenidos a Virgen de los Guarullos, la perla del lago”. A placa refulgia, novíssima, gritava em meio à pobreza circunstante. De vez em quando, gendarmes paraguaio, andando ou parados nas esquinas.

Havia passado um pouco da uma da tarde quando descemos do traste, diante de um sobrado à beira do lago identificado como Buques Echeverría. Batemos palmas. A porta abriu-se; um homem grisalho nos fez entrar e foi para detrás do balcão. Na parede, fotos de lanchas, prospectos de passeios, tudo aguardando a horda de turistas que ainda não deu as caras.

— Buenos días, caballeros. ¿Puedo serles útil?

— Sí, amigo. Deseáramos um hovercraft para irnos a la isla de la Peña.

O homem, que mantinha um sorriso sobre os lábios, deixou reta a boca de lábios finos.

— Como não? Venham.

Trancou a porta da frente e conduziu-nos para o andar de cima.

— Não é seguro fazer a viagem de turismo agora. Vamos esperar até meia-noite; nesse meio tempo, os senhores podem descansar e ler. Tem aí o rádio também, podem ouvi-lo para saber das condições meteorológicas para a noite de hoje. Ali no canto, na estante, além dos livros, tem também uns jornais. Qualquer coisa, estou no balcão; basta dar três batidas ritmadas no assoalho. Daqui a pouco, trago-lhes algo de comer.

Dizendo isso, fechou a porta e saiu. No quarto, além da estante e do rádio, dois catres. Não havia forro, via-se o madeiramento do telhado e as telhas de metal, provavelmente fuselagem de velhos barcos e aviões.

O sol, fora, estava inclemente, e o quarto era um verdadeiro forno. Da janela, a vista do lago, que mais parecia uma cloaca.

— Será que esse lago vai atrair turistas? A população ribeirinha está apostando nisso…

— Não sei, Orlando. Isso só o tempo dirá.

— Tem razão, señor Placeres.

O curso de castelhano intensivo que éramos obrigados a cursar na comissão e os anos de experiência nos davam um sotaque perfeito. Éramos legítimos paraguaios. Minutos depois, bateram à porta, no andar de baixo. Da janela, vimos que eram dois gendarmes paraguaios.

—¡Echeverría, la puerta!

Echeverría foi rapidamente abrir, sentimos seus passos.

— Buenas tardes, mi coronel. ¿A que le debo la visita?

— Recibimos informaciones de que dos hombres llegaran acá.

— Sí, sí, es mi primo de Moyí y su empleado. Les presento. Orlando, Adolfo, el coronel Velázquez quiere verles.

Froilão olhou-me. Descemos. O coronel Velázquez nos olhou bem.

— ¿Son ustedes de Moyí?

— Sí, señor. Temos allí un taller de latamóviles.

— Papeles.

Mostramos-lhe nossas identidades falsas, que foram averiguadas por Velázquez e pelo soldado que o acompanhava.

— Todo en orden. Es que un ciudadano nos había informado de la llegada de gente extraña. Aún no están acostumbrados; con la liberación del lago por el gobierno, este pago estará lleno de turistas. Tendrán de acostumbrarse. Disculpen, señores.

E ao fim da palavra señores, abriram a porta e saíram. A desculpa de Velázquez não era uma desculpa, mas uma resposta pronta.

— Podem voltar o quarto. — Disse-nos Echeverría.

Mais tarde, Echeverría nos trouxe comida enlatada. Comemos. Dediquei a tarde a ler os jornais, para saber da situação política e das reações da sociedade paraguaia à liberação do lago, já que a zona de exclusão começava entre Guarullos e a ilha da Peña e terminava apenas em San Roque. Era uma área considerável de água e terra que voltava a ter vida civil, mas os jornais não estavam muito otimistas, pois havia apenas praias e ilhotas, nada muito importante. Froilão achou uns livros de história e pôs-se a lê-los.

O rádio, entre chacareras e guarânias, informou que havia previsão de chuva para a noite e a madrugada. Com a chuva, as condições de navegação pioravam, mas o que deixava boa parte da frota paraguaia nos atracadouros de Osasco e San Andrés.

O sol caiu; a iluminação pública funciona somente até as 10 da noite, quando é desligada, e o pago é engolido pelo breu. Pouco depois, começou a chover torrencialmente. Acabei por pegar no sono.

Anúncios

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s