Lágrimas de crocodilo

Quem não conhece essa expressão? Sempre que alguém chora por algum motivo fútil ou mesmo finge chorar, classificamos o pranto dessa maneira. Ao que parece, quando os crocodilos comem, forçam tanto suas mandíbulas que acabam pressionando as glândulas lacrimais e chorando. Ou seja, num de seus atos mais prazerosos, o crocodilo chora. Já viu um crocodilo comendo? Geralmente ele se aproxima da margem dos rios ou dos lagos onde vive e abocanha uma gazela ou um gnu inteiro, gira-o na água e o come. Que crocodilo fica triste quando tem uma zebra ou um springbok inteiro na boca?

E os nossos crocodilos são iguais. No lodaçal da política, seja em Brasília, no Rio ou em São Paulo, as águas borbulham: centenas de rabudos espreitam as margens à espera de algo; nas águas turvas da política brasílica, crocodilo há que consegue arrastar um hipopótamo.

Mas, às vezes, quase num acaso, algum papudão é pego com a boca cheia. Aí começa o choro. Enquanto tenta deglutir a zebra, cujo rabo ainda lhe sai pelo canto da boca, o crocodilo grita: “Não fui eu, não sei de nada! Sou inocente! A prisão é arbitrária!”. O Brasil é um dos únicos países em que o óbvio tem de ser provado, por conta de um sistema legal que, por zelo excessivo, criou remansos e meandros em que a fauna corrupta pode boiar sem ser incomodada. Chegará o dia em que, sendo do interesse de algum crocodilo ou outro predador, advogados tentarão convencer júri e juiz de que o sentido da chuva é de baixo para cima ou que a lei da gravidade não pode ser aplicada a seu cliente por conta da imunidade parlamentar.

Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro e crocodilaço rotundo, deu aquele espetáculo lamentável enquanto era posto dentro da ambulância. O choro, os gritos e a roupa hospitalar na cena memorável roubam-lhe a dignidade, se é que algum dia a teve. De um homem público, que chegou a ocupar uma chefia de governo, espera-se a retidão, ou pelo menos hombridade, já que a retidão, pelo jeito, dobrou-se em algum ponto da vida pregressa do ex-governador fluminense.  E a lista de chorões aumentou com mais um ex-mandatário do Rio, Sérgio Cabral, chorão com gosto apuradíssimo por ternos Ermenegildo Zegna.

O pranto crocodílico dos nossos potentados define o que somos: infantiloides. Recusamo-nos a crescer, somos criancinhas que trocam apenas de brinquedo, deixamos os carrinhos de fricção para babar pelos carrões reluzentes. Somos crianças crescidas, deformadas física e moralmente; quando nos pilham em algum ato vergonhoso, fazemos como se tivéssemos três anos: choramos. E choramos de boca cheia, como nossos amigos escamosos.


Publicado na Tribuna Araraquara de 24/11/2016.

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