2131 – I, IV

Capítulos I, II e III da primeira parte.

* * *

Chegando a Pinda, fomos nos reunir com o comissário e com o ministro da Defesa, na sede da comissão. Na sala de reuniões, um imenso retrato a óleo de Pedro de Toledo nos observava. O ministro estava à ponta da mesa, ladeado pelo comissário; os dois apoiavam os projetos de Geraldo, mas havia uma diferença: o comissário o fazia apenas por amor ao cargo; o ministro, por outro lado, era membro dos Guerreiros.

Sentamo-nos os três.

— E como resultou a missão, cabo Martim? — era a voz do ministro.

— Satisfatória, Excelência. Temos a confirmação da existência do espaço descrito pelo cidadão Geraldo Treves.

Geraldo deixou escapar um sorrisinho de canto de boca. Ele sabia que eu lhe tinha profundo desprezo, pelas maluquices e pelo seu ar de santarrão; envolvia-me naquilo por mera obrigação de trabalho. Eu chamava Geraldo de mago, pelas costas. Froilão, porém, passara do ceticismo à defesa aberta do mago.

— Excelente. Vamos então planejar a fase dois. — disse o ministro, o que Geraldo aprovou gravemente com a cabeça.

Achei que a fase dois nunca fosse ocorrer. Achei que tudo era loucura do ministro, que se deixava arrastar por um Rasputim redivivo. Achei que a missão resultaria em fracasso e que tanto o ministro como Geraldo seriam banidos para Cabinda, afinal, a República não havia comprado o enclave na África apenas para enfeite. Achei que me livraria daquela maluquice; eu poderia tê-lo feito, bastava apenas levar a missão como turista, como o resto das pessoas no ânfibus.

O ministro tirou papéis de uma maleta. O plano já estava ali.

Para a fase dois, teríamos de atravessar a fronteira na altura de Igaratá e seguir pela serra até Virgen de los Guarullos. Lá, uma pessoa identificada apenas como Echeverría, que tinha um muquifo de aluguel de barcos. Teríamos de contatar esse fulano, que nos levaria à ilha sem as autoridades paraguaias, de noite. Não entraríamos como paulistas, mas como paraguaios. Os documentos falsos foram tirados da maleta.

— Se vocês forem parados por algum comando paraguaio no caminho para Guarullos, temos uma rede de agentes e informantes que vão confirmar as informações que vocês darão, pois os gendarmes querem sempre provas do que você está dizendo. — explicou o ministro.

“Cabo Martim será Adolfo Placeres, mecânico que constrói automóveis trastes; imediato Froilão será Orlando Landi, sócio de Placeres. Para todos os efeitos vocês estão nas montanhas procurando peças de aeronaves abatidas para construir carros; se a polícia os achar, nesta agenda há telefones de gente vivendo na área, em cidades como Santa Isabella, Guarullos, Aruyá, que são, na verdade agentes. Eles confirmarão tudo. A oficina de vocês é em Moyí, onde realmente há uma oficina mantida por um agente nosso. Assim que passarem a fronteira pela área de mata, neste ponto — o ministro apontou no mapa — tem um casebre. Nele, um homem chamado Loyola lhes perguntará se estão com fome. Respondam que sim e que comeriam um porco vivo. Ele lhes entregará um furgotraste com pintura da oficina. Com esse veículo vocês irão a Guarullos, encontrar Encheverría, cuja loja é na rua do Porto.

“Para serem identificados por Echeverría, vocês dirão que querem alugar um hovercraft para ir até a ilha da Peña. Vocês têm uma semana de descanso. Daqui uma semana, dirijam-se a São José, onde um funcionário da comissão vai levá-los até a fronteira. Da fronteira até o casebre, são cinco quilômetros que vocês farão a pé, pelo meio da mata.”

Geraldo contemplava o retrato de Pedro de Toledo. Quando o ministro terminou, ele começou a falar.

— Meus amigos, eis o destino. Na ilha, vão recuperar o crânio de Tibiriçá, para que ele possa ser posto no nosso santuário.

Arriscar a vida por conta do crânio de um chefe índio morto quase 700 anos antes. A história terminaria mal assim que o presidente descobrisse aquele teatro; maestro Geraldo queria apenas um crânio para suas maluquices. Mas como o ministro ainda não havia caído e éramos seus subordinados, concordamos e fomos embora. O comissário não dera um pio durante toda a conversa, apenas observava. Quem garantia que ele não delataria tudo ao presidente da República?

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