Ofiologia fantástica

As cobras têm fama de serem animais traiçoeiros; são a maior preocupação de quem precisa entrar no mato, pois, além de sorrateiras, podem ser venenosas.

O perigo oferecido por esses répteis fez com que eles colonizassem também o matagal do imaginário humano, como símbolo do mal e da perfídia. Na mitologia egípcia, Apófis era a gigantesca serpente de 30 metros que tentava afundar a barca de Rá, cujo movimento criava o dia e a noite; inimigo dos deuses, o ofídio triacontamétrico era ajudado por uma legião de demônios.

A mitologia grega deu-nos a história de Píton, serpente fabulosa nascida do lodo do dilúvio causado por Zeus para punir a humanidade. Hera, a esposa de Zeus, criou Píton para perseguir e matar Leto, amante do soberano olímpico e mãe de Apolo; este último acabou mostrando o pau e matando a cobra. Como a vida imita a arte, a zoologia deu o nome do animal fantástico a um gênero de cobras presente na África e na Ásia.

Jörmungandr é a ameaça de escamas que paira sobre o mundo nórdico antigo e um dos três filhos do deus Lóki. Durante o Ragnarök — o equivalente nórdico do Juízo Final — a cobra espalhará seu veneno por céus e terra. Os textos escáldicos da Edda em Prosa dizem que Jörmungandr pode cobrir a Terra e ainda morder o próprio rabo (o que lembra vagamente o uróboro, de tradição egípcia).

As cobras também escorregaram para dentro do imaginário judaico-cristão. No capítulo 3 do Gênesis, a serpente induz Eva e Adão a comerem o fruto proibido, o que lhe vale uma maldição divina e dá início a toda a desventura da humanidade.

E foi provavelmente da Bíblia que Araraquara criou sua serpente mítica: o megalofídio que vive sob a Matriz. Segundo a lenda, a cobra seria a praga rogada pelo padre Antônio Cezarino por conta do linchamento dos Britos; quando a Matriz ficasse finalmente pronta, ela sairia do subsolo. O ofídio seria uma criança rejeitada jogada na nascente que havia então na praça da Matriz e aguardaria o momento para vingar-se e destruir a cidade.

As lendas locais são curiosas, pois mostram a criatividade de um povo e seu sistema de crenças. Os monstros de sangue frio são fantasia, mas há as cobras que, em forma humana, deslizam para dentro da sociedade, e cuja mordida não mata, apenas anestesia, deixando o tecido social suscetível a infecções. Às vezes, as desgraças vêm com a toga da solução; quem disse que a cobra que está sob a Matriz será a responsável pela destruição de Araraquara? Pode muito bem ser uma imagem, uma figura de linguagem para um bípede escamoso.


Publicado na Tribuna Araraquara de 17/11/2016.

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