2131 – I, III

Voltamos a Moyí pelo mesmo trajeto. Pegamos nossas coisas na estalagem fétida em que deixamos as bagagens e, de táxi, fomos para o posto de fronteira.

— O que você pegou nas ruínas, Froilão?

— Nada.

— Cuidado. Isso pode nos causar problemas na fronteira, e a última coisa que queremos é passar uma temporada numa prisão paraguaia. Eles costumam mandar os paulistas infratores pro campo de Nueva Odesa, que não tem fama de ser um spa…

— Tranquilo, hombre.

Chegamos ao posto. Demonstrei algum nervosismo, e o fato de sermos paulistas aguçou a cisma dos guardas paraguaios. Falaram em guarani entre si.

¿Son ustedes contrabandistas?

Nem esperaram a resposta; pegaram nossas duas malas e esquadrinharam cada canto durante 15 minutos, o quarto de hora mais longo da minha vida. Froilão estava impassível.

¿Encontraran lo que buscan, oficiales?

Um dos guardas paraguaio nos olhou com raiva.

Pueden irse.

Gracias.

Passada a fronteira, pegamos um ônibus que nos levou a São José, onde nos esperava maestro Geraldo. São José já fora uma cidade próspera, sede de uma grande indústria de aviões; a guerras acabaram com ela. Maestro Geraldo nos esperava num restaurante de qualidade duvidosa, perto da rodoviária.

— Sentem-se, meus amigos. Já pedi comida para nós. E umas cervejas.

Não confiava naquele maluco, mas o governo paulista lhe tinha dado carta branca em seus projetos. Geraldo conduzia uma espécie de seita político-religiosa, os Guardiões de Piratininga; era visto como uma eminência parda no governo, embora grande parte da população ignorasse sua existência.

Passado o susto e para atenuar a presença de maestro Geraldo, perguntei a Froilão que raios ele tinha pegado na ilha. Ele se abaixou e, de um compartimento secreto da mala, tirou um punhado de pequenos objetos redondos. Eram moedas, quase todas datadas da década de 2070, moedas de 5 e 10 dinheiros, que há muito não circulavam mais em São Paulo, mas também algumas moedas de real brasileiro, com data dos anos 20 e 30 do século passado.

— Maldito! A sua mania de juntar essas porcarias quase nos manda pra Nueva Odesa!

— Opa! Calma, Martim. O compartimento da minha mala é seguro. Você por acaso acha que foi a primeira vez que estive nos territórios ocupados?

Os territórios ocupados são toda a extensão de território que um dia foi São Paulo, que ia até o rio Paraná, e hoje está sob ocupação paraguaia; com exceção do Vale do Paraíba como já dito, e da província de Volta Redonda.

Na verdade, eu nem estava bravo com Froilão. Era apenas para me livrar do incômodo que o tal Geraldo me causava, um fulano barbado, com ares de místico de fancaria. Para mim, era um charlatão, mas se o governo da República confiava nele, algum motivo devia haver. Eu e Froilão, como funcionários da Comissão de Segurança Interna, apenas cumpríamos ordens.

Comemos e fomos para o furgão da comissão, que estava guardado em uma delegacia.

— E então, acharam? — perguntou Geraldo.

— Sim, estava tudo lá, como o senhor havia dito.

— Perfeito. Agora é desencadear a fase dois.


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