O melhor da cidade

Estando de passagem por ***, no Médio Tietê, um lugarejo de 10 mil habitantes, fui vitimado por uma dor de dente terrível. O maxilar inferior esquerdo pulsava; era quase impossível saber qual dente doía. Saí desesperado da casa onde estava hospedado e dei de cara com um boteco.

— Pelo amor de Deus, onde tem um dentista?

O homem do bar me indicou uma casa no fim da rua; disse que era o melhor dentista da cidade. Uma tabuleta tosca dizia, de fato, “dentista”. Bati palmas. Saiu um homem de bermuda e chinelo de dedo.

— O dentista, por favor?

— Pode entrar. O doutor já vem.

Sentei-me. A dor não me impediu de ver que eu estava em um muquifo, mas me impediu de sair correndo. Dali a pouco, o mesmo elemento que tinha atendido a porta apareceu com uma máscara cirúrgica e luvas de lavar louça. Dei um pulo pra trás.

— Mas o que é isso?!

— Senta aí; o dentista sou eu.

Meu dentista, de bermuda e chinelo de dedo, meio sujo, tinha uma dentição impecável.

— Mas o senhor é dentista?

— Sou.

Não havia diploma nenhum na parede, como costuma ser nos consultórios que conheço.

— E o senhor é formado onde?

— Primário de ***, até a quarta série. Gosto de dentes e tudo que tem relação com eles. Dentista… dentifrício… dentadura… roda dentada, fio-dental, dente-de-leão…

— O senhor é doido!

— Mas eu sou o melhor dentista da cidade! Ou melhor: o único.

Virei as costas e caminhei em direção a porta; o tal dentista me pegou pelo braço.

— Me larga!

— Não.

Empurrei-o. Ele voltou e se jogou sobre mim; era a primeira vez que me metia em briga desde o primeiro grau. Tentei me desvencilhar do cara, mas ele era implacável, os socos zuniam no ar, até que ele conseguiu me derrubar e me imobilizar.

— Agora fica parado! Vai doer um pouquinho .

O soco desceu quente no lado esquerdo. O dentista saiu de cima de mim; ergui-me com a boca cheia de sangue. Algo solto: cuspi dois dentes. Ia partir pra cima do elemento quando percebi que a dor havia passado. Ele me estendeu um copinho.

— Toma. Faz um bochecho.

— O que é?

— Água, sal e vinagre.

— Quanto lhe devo?

— Nada. A primeira vez é por conta da casa.


Publicado na Tribuna Araraquara de 10/11/2016.

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