Medalhões políticos

Legistas políticos de plantão dizem que, depois do segundo turno das eleições, o PT está morto. Além de ter encolhido dois terços em número de prefeituras, o partido perdeu as oito disputas em que conseguiu ir para a segunda ronda. Fora a perda de seus domínios tradicionais, como o ABC paulista e Guarulhos.

É um quadro preocupante, que joga o PT na UTI política, mas falar em morte é cedo. Talvez uma crise epilética seguida de desmaio, ou até mesmo coma, mas não morte. O que nossos legistas ineptos ignoram é que a política partidária no Brasil é mero acaso; as pessoas votam em pessoas, não em partidos. Grande exemplo disso foi a eleição de Collor em 1989, então numa legenda de aluguel, o PRN, Partido da Renovação Nacional. Será que alguém se preocupou com o programa do PRN?

A crise política brasileira é também e principalmente partidária; as agremiações estão em chamas, e o fogo neroniano da Operação Lava-Jato espalha-se por todos os campos, inclusive pelo petismo desbotado, o PSDB, que, com PT e PMDB, é a terceira cabeça do Cérbero da política nacional.

Partidos sucumbem, mas os medalhões têm capital eleitoral próprio. O PT, embora seja mais partido que os outros no sentido estrito da palavra, ou seja, com programa partidário coeso, militância organizada e organização interna forte, não escapa à lei dos medalhões. O PT é basicamente Lula, dono de invejável capital eleitoral, se bem que em queda nos últimos tempos; Lula é um dos poucos nomes petista de alcance nacional, os outros, ou o são regionalmente, como Eduardo Suplicy, ou são nomes ad hoc — ou “paus”, como costumo chamar —, criados a partir do cacife de Lula, como a ex-presidente Dilma ou o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Um nome regionalmente forte, outro medalhão, é o do nosso prefeito eleito, Edson Silva.

O curioso dos medalhões que migram é a tentativa de apagar sua história, como tentou fazer Marta Suplicy. E aí mora a armadilha. É fato que o PT derrete-se e está fadado à extinção ou à vida política vegetativa; muitos de seus quadros tentarão estabelecer-se em outras legendas ou criar novas, como a Rede, de Marina Silva, grande exemplo de partido cuja única base é o capital eleitoral de um medalhão, ou o Psol.

O PT, agora mocozado em grotões, agoniza. Como um fungo que pressente a morte, prepara os esporos; murcha o partido, mas não as ideias que o movem, que migram com seus medalhões, infectando o espectro político brasileiro. E é sobre esses focos de infecção que precisamos nos debruçar; não podemos acreditar que o fato de a doença ter mudado de nome ou vetor a torna menos danosa ou a transforma em cura.


Publicado na Tribuna Araraquara de 3/11/2016.

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