Monthly Archives: Novembro 2016

Fidel chega ao inferno

O coma andante chegou ao Inferno e tudo estava mergulhado na escuridão. De repente, de uma lufada de vapores sulfúreos e miasmas pútridos, surge Lúcifer, senhor daquelas trevas.

— Finalmente nos encontramos, camarada! Bem-vindo ao inferno.

Pero yo pense que… isso de infierno no existisse, porque Marx…

— Marx? Ora, ei-lo ali ao fundo…

Karl Marx debatia-se em uma tempestade de fogo e raios, cercado de lava.

— É o cantinho dos maus conselheiros. E o senhor podia ter uma chusma de puxa-sacos na sua ilha, mas aqui está acompanhado apenas por sua alma suja. Os de coração peludo choram a sua morte, mas os que sofreram naquela ilha estão sapateando sobre o seu caixão…

— Mas o que eu quis sempre foi o bem do pueblo de Cuba.

— E quem vive com 300 calorias diárias, Fidel? A ração mensal que mal dá pra uma semana…

— Mas tem la salud, a la educación

— Tudo de papel machê, mi comandante. Você mesmo sabe. Falso.

Fidel começou a chorar.

— Você não me comove, Fidel Alejandro. Nem um pouco. Se fosse com São Pedro, talvez as suas lágrimas valessem de algo. Aqui no inferno, elas evaporam assim que saem dos seus olhos, velho sujo.

— E o que me espera?

— O nono círculo. Vai ficar lá, num lago congelado, apenas com a cabeça de fora.

¿Por qué, Dios mio, por qué? ¡Valedme!

— Agora não adianta mais, Fidelito. Você transformou Cuba em um lugar infernal.

Pero Cuba no es un lugar infernal, señor Diablo.

— Claro que não! É muito pior. Por isso o trouxe pra cá.

Fidel para de chorar de olha para o rosto terrível e sulfuroso de Lúcifer.

— Como assim?

— Preciso de mão de obra especializada.

1 Comentário

Filed under Sem categoria

2131 – I, V

Domingo, 29 de abril.

Sem novidades durante a semana, apresentamo-nos na delegacia de São José à meia-noite, como fora combinado. O intendente Arruda nos esperava.

— Vou levá-los à fronteira, senhores. Têm tudo de que precisam?

Estávamos com os documentos, uma bússola e tínhamos de memória os lugares do trajeto até a locadora de barcos em Guarullos. Nada de comunicadores, pois os paraguaios poderiam rastrear o sinal.

Arruda nos levou a um ponto remoto da fronteira, já perto de Aruyá.

— Aqui os deixo, cavalheiros. Boa sorte. — disse Arruda batendo continência.

Mal saímos do carro, e Arruda disparou de volta com o carro. A fronteira não estava mais que dois quilômetros daqui, mas era mata quase fechada até a clareira já no Paraguai, antes da vila de Aruyá. Eram quase 3 da manhã e havia sete quilômetros para fazer; pela mata, chegaríamos à clareira no meio da manhã. Com um facão, começamos a abrir caminho; de quando em quando, alguma casa abandonada, que a selva havia reconquistado, aparecia. Eram velhos sítios e casas de campo, abandonadas ainda à época da Guerra Civil Brasileira, entre 2039 e 2045. A população daquela área havia fugido para a velha capital por conta da proximidade da frente de batalha de Minas Gerais, e o território nunca mais foi repovoado, o que provocou o inchaço da chamada Zona Leste, que chegou aos 6 milhões de habitantes. Depois ainda teve a Segunda Guerra do Paraguai, que terminou com a bomba e com a perda de quase todo o território da República de São Paulo.

— Hum… nessas casas, tenho certeza que há moedas…

— Nem pensar, Froilão.

Continuamos a travessia do matagal em sentido sudoeste e, por volta das 10 da manhã, totalmente encharcados, pois ao amanhecer caiu um toró, chegamos à clareira, de onde partia uma estradinha. Do lado esquerdo, um casebre.

— Será que é aqui? — perguntou Froilão.

— Só pode. Buenos días. ¿Hay alguien?

Apenas os pássaros chilreavam alegremente ao sol, por entre as árvores.

Hola! Buenos días. ¿Loyola?

A porta do casebre abriu-se.

Buenas. ¿Qué quieren? ¿Tienen hambre?

Deu as caras um homem de feições indígenas.

— ¡Hombre, si! Comeríamos a um cerdo vivo.

— Ótimo, venham comigo.

Loyola nos levou ao fundo do casebre. Se fosse um agente duplo, estaríamos mortos. Mas, atrás do casebre, havia um trastemóvel, uma furgoneta com a pintura de uma oficina mecânica. Ele nos deu as chaves, e eu tirei do bolso da jaqueta um saquinho com moedas de ouro paraguaias, uns 200 solanos, coisa de umas 150 mil libras, praticamente um ano de salário de um operário paulista. Loyola nem abriu o saco na nossa frente; deu-nos as costas e voltou para o casebre. Da porta, nos alertou, com sotaque castelhano forte:

— Não se pierdan. Hay gasolina suficiente para llegar ao vosso destino, ni mais, ni menos.

Fiz positivo com a mão, e tomamos a estrada.

— Loyola é agente argentino; ou tentou passar-se por tal. — disse eu a Froilão. — A Argentina pode estar na jogada, o que mostra o pântano em que estamos entrando.

A estrada seguia pela serra da Cantarera e, em alguns trechos, parecia que ia desbarrancar encosta abaixo. Depois de umas duas horas, a mancha suja de Virgen de los Guarullos apareceu.

— Cidadezinha morfética.

Guarullos não tinha boa fama, como toda cidade fronteiriça de médio porte. Contrabando, prostituição, máfias y otras cositas. O tráfico de órgãos tinha seu epicentro na cidadezinha. Havia clínicas clandestinas e desova de carcaças humanas no lago. O futuro turismo por conta dos passeios no lago fizeram o ayuntamiento usar como lema perla del lago. Mas, por ora, a pérola era apenas u’a mancha de sujeira. Entramos pelo subúrbio leste, a área mais barra-pesada da cidade. Crianças seminuas jogavam bola, casebres pestilentos e palafitas formavam a paisagem. Eu já havia ficado ali por uma semana, em outra missão, havia já alguns anos. Rapidamente chegamos ao centro e à área do porto. Porto, fique claro, era apenas licença poética, pois se tratava apenas de um píer. Do outro lado, a ilha de la Peña.

Uma placa verde imensa anunciava: “Bienvenidos a Virgen de los Guarullos, la perla del lago”. A placa refulgia, novíssima, gritava em meio à pobreza circunstante. De vez em quando, gendarmes paraguaio, andando ou parados nas esquinas.

Havia passado um pouco da uma da tarde quando descemos do traste, diante de um sobrado à beira do lago identificado como Buques Echeverría. Batemos palmas. A porta abriu-se; um homem grisalho nos fez entrar e foi para detrás do balcão. Na parede, fotos de lanchas, prospectos de passeios, tudo aguardando a horda de turistas que ainda não deu as caras.

— Buenos días, caballeros. ¿Puedo serles útil?

— Sí, amigo. Deseáramos um hovercraft para irnos a la isla de la Peña.

O homem, que mantinha um sorriso sobre os lábios, deixou reta a boca de lábios finos.

— Como não? Venham.

Trancou a porta da frente e conduziu-nos para o andar de cima.

— Não é seguro fazer a viagem de turismo agora. Vamos esperar até meia-noite; nesse meio tempo, os senhores podem descansar e ler. Tem aí o rádio também, podem ouvi-lo para saber das condições meteorológicas para a noite de hoje. Ali no canto, na estante, além dos livros, tem também uns jornais. Qualquer coisa, estou no balcão; basta dar três batidas ritmadas no assoalho. Daqui a pouco, trago-lhes algo de comer.

Dizendo isso, fechou a porta e saiu. No quarto, além da estante e do rádio, dois catres. Não havia forro, via-se o madeiramento do telhado e as telhas de metal, provavelmente fuselagem de velhos barcos e aviões.

O sol, fora, estava inclemente, e o quarto era um verdadeiro forno. Da janela, a vista do lago, que mais parecia uma cloaca.

— Será que esse lago vai atrair turistas? A população ribeirinha está apostando nisso…

— Não sei, Orlando. Isso só o tempo dirá.

— Tem razão, señor Placeres.

O curso de castelhano intensivo que éramos obrigados a cursar na comissão e os anos de experiência nos davam um sotaque perfeito. Éramos legítimos paraguaios. Minutos depois, bateram à porta, no andar de baixo. Da janela, vimos que eram dois gendarmes paraguaios.

—¡Echeverría, la puerta!

Echeverría foi rapidamente abrir, sentimos seus passos.

— Buenas tardes, mi coronel. ¿A que le debo la visita?

— Recibimos informaciones de que dos hombres llegaran acá.

— Sí, sí, es mi primo de Moyí y su empleado. Les presento. Orlando, Adolfo, el coronel Velázquez quiere verles.

Froilão olhou-me. Descemos. O coronel Velázquez nos olhou bem.

— ¿Son ustedes de Moyí?

— Sí, señor. Temos allí un taller de latamóviles.

— Papeles.

Mostramos-lhe nossas identidades falsas, que foram averiguadas por Velázquez e pelo soldado que o acompanhava.

— Todo en orden. Es que un ciudadano nos había informado de la llegada de gente extraña. Aún no están acostumbrados; con la liberación del lago por el gobierno, este pago estará lleno de turistas. Tendrán de acostumbrarse. Disculpen, señores.

E ao fim da palavra señores, abriram a porta e saíram. A desculpa de Velázquez não era uma desculpa, mas uma resposta pronta.

— Podem voltar o quarto. — Disse-nos Echeverría.

Mais tarde, Echeverría nos trouxe comida enlatada. Comemos. Dediquei a tarde a ler os jornais, para saber da situação política e das reações da sociedade paraguaia à liberação do lago, já que a zona de exclusão começava entre Guarullos e a ilha da Peña e terminava apenas em San Roque. Era uma área considerável de água e terra que voltava a ter vida civil, mas os jornais não estavam muito otimistas, pois havia apenas praias e ilhotas, nada muito importante. Froilão achou uns livros de história e pôs-se a lê-los.

O rádio, entre chacareras e guarânias, informou que havia previsão de chuva para a noite e a madrugada. Com a chuva, as condições de navegação pioravam, mas o que deixava boa parte da frota paraguaia nos atracadouros de Osasco e San Andrés.

O sol caiu; a iluminação pública funciona somente até as 10 da noite, quando é desligada, e o pago é engolido pelo breu. Pouco depois, começou a chover torrencialmente. Acabei por pegar no sono.

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Lágrimas de crocodilo

Quem não conhece essa expressão? Sempre que alguém chora por algum motivo fútil ou mesmo finge chorar, classificamos o pranto dessa maneira. Ao que parece, quando os crocodilos comem, forçam tanto suas mandíbulas que acabam pressionando as glândulas lacrimais e chorando. Ou seja, num de seus atos mais prazerosos, o crocodilo chora. Já viu um crocodilo comendo? Geralmente ele se aproxima da margem dos rios ou dos lagos onde vive e abocanha uma gazela ou um gnu inteiro, gira-o na água e o come. Que crocodilo fica triste quando tem uma zebra ou um springbok inteiro na boca?

E os nossos crocodilos são iguais. No lodaçal da política, seja em Brasília, no Rio ou em São Paulo, as águas borbulham: centenas de rabudos espreitam as margens à espera de algo; nas águas turvas da política brasílica, crocodilo há que consegue arrastar um hipopótamo.

Mas, às vezes, quase num acaso, algum papudão é pego com a boca cheia. Aí começa o choro. Enquanto tenta deglutir a zebra, cujo rabo ainda lhe sai pelo canto da boca, o crocodilo grita: “Não fui eu, não sei de nada! Sou inocente! A prisão é arbitrária!”. O Brasil é um dos únicos países em que o óbvio tem de ser provado, por conta de um sistema legal que, por zelo excessivo, criou remansos e meandros em que a fauna corrupta pode boiar sem ser incomodada. Chegará o dia em que, sendo do interesse de algum crocodilo ou outro predador, advogados tentarão convencer júri e juiz de que o sentido da chuva é de baixo para cima ou que a lei da gravidade não pode ser aplicada a seu cliente por conta da imunidade parlamentar.

Anthony Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro e crocodilaço rotundo, deu aquele espetáculo lamentável enquanto era posto dentro da ambulância. O choro, os gritos e a roupa hospitalar na cena memorável roubam-lhe a dignidade, se é que algum dia a teve. De um homem público, que chegou a ocupar uma chefia de governo, espera-se a retidão, ou pelo menos hombridade, já que a retidão, pelo jeito, dobrou-se em algum ponto da vida pregressa do ex-governador fluminense.  E a lista de chorões aumentou com mais um ex-mandatário do Rio, Sérgio Cabral, chorão com gosto apuradíssimo por ternos Ermenegildo Zegna.

O pranto crocodílico dos nossos potentados define o que somos: infantiloides. Recusamo-nos a crescer, somos criancinhas que trocam apenas de brinquedo, deixamos os carrinhos de fricção para babar pelos carrões reluzentes. Somos crianças crescidas, deformadas física e moralmente; quando nos pilham em algum ato vergonhoso, fazemos como se tivéssemos três anos: choramos. E choramos de boca cheia, como nossos amigos escamosos.


Publicado na Tribuna Araraquara de 24/11/2016.

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Adega

Antes de produzir algo que preste, é preciso produzir lixo. Será do lixo que o estilo e o trato com as palavras vão sair; é da porcariada prolixa que poderá nascer algo. Não é certeza; não é fertilização in vitro. O tempo é juiz severo; se você escreve há dez anos e se por acaso guardo o que escrevia, leia seus tesouros e veja como eles se transformaram em dísticos piegas, cheios de esquisitices lexicais — a mania de querer reinventar a língua — e períodos tortuosos; uma esquisiticezinha ou uma palavrinha inventada, muito bem, que seja, mas é impossível manter a atenção do leitor com um caminhão de estranhezas. Os textos precisam ser curados: ou azedam ou se tornam algo palatável.

Estou na fase do lixo.

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

2131 – I, IV

Capítulos I, II e III da primeira parte.

* * *

Chegando a Pinda, fomos nos reunir com o comissário e com o ministro da Defesa, na sede da comissão. Na sala de reuniões, um imenso retrato a óleo de Pedro de Toledo nos observava. O ministro estava à ponta da mesa, ladeado pelo comissário; os dois apoiavam os projetos de Geraldo, mas havia uma diferença: o comissário o fazia apenas por amor ao cargo; o ministro, por outro lado, era membro dos Guerreiros.

Sentamo-nos os três.

— E como resultou a missão, cabo Martim? — era a voz do ministro.

— Satisfatória, Excelência. Temos a confirmação da existência do espaço descrito pelo cidadão Geraldo Treves.

Geraldo deixou escapar um sorrisinho de canto de boca. Ele sabia que eu lhe tinha profundo desprezo, pelas maluquices e pelo seu ar de santarrão; envolvia-me naquilo por mera obrigação de trabalho. Eu chamava Geraldo de mago, pelas costas. Froilão, porém, passara do ceticismo à defesa aberta do mago.

— Excelente. Vamos então planejar a fase dois. — disse o ministro, o que Geraldo aprovou gravemente com a cabeça.

Achei que a fase dois nunca fosse ocorrer. Achei que tudo era loucura do ministro, que se deixava arrastar por um Rasputim redivivo. Achei que a missão resultaria em fracasso e que tanto o ministro como Geraldo seriam banidos para Cabinda, afinal, a República não havia comprado o enclave na África apenas para enfeite. Achei que me livraria daquela maluquice; eu poderia tê-lo feito, bastava apenas levar a missão como turista, como o resto das pessoas no ânfibus.

O ministro tirou papéis de uma maleta. O plano já estava ali.

Para a fase dois, teríamos de atravessar a fronteira na altura de Igaratá e seguir pela serra até Virgen de los Guarullos. Lá, uma pessoa identificada apenas como Echeverría, que tinha um muquifo de aluguel de barcos. Teríamos de contatar esse fulano, que nos levaria à ilha sem as autoridades paraguaias, de noite. Não entraríamos como paulistas, mas como paraguaios. Os documentos falsos foram tirados da maleta.

— Se vocês forem parados por algum comando paraguaio no caminho para Guarullos, temos uma rede de agentes e informantes que vão confirmar as informações que vocês darão, pois os gendarmes querem sempre provas do que você está dizendo. — explicou o ministro.

“Cabo Martim será Adolfo Placeres, mecânico que constrói automóveis trastes; imediato Froilão será Orlando Landi, sócio de Placeres. Para todos os efeitos vocês estão nas montanhas procurando peças de aeronaves abatidas para construir carros; se a polícia os achar, nesta agenda há telefones de gente vivendo na área, em cidades como Santa Isabella, Guarullos, Aruyá, que são, na verdade agentes. Eles confirmarão tudo. A oficina de vocês é em Moyí, onde realmente há uma oficina mantida por um agente nosso. Assim que passarem a fronteira pela área de mata, neste ponto — o ministro apontou no mapa — tem um casebre. Nele, um homem chamado Loyola lhes perguntará se estão com fome. Respondam que sim e que comeriam um porco vivo. Ele lhes entregará um furgotraste com pintura da oficina. Com esse veículo vocês irão a Guarullos, encontrar Encheverría, cuja loja é na rua do Porto.

“Para serem identificados por Echeverría, vocês dirão que querem alugar um hovercraft para ir até a ilha da Peña. Vocês têm uma semana de descanso. Daqui uma semana, dirijam-se a São José, onde um funcionário da comissão vai levá-los até a fronteira. Da fronteira até o casebre, são cinco quilômetros que vocês farão a pé, pelo meio da mata.”

Geraldo contemplava o retrato de Pedro de Toledo. Quando o ministro terminou, ele começou a falar.

— Meus amigos, eis o destino. Na ilha, vão recuperar o crânio de Tibiriçá, para que ele possa ser posto no nosso santuário.

Arriscar a vida por conta do crânio de um chefe índio morto quase 700 anos antes. A história terminaria mal assim que o presidente descobrisse aquele teatro; maestro Geraldo queria apenas um crânio para suas maluquices. Mas como o ministro ainda não havia caído e éramos seus subordinados, concordamos e fomos embora. O comissário não dera um pio durante toda a conversa, apenas observava. Quem garantia que ele não delataria tudo ao presidente da República?

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

Ofiologia fantástica

As cobras têm fama de serem animais traiçoeiros; são a maior preocupação de quem precisa entrar no mato, pois, além de sorrateiras, podem ser venenosas.

O perigo oferecido por esses répteis fez com que eles colonizassem também o matagal do imaginário humano, como símbolo do mal e da perfídia. Na mitologia egípcia, Apófis era a gigantesca serpente de 30 metros que tentava afundar a barca de Rá, cujo movimento criava o dia e a noite; inimigo dos deuses, o ofídio triacontamétrico era ajudado por uma legião de demônios.

A mitologia grega deu-nos a história de Píton, serpente fabulosa nascida do lodo do dilúvio causado por Zeus para punir a humanidade. Hera, a esposa de Zeus, criou Píton para perseguir e matar Leto, amante do soberano olímpico e mãe de Apolo; este último acabou mostrando o pau e matando a cobra. Como a vida imita a arte, a zoologia deu o nome do animal fantástico a um gênero de cobras presente na África e na Ásia.

Jörmungandr é a ameaça de escamas que paira sobre o mundo nórdico antigo e um dos três filhos do deus Lóki. Durante o Ragnarök — o equivalente nórdico do Juízo Final — a cobra espalhará seu veneno por céus e terra. Os textos escáldicos da Edda em Prosa dizem que Jörmungandr pode cobrir a Terra e ainda morder o próprio rabo (o que lembra vagamente o uróboro, de tradição egípcia).

As cobras também escorregaram para dentro do imaginário judaico-cristão. No capítulo 3 do Gênesis, a serpente induz Eva e Adão a comerem o fruto proibido, o que lhe vale uma maldição divina e dá início a toda a desventura da humanidade.

E foi provavelmente da Bíblia que Araraquara criou sua serpente mítica: o megalofídio que vive sob a Matriz. Segundo a lenda, a cobra seria a praga rogada pelo padre Antônio Cezarino por conta do linchamento dos Britos; quando a Matriz ficasse finalmente pronta, ela sairia do subsolo. O ofídio seria uma criança rejeitada jogada na nascente que havia então na praça da Matriz e aguardaria o momento para vingar-se e destruir a cidade.

As lendas locais são curiosas, pois mostram a criatividade de um povo e seu sistema de crenças. Os monstros de sangue frio são fantasia, mas há as cobras que, em forma humana, deslizam para dentro da sociedade, e cuja mordida não mata, apenas anestesia, deixando o tecido social suscetível a infecções. Às vezes, as desgraças vêm com a toga da solução; quem disse que a cobra que está sob a Matriz será a responsável pela destruição de Araraquara? Pode muito bem ser uma imagem, uma figura de linguagem para um bípede escamoso.


Publicado na Tribuna Araraquara de 17/11/2016.

Deixe um comentário

Filed under Sem categoria

2131 – I, III

Voltamos a Moyí pelo mesmo trajeto. Pegamos nossas coisas na estalagem fétida em que deixamos as bagagens e, de táxi, fomos para o posto de fronteira.

— O que você pegou nas ruínas, Froilão?

— Nada.

— Cuidado. Isso pode nos causar problemas na fronteira, e a última coisa que queremos é passar uma temporada numa prisão paraguaia. Eles costumam mandar os paulistas infratores pro campo de Nueva Odesa, que não tem fama de ser um spa…

— Tranquilo, hombre.

Chegamos ao posto. Demonstrei algum nervosismo, e o fato de sermos paulistas aguçou a cisma dos guardas paraguaios. Falaram em guarani entre si.

¿Son ustedes contrabandistas?

Nem esperaram a resposta; pegaram nossas duas malas e esquadrinharam cada canto durante 15 minutos, o quarto de hora mais longo da minha vida. Froilão estava impassível.

¿Encontraran lo que buscan, oficiales?

Um dos guardas paraguaio nos olhou com raiva.

Pueden irse.

Gracias.

Passada a fronteira, pegamos um ônibus que nos levou a São José, onde nos esperava maestro Geraldo. São José já fora uma cidade próspera, sede de uma grande indústria de aviões; a guerras acabaram com ela. Maestro Geraldo nos esperava num restaurante de qualidade duvidosa, perto da rodoviária.

— Sentem-se, meus amigos. Já pedi comida para nós. E umas cervejas.

Não confiava naquele maluco, mas o governo paulista lhe tinha dado carta branca em seus projetos. Geraldo conduzia uma espécie de seita político-religiosa, os Guardiões de Piratininga; era visto como uma eminência parda no governo, embora grande parte da população ignorasse sua existência.

Passado o susto e para atenuar a presença de maestro Geraldo, perguntei a Froilão que raios ele tinha pegado na ilha. Ele se abaixou e, de um compartimento secreto da mala, tirou um punhado de pequenos objetos redondos. Eram moedas, quase todas datadas da década de 2070, moedas de 5 e 10 dinheiros, que há muito não circulavam mais em São Paulo, mas também algumas moedas de real brasileiro, com data dos anos 20 e 30 do século passado.

— Maldito! A sua mania de juntar essas porcarias quase nos manda pra Nueva Odesa!

— Opa! Calma, Martim. O compartimento da minha mala é seguro. Você por acaso acha que foi a primeira vez que estive nos territórios ocupados?

Os territórios ocupados são toda a extensão de território que um dia foi São Paulo, que ia até o rio Paraná, e hoje está sob ocupação paraguaia; com exceção do Vale do Paraíba como já dito, e da província de Volta Redonda.

Na verdade, eu nem estava bravo com Froilão. Era apenas para me livrar do incômodo que o tal Geraldo me causava, um fulano barbado, com ares de místico de fancaria. Para mim, era um charlatão, mas se o governo da República confiava nele, algum motivo devia haver. Eu e Froilão, como funcionários da Comissão de Segurança Interna, apenas cumpríamos ordens.

Comemos e fomos para o furgão da comissão, que estava guardado em uma delegacia.

— E então, acharam? — perguntou Geraldo.

— Sim, estava tudo lá, como o senhor havia dito.

— Perfeito. Agora é desencadear a fase dois.


Anteriores:

I, I
I, II

1 Comentário

Filed under Sem categoria