Se for pra chorar…

Gosto muito do que o Ignacio de Loyola Brandão escreve. Ainda não pude fazer uma leitura de toda a obra, mas destaco na minha formação de leitor “Zero” (1975), romance publicado primeiro em tradução italiana, e “Dentes ao sol” (1976), que considero um livro importante para entender muitas das coisas que se passam em cidades interioranas não tão imaginárias.

Vi e cumprimentei Brandão pessoalmente apenas uma vez, na Feira do Livro de Ribeirão, em um evento no Teatro Pedro II. Para mim, é quase um galardão, pois, do meu panteão literário particular, Brandão é um dos poucos vivos.

Entrei em contato com seus textos na minha época de revisor na Tribuna, justamente com as crônicas. Vocês não imaginam o suadouro que dá mexer em texto literário, porque é preciso respeitar texto e autor. Não que fosse necessário mexer no texto, que é trabalho de edição, mas é que os nossos dedos plebeus, e os dos escritores também, volta e meia sambam sobre o teclado e nos fazem trocar ou comer letras. Mesmo sendo alterações de ordem cosmética — porque ortografia que muda de 30 em 30 anos tem de ser mera cosmética —, confesso que a responsabilidade pesava, muito mais, obviamente, que a revisão do noticiário, coisa fugaz. Afinal, crônica é crônica.

Doeu-me não ter ido à noite de autógrafos de “Se for pra chorar, que seja de alegria”, na última terça-feira. Tinha combinado tudo com o Matheus Vieira, meu amigo e nome forte do jornalismo cultural local, mas a natureza me pregou uma peça: no meio da madrugada da terça-feira, às 3h35, para ser mais exato, nasceu meu segundo filho, seis dias antes da data prevista.

O fato de Tomás ter nascido no meio das ore piccole mostra sua semelhança com o pai, de preferir o silêncio da noite funda à azáfama da hora antípoda; foi o único parto da madrugada. Papai agradece a escolha, Tomás, mas não garanto que a mamãe seja da mesma opinião. O hospital, semideserto, parecia mais um set de filmagem do que um hospital, e a comparação me trouxe à memória Brandão e sua paixão pelo cinema, marcada em tantas crônicas. A coincidência dos fatos me fez ponderar, enquanto eu vagava pelos corredores do hospital vestido com um macacão medonho, em batizar o menino de Inácio, mas as toalhas bordadas pela avó paterna e os mimos da tia e futura madrinha estariam perdidos, o que me valeria muitos problemas.

Talvez a trilha sonora desta crônica fosse a ária de Händel “Lascia ch’io pianga” (“Deixa-me chorar”), mas o fato de perder a noite de autógrafos por conta do filho novel não é cruda sorte, longe disso. Pois, se for pra chorar, que seja de alegria, tanto pela chegada do Tomás como pelo novo livro de Brandão.


Publicado na Tribuna Araraquara de 27/10/2016.

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