2131 – I, I

I

Sábado, 21 abril de 2131.

Moyí de Arriba, a vilazinha suja e ruinosa à beira do lago, era o ponto de partida da nossa expedição. Depois de mais de 50 anos da explosão atômica de 2078, o governo revogou a interdição total à zona de exclusão, se bem que alguns andarilhos e criminosos já viviam na área, imensa, onde os níveis de radiação afastavam qualquer busca de fugitivos da justiça. Quem lá tenha entrado antes, estava por sua conta e risco.

Entramos num ânfibus, que rapidamente deslizava pelo braço do lago. Antigamente a área não era assim. O rio, à época da explosão, tinha o nível bem mais baixo; os cientistas estimam que as águas tenham subido coisa de 30 metros.

Nosso passeio era a primeira excursão comercial naquelas águas. Os ribeirinhos tinham intenção de ganhar uns cobres com a curiosidade das pessoas; o medo, porém, ainda era grande, principalmente por conta do índice de radiação, informação que o governo não divulgava.

Depois de um tempo de navegação, vimos uma placa, presa a uma boia fixa, que dizia ser ali o começo da zona de exclusão. O motorista informou ao grupo que a ilha a nossa esquerda é a isla de la Peña, sobre a qual há um templo ruinoso. Durante muito tempo, ali se estabeleceram os corsários fluviais, considerados extintos há mais de dez anos e que aterrorizavam as vilas ribeirinhas como Moyí de Arriba, Suzán e Poá. Com a fuga em massa causada pela explosão, toda a área foi recolonizada pelos paraguaios, o que permitiu a incorporação de quase toda a República pelo Paraguai. São Paulo ficou limitado a seu território do Vale do Paraíba e à província de Volta de Redonda.

Essas vilas, à esquerda, são basicamente formadas de choças e casebres e floresceram com a liberação da pesca pelo governo, há 20 anos. O pescado do lago era mote de piadas no Paraguai e servia basicamente de subsistência aos ribeirinhos. Havia ainda algumas vilas com maioria de paulistas, como Villa Hermosa, em que se via a torre da Igreja de Santa Isabel, convertida em farol pelo governo paraguaio. Ali havia ainda a famosa praia do Cemitério; as águas do lago espraiavam-se sobre um cemitério de cruzes simples e árvores mortas.

Visitar o que sobrou da velha capital de São Paulo é uma questão de honra para mim. Meus pais tiveram de evacuá-la na infância e estabelecer-se em Pinda Neocap, a eterna capital provisória da República; quero ver o que sobrou daquilo que já foi uma das maiores cidades do mundo. Na Neocap, há um Memorial da Capital, que mostra desde as primeiras fotografias tiradas de São Paulo, por volta de 1860, até os últimos registros imediatamente anteriores à explosão, que foi em 12 de outubro de 2078.

A guerra acabou naquele mesmo ano, mas o ressentimento dos paulistas e a desconfiança dos paraguaios causam até hoje problemas na fronteira. Nos anos 2100, houve mesmo alguns bombardeios da Força Aérea Paraguaia a cidades fronteiriças, como Guararema e Remédios. O cessar-fogo de 2106 deu cabo às escaramuças.

Havia muitos paraguaios no nosso ânfibus, que nos cumprimentavam com displicência e procuravam manter a conversação em guarani, para que não os entendêssemos. O ônibus anfíbio seguia seu curso sobre as águas lamacentas.

Aquel islote en el fondo es la isla de la Iglesia.

O motorista anunciou que a ilhota no horizonte era a ilha da Igreja, ou seja, o lugar onde estava o centro da antiga capital. Ohs de admiração.

Toda a área sobre a qual navegávamos era o subúrbio leste, com seus 6 milhões de habitantes, linhas de trem e metrô e prédios. Alguns edifícios, ainda de pé, deixavam o topo à mostra. Alguns, logo abaixo do nível da água, eram escolhos perigosos. Se o ânfibus pegasse um, era naufrágio na certa.

Navegamos por quase uma hora até aportarmos na ilha da Igreja. Logo na praia, as ruínas do Colégio. No meio dos destroços, ainda era possível ver o contorno das ruas e, ao fundo, as ruínas de um templo, a tal igreja que dava nome à ilha.

A bomba caiu no que hoje é o meio do lago, uns dez quilômetros a sudoeste da ilha, onde fez uma cratera de quase 300 metros de profundidade. A morte foi quase instantânea para 15 milhões de paulistanos; sobreviveu apenas quem estava no extremo sul ou no extremo leste, como os hoje vilarejos-fantasma de Parelleros e Itaquera, ou a área ainda habitada de Ciudad Líder. O resto da superfície, por conta das alterações de relevo provocadas pela explosão, encheu-se de água.

Como um país grande como o Brasil conseguiu chegar ao estado calamitoso de esfacelar-se, isso é problema da política desastrosa depois de 2030. Mas não é hora de política. Vamos explorar a ilha.

Ustedes tienen dos horas para andar por la isla. A mediodía, partiremos para la isla de la Torre.

Era tempo suficiente. Eu e Froilão tínhamos duas horas para percorrer a ilha. Afastamo-nos do grupo principal e fomos em direção à igreja ruinosa, mas que ainda era monumental. À direita do templo, uma área mais limpa. Era um cemitério pirata.

Andamos na área da ilha da Igreja, absolutamente deserta. Antes da nossa expedição, ninguém pusera o pé aqui por mais de 50 anos, com exceção dos piratas. Além de ser a terra de ninguém nuclear, o lago marca a fronteira com São Paulo, a leste, e com os Estados do Norte, sucessor do Brasil. São Paulo e o Oeste do Paraná sucumbiram ao poderio paraguaio e o restante do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, depois de formarem uma confederação com o Uruguai, acabaram por unir-se à Argentina, justamente com medo do Paraguai.

Estacamos diante da Catedral derruída, que ainda mantinha sua imponência e suas torres que pareciam pedir a misericórdia dos céus. A sisudez gótica cercada de escombros.

— Será que tem por onde entrar?

— Vamos ver.

Peguei um cano de ferro e comecei a escarafunchar montes de entulho ao pé da muralha. Gastamos mais de uma hora nisso; o tempo estava ficando curto. Tivemos de dar uma parada porque um grupo de paraguaios chegou perto. Olhou a igreja e foi-se.

De repente, Froilão apareceu por detrás de um monturo:

— Achei!

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