Gourmet

A vida é mesmo um poço de surpresas, e, quando você acredita ter chegado ao fundo desse poço, eis que, num cantinho, tem uma pá. E é assim que me sinto quando aparece uma nova “gourmetice”. Se o leitor não é dado a modernices, explico: gourmet é um termo basicamente aplicado à comida, engrandecendo-lhe o preço. Por exemplo, o dogão do carrinho custa xis; o hot-dog gourmet terá salsicha de carne de vaca galega, molho agridoce de pimentões do Mediterrâneo, mostarda dijon e mais um monte de coisas de nomes impronunciáveis, tudo num pão sem glúten, e vai custar xis vezes três, quando não mais.

Comida gourmet é assunto despiciendo, modinha como biquíni asa-delta ou calça boca de sino, mas que começa a incomodar quando entra à força no nosso cotidiano.

Dia desses, fui ao supermercado, algo que faz parte do cotidiano de quase todo mundo. Mas, por conta de conveniência e proximidade geográfica, fui a um supermercado diferente daquele que habitualmente frequento. Não digo o nome para não fazer propaganda e nem ganhar processo, mas é um estabelecimento que se apresenta com o conceito gourmet, embora não use explicitamente a palavra. Vejo-me no meio do supermercado com a listinha de compras, com vários itens e pão. O supermercado gourmet já quer ser diferente na localização das prateleiras: são na diagonal em relação aos caixas. Tudo muito verde, tudo muito bonito; verdura orgânica que custa uma calça e frutinhas de bosque europeias. Cervejas artesanais, cumbucas cerâmicas bonitas, mas que são agora chamadas de bowls.

Meus olhos viram o que aguentaram ver. Eu já havia pegado tudo de que precisava… mas, não. Faltava o pão; vamos à padaria do mercado. À minha frente, um barbudinho gourmet, de óculos e tatuagens, desses tipinhos tão comuns nos Jardins ou nos botecos do Baixo Augusta. Vejo os pães no balcão, divididos em duas cestas. Parece-me tratar-se do mesmo pão francês de 50 gramas que conheço desde que me entendo por gente, mas dois pequenos cartazes indicam que eu, do buraco de piche da minha ignorância, estava triangularmente enganado. Os cartazes diziam: “pão branquinho” e “pão queimadinho”, assim mesmo, com diminutivozinhos. De fato, olhando agora com mais atenção, os pães de uma cesta são mais brancos ou queimados, de acordo com qual cesta se olha primeiro.

Aquilo me fez mal. Lembrei-me de senhoras solteironas com que tive o desprazer de trabalhar que gastavam o sagrado momento do café defendendo o que seria melhor, se o pãozinho queimado ou o branquelo, parlamentando e justificando o gosto. À boca me veio súbito gosto de fel. No fim das contas, o “gourmetismo” é a reencarnação das tias velhas, da fofoca de portão, do contar vantagem.

Desisti do pão.


Publicado na Tribuna Araraquara de 13/10/2016.

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