Ninguém

Sabemos que o senhor Edinho, do partido da estrela decadente, ganhou a eleição em Araraquara. Mas ganhou mesmo? As porcentagens que o resultado mostra, de quase 42% para Edinho e pouco menos de 29% para a tucana implume Edna, são proporções dos votos válidos. Vinte e seis mil eleitores de Araraquara optaram por anular o voto ou deixá-lo em branco, quantidade pouco inferior à dos votos recebidos pelos outros candidatos a prefeito, plâncton eleitoral.

Em outras cidades, o Zé Ninguém ganhou. Se os resultados fossem levados às últimas consequências, em São Paulo, a Prefeitura ficaria vazia por quatro anos, pois Ninguém teve mais votos que o neotucano João Dória. No Rio de Janeiro, brancos e nulos são quase o dobro de votos que recebeu o universal Crivella, que passou para o segundo turno em primeiro lugar. Em Curitiba, Belém, Porto Alegre, Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Campinas e Santo André, os fantasmas também teriam ganhado as prefeituras.

Que significa isso? Significa que a conversa fiada da politicagem não desce mais. Significa que a Justiça Eleitoral pode gastar todo seu latim dizendo que as pessoas “têm de votar em alguém”. Acabou. Ninguém mais cai nessa esparrela.

Sabe-se bem que, contados os votos e aclamados os eleitos, beijinho, beijinho, tchau, tchau. Mas, mesmo depois dos eventos deste ano, tem político achando que tudo continua como antes no quartel de Abrantes. Mudou, e vossas senhorias têm de levar em conta que governarão com apoio de, no máximo, um quarto do eleitorado, um terço, não mais que isso. Conversinha mole de legitimidade e representação popular não se justifica mais. A classe política afastou-se do povo; agora, o povo afasta-se ainda mais dela. Ele descobriu que é o Estado que o impede de crescer, que lhe empata a vida com mil leis ridículas, discussões inócuas e asfixia econômica; o povo optou por viver ignorando o Estado, dando de ombros. O que é bom e ruim.

É bom porque as pessoas acham que o Estado lhes deve tudo, como a mãe a um filho mimado; estão aprendendo que a vida é mais que esperar a boa vontade de quem assenta as nádegas no trono. Estão simplesmente vivendo sem pedir autorização ao Estado (que sacrilégio!). O lado ruim é que, sem fiscalização, as ratazanas gordas, de todos os matizes partidários, se locupletam no poder e no erário…

Bom ou mau, é o que aí está. E é um aviso. Os prefeitos eleitos e os senhores vereadores que não façam ouvidos moucos, pois há gente de olho; poucos, sim, mas atentos e valentes. O Brasil não é mais a casa da mãe Joana que foi desde 1985, o oba-oba da Nova República. A Nova República acabou, e Ninguém é dono do que sobrou.


Publicado na Tribuna Araraquara de 6/10/2016.

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