Monthly Archives: Outubro 2016

2131 – I, I

I

Sábado, 21 abril de 2131.

Moyí de Arriba, a vilazinha suja e ruinosa à beira do lago, era o ponto de partida da nossa expedição. Depois de mais de 50 anos da explosão atômica de 2078, o governo revogou a interdição total à zona de exclusão, se bem que alguns andarilhos e criminosos já viviam na área, imensa, onde os níveis de radiação afastavam qualquer busca de fugitivos da justiça. Quem lá tenha entrado antes, estava por sua conta e risco.

Entramos num ânfibus, que rapidamente deslizava pelo braço do lago. Antigamente a área não era assim. O rio, à época da explosão, tinha o nível bem mais baixo; os cientistas estimam que as águas tenham subido coisa de 30 metros.

Nosso passeio era a primeira excursão comercial naquelas águas. Os ribeirinhos tinham intenção de ganhar uns cobres com a curiosidade das pessoas; o medo, porém, ainda era grande, principalmente por conta do índice de radiação, informação que o governo não divulgava.

Depois de um tempo de navegação, vimos uma placa, presa a uma boia fixa, que dizia ser ali o começo da zona de exclusão. O motorista informou ao grupo que a ilha a nossa esquerda é a isla de la Peña, sobre a qual há um templo ruinoso. Durante muito tempo, ali se estabeleceram os corsários fluviais, considerados extintos há mais de dez anos e que aterrorizavam as vilas ribeirinhas como Moyí de Arriba, Suzán e Poá. Com a fuga em massa causada pela explosão, toda a área foi recolonizada pelos paraguaios, o que permitiu a incorporação de quase toda a República pelo Paraguai. São Paulo ficou limitado a seu território do Vale do Paraíba e à província de Volta de Redonda.

Essas vilas, à esquerda, são basicamente formadas de choças e casebres e floresceram com a liberação da pesca pelo governo, há 20 anos. O pescado do lago era mote de piadas no Paraguai e servia basicamente de subsistência aos ribeirinhos. Havia ainda algumas vilas com maioria de paulistas, como Villa Hermosa, em que se via a torre da Igreja de Santa Isabel, convertida em farol pelo governo paraguaio. Ali havia ainda a famosa praia do Cemitério; as águas do lago espraiavam-se sobre um cemitério de cruzes simples e árvores mortas.

Visitar o que sobrou da velha capital de São Paulo é uma questão de honra para mim. Meus pais tiveram de evacuá-la na infância e estabelecer-se em Pinda Neocap, a eterna capital provisória da República; quero ver o que sobrou daquilo que já foi uma das maiores cidades do mundo. Na Neocap, há um Memorial da Capital, que mostra desde as primeiras fotografias tiradas de São Paulo, por volta de 1860, até os últimos registros imediatamente anteriores à explosão, que foi em 12 de outubro de 2078.

A guerra acabou naquele mesmo ano, mas o ressentimento dos paulistas e a desconfiança dos paraguaios causam até hoje problemas na fronteira. Nos anos 2100, houve mesmo alguns bombardeios da Força Aérea Paraguaia a cidades fronteiriças, como Guararema e Remédios. O cessar-fogo de 2106 deu cabo às escaramuças.

Havia muitos paraguaios no nosso ânfibus, que nos cumprimentavam com displicência e procuravam manter a conversação em guarani, para que não os entendêssemos. O ônibus anfíbio seguia seu curso sobre as águas lamacentas.

Aquel islote en el fondo es la isla de la Iglesia.

O motorista anunciou que a ilhota no horizonte era a ilha da Igreja, ou seja, o lugar onde estava o centro da antiga capital. Ohs de admiração.

Toda a área sobre a qual navegávamos era o subúrbio leste, com seus 6 milhões de habitantes, linhas de trem e metrô e prédios. Alguns edifícios, ainda de pé, deixavam o topo à mostra. Alguns, logo abaixo do nível da água, eram escolhos perigosos. Se o ânfibus pegasse um, era naufrágio na certa.

Navegamos por quase uma hora até aportarmos na ilha da Igreja. Logo na praia, as ruínas do Colégio. No meio dos destroços, ainda era possível ver o contorno das ruas e, ao fundo, as ruínas de um templo, a tal igreja que dava nome à ilha.

A bomba caiu no que hoje é o meio do lago, uns dez quilômetros a sudoeste da ilha, onde fez uma cratera de quase 300 metros de profundidade. A morte foi quase instantânea para 15 milhões de paulistanos; sobreviveu apenas quem estava no extremo sul ou no extremo leste, como os hoje vilarejos-fantasma de Parelleros e Itaquera, ou a área ainda habitada de Ciudad Líder. O resto da superfície, por conta das alterações de relevo provocadas pela explosão, encheu-se de água.

Como um país grande como o Brasil conseguiu chegar ao estado calamitoso de esfacelar-se, isso é problema da política desastrosa depois de 2030. Mas não é hora de política. Vamos explorar a ilha.

Ustedes tienen dos horas para andar por la isla. A mediodía, partiremos para la isla de la Torre.

Era tempo suficiente. Eu e Froilão tínhamos duas horas para percorrer a ilha. Afastamo-nos do grupo principal e fomos em direção à igreja ruinosa, mas que ainda era monumental. À direita do templo, uma área mais limpa. Era um cemitério pirata.

Andamos na área da ilha da Igreja, absolutamente deserta. Antes da nossa expedição, ninguém pusera o pé aqui por mais de 50 anos, com exceção dos piratas. Além de ser a terra de ninguém nuclear, o lago marca a fronteira com São Paulo, a leste, e com os Estados do Norte, sucessor do Brasil. São Paulo e o Oeste do Paraná sucumbiram ao poderio paraguaio e o restante do Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, depois de formarem uma confederação com o Uruguai, acabaram por unir-se à Argentina, justamente com medo do Paraguai.

Estacamos diante da Catedral derruída, que ainda mantinha sua imponência e suas torres que pareciam pedir a misericórdia dos céus. A sisudez gótica cercada de escombros.

— Será que tem por onde entrar?

— Vamos ver.

Peguei um cano de ferro e comecei a escarafunchar montes de entulho ao pé da muralha. Gastamos mais de uma hora nisso; o tempo estava ficando curto. Tivemos de dar uma parada porque um grupo de paraguaios chegou perto. Olhou a igreja e foi-se.

De repente, Froilão apareceu por detrás de um monturo:

— Achei!

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Se for pra chorar…

Gosto muito do que o Ignacio de Loyola Brandão escreve. Ainda não pude fazer uma leitura de toda a obra, mas destaco na minha formação de leitor “Zero” (1975), romance publicado primeiro em tradução italiana, e “Dentes ao sol” (1976), que considero um livro importante para entender muitas das coisas que se passam em cidades interioranas não tão imaginárias.

Vi e cumprimentei Brandão pessoalmente apenas uma vez, na Feira do Livro de Ribeirão, em um evento no Teatro Pedro II. Para mim, é quase um galardão, pois, do meu panteão literário particular, Brandão é um dos poucos vivos.

Entrei em contato com seus textos na minha época de revisor na Tribuna, justamente com as crônicas. Vocês não imaginam o suadouro que dá mexer em texto literário, porque é preciso respeitar texto e autor. Não que fosse necessário mexer no texto, que é trabalho de edição, mas é que os nossos dedos plebeus, e os dos escritores também, volta e meia sambam sobre o teclado e nos fazem trocar ou comer letras. Mesmo sendo alterações de ordem cosmética — porque ortografia que muda de 30 em 30 anos tem de ser mera cosmética —, confesso que a responsabilidade pesava, muito mais, obviamente, que a revisão do noticiário, coisa fugaz. Afinal, crônica é crônica.

Doeu-me não ter ido à noite de autógrafos de “Se for pra chorar, que seja de alegria”, na última terça-feira. Tinha combinado tudo com o Matheus Vieira, meu amigo e nome forte do jornalismo cultural local, mas a natureza me pregou uma peça: no meio da madrugada da terça-feira, às 3h35, para ser mais exato, nasceu meu segundo filho, seis dias antes da data prevista.

O fato de Tomás ter nascido no meio das ore piccole mostra sua semelhança com o pai, de preferir o silêncio da noite funda à azáfama da hora antípoda; foi o único parto da madrugada. Papai agradece a escolha, Tomás, mas não garanto que a mamãe seja da mesma opinião. O hospital, semideserto, parecia mais um set de filmagem do que um hospital, e a comparação me trouxe à memória Brandão e sua paixão pelo cinema, marcada em tantas crônicas. A coincidência dos fatos me fez ponderar, enquanto eu vagava pelos corredores do hospital vestido com um macacão medonho, em batizar o menino de Inácio, mas as toalhas bordadas pela avó paterna e os mimos da tia e futura madrinha estariam perdidos, o que me valeria muitos problemas.

Talvez a trilha sonora desta crônica fosse a ária de Händel “Lascia ch’io pianga” (“Deixa-me chorar”), mas o fato de perder a noite de autógrafos por conta do filho novel não é cruda sorte, longe disso. Pois, se for pra chorar, que seja de alegria, tanto pela chegada do Tomás como pelo novo livro de Brandão.


Publicado na Tribuna Araraquara de 27/10/2016.

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Horário de verão

Sabemos que um dos esportes nacionais é reclamar. O brasileiro adora praticar o que costumo chamar de “reclamação estilo livre”, que é o lamento sem qualquer iniciativa de solução ou remédio, ou seja, o puro fatalismo.

As redes sociais aumentaram o alcance da reclamação. Reclama-se de tudo e de todos, mas um tema querido no repertório é o horário de verão. E como se fala besteira! A turma acha, de fato, que a órbita dos acontecimentos tem centro no próprio umbigo. Vamos às reclamações mais comuns sobre o tema.

  1. “Perco uma hora de sono.” Isso até pode ser verdade no primeiro e no segundo dia, agora, durante todo o período de vigência do horário? Duvido. Se fosse assim, jet lag seria incurável, e os imigrantes/emigrantes viveriam em um estágio zumbi crônico.
  2. “Acordo muito cedo, me atrapalha demais.” Você e o resto do país. Acordei durante 15 anos da minha vida entre as 5 e as 6 da manhã, e, sim, de fato, a essa hora, está um breu medonho, mas a tarde estendida vale a pena.
  3. “O governo me rouba uma hora.” Piove, governo ladro!, já diziam os italianos. Embora o horário de verão seja uma política pública de economia de energia, garanto-lhes que, ao fim do período, a “hora roubada” volta, ao contrário do dinheiro que escorreu pelo ralo em certa estatal petrolífera.
  4. “Vou ter que adiantar todos os relógios da casa.” Essa reclamação só vale para quem não tem dedos ou tenha em casa uma coleção de cem relógios. Caso contrário, cinco minutos são suficientes para acertar todos os aparelhos da casa, como relógio de cozinha, despertador, celular, micro-ondas… ah, se você não sabe ajustar o relógio do micro-ondas, bem, a reclamação é de outra natureza.
  5. “Ai, por causa do horário de verão, não sei quando é dia ou noite.” A reclamação é válida para quem é cego, mas acredito que os cegos tenham mais sensibilidade do que quem usa essa desculpa. É fácil, amigo: olhe pela janela. Se tiver luz solar, é dia; se não, é noite.
  6. “São três, mas, na verdade, são duas.” Pare de chatice. Hora civil é hora civil; se são três, são três e ponto. Fazendo essa conta ridícula e penosa toda vez que precisar ver as horas para a lamentação diária, você vai apenas atrapalhar-se, sem saber que horas são exatamente. Conheci gente que perdeu entrevista de emprego por conta dessa sorte de palhaçada e, obviamente, culpou o horário de verão, e não a própria cretinice.

Amigo leitor, aproveite o período de sol no final da tarde para passear com o cachorro, fazer uma caminhada, tomar um sol, brincar com as crianças, sei lá, mas pare de ser chato. Você já está passando por baixo da porta de tão chato.


Publicado na Tribuna Araraquara de 20/10/2016.

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E se fosse o contrário?

“O lugar da minha mulher é na cozinha”, disse o presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, na frente da chanceler alemã, Angela Merkel. Essa foi a resposta “espirituosa” de Buhari a um jornalista que lhe perguntara sobre declarações da primeira-dama, que disse que não apoiaria o marido à reeleição que este não fizesse mudanças no governo. Merkel não disse nada, e estabeleceu-se o que se costuma chamar de “saia justa”.

Eu gostaria de saber a opinião dos multiculturalistas de esquerda, que estão sempre dizendo que o Ocidente tem de ser mais tolerante com outras culturas. Ou então o que dirão as feministas. Defenderão Buhari como defenderam Lula, que as cognominou “grelo-duro”?

Se fosse um chefe de Estado ocidental, como o presidente da França ou o primeiro-ministro da Itália? Certamente a coisa teria tomando ares de escândalo mundial; feministas francesas ou italianas pediriam a cabeça dos respectivos mandatários.

Buhari é muçulmano. Dirão as feministas, como já disseram em outras oportunidades, que a submissão da mulher no mundo islâmico é uma “escolha”. O problema não é o presidente da Nigéria reduzir a existência da esposa ao âmbito doméstico, mas o ocidental não entender que se trata de peculiaridade cultural. Afinal, não existem culturas inferiores ou superiores, não é mesmo?

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O sr. Fábio Porchato sabe o que diz?

O sr. Fabio Porchato expeliu mais um texto maravilhoso de sua lavra, “O povo sabe votar?”. Sim, eu sei que é um texto do Fábio Porchato, mas tem alguns pontos interessantes:

1. A verdade comprovada de que quem não vota na esquerda é burro.
2. O corolário de que democracia é ruim quando não desemboca na vitória da esquerda.
3. A paráfrase de um dito de Churchill, para parecer inteligentíssimo.
4. O uso de um argumentum ad Hitlerum.

Pergunto-me o que tem o sr. Porchato para ser aclamado. Pergunto-me que tipo de gente, exceto a ex-presidente dona Dilma Vana, o crê capaz de emitir opinião sobre economia, como fez recentemente com o caso da PEC 241.

Pergunto-me por que os jornais e a mídia lhe dão tanta atenção.

Porchato é aquele tipo cansativo que estraga churrasco, que termina bêbado e caído pelos cantos.

O senhor Porchato apenas cacareja, não bota ovo algum.

“O povo sabe votar?”, pergunta o enfant terrible da nossa jeunesse dorée. Não. O povo esmerdeia as urnas pelo menos desde 1951, quando elegeu Getúlio Vargas presidente. O povo colocou o megalomaníaco Juscelino Kubitschek, que construiu uma Persépolis no meio do belo nada. O povo elegeu um maluco cujo símbolo de campanha era uma vassoura; elegeu também aquele gaudério bon-vivant que nos arrastou ao funesto 1964. Aliás, o povo não votou, mas saiu à rua pedindo os militares. Deu no que deu.

O povo elegeu Collor, que talvez tenha sido a escolha menos pior dos últimos 60 anos. Depois elegeu FHC, o professor de asnidades e boca mole; depois, o boquirroto Lula, seu ar de pinga e a súcia que o acompanhou. E depois Dilma. E Serra. E Alckmin. E Fleury Filho. E Quércia.

Sim, sr. Porchato. O povo não sabe votar. Nunca o soube. Não é preciso que o senhor venha aí a sujar o poleiro. Já está sujo desde sempre.

Deixo-vos o textículo de Porchato.

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Gourmet

A vida é mesmo um poço de surpresas, e, quando você acredita ter chegado ao fundo desse poço, eis que, num cantinho, tem uma pá. E é assim que me sinto quando aparece uma nova “gourmetice”. Se o leitor não é dado a modernices, explico: gourmet é um termo basicamente aplicado à comida, engrandecendo-lhe o preço. Por exemplo, o dogão do carrinho custa xis; o hot-dog gourmet terá salsicha de carne de vaca galega, molho agridoce de pimentões do Mediterrâneo, mostarda dijon e mais um monte de coisas de nomes impronunciáveis, tudo num pão sem glúten, e vai custar xis vezes três, quando não mais.

Comida gourmet é assunto despiciendo, modinha como biquíni asa-delta ou calça boca de sino, mas que começa a incomodar quando entra à força no nosso cotidiano.

Dia desses, fui ao supermercado, algo que faz parte do cotidiano de quase todo mundo. Mas, por conta de conveniência e proximidade geográfica, fui a um supermercado diferente daquele que habitualmente frequento. Não digo o nome para não fazer propaganda e nem ganhar processo, mas é um estabelecimento que se apresenta com o conceito gourmet, embora não use explicitamente a palavra. Vejo-me no meio do supermercado com a listinha de compras, com vários itens e pão. O supermercado gourmet já quer ser diferente na localização das prateleiras: são na diagonal em relação aos caixas. Tudo muito verde, tudo muito bonito; verdura orgânica que custa uma calça e frutinhas de bosque europeias. Cervejas artesanais, cumbucas cerâmicas bonitas, mas que são agora chamadas de bowls.

Meus olhos viram o que aguentaram ver. Eu já havia pegado tudo de que precisava… mas, não. Faltava o pão; vamos à padaria do mercado. À minha frente, um barbudinho gourmet, de óculos e tatuagens, desses tipinhos tão comuns nos Jardins ou nos botecos do Baixo Augusta. Vejo os pães no balcão, divididos em duas cestas. Parece-me tratar-se do mesmo pão francês de 50 gramas que conheço desde que me entendo por gente, mas dois pequenos cartazes indicam que eu, do buraco de piche da minha ignorância, estava triangularmente enganado. Os cartazes diziam: “pão branquinho” e “pão queimadinho”, assim mesmo, com diminutivozinhos. De fato, olhando agora com mais atenção, os pães de uma cesta são mais brancos ou queimados, de acordo com qual cesta se olha primeiro.

Aquilo me fez mal. Lembrei-me de senhoras solteironas com que tive o desprazer de trabalhar que gastavam o sagrado momento do café defendendo o que seria melhor, se o pãozinho queimado ou o branquelo, parlamentando e justificando o gosto. À boca me veio súbito gosto de fel. No fim das contas, o “gourmetismo” é a reencarnação das tias velhas, da fofoca de portão, do contar vantagem.

Desisti do pão.


Publicado na Tribuna Araraquara de 13/10/2016.

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Ninguém

Sabemos que o senhor Edinho, do partido da estrela decadente, ganhou a eleição em Araraquara. Mas ganhou mesmo? As porcentagens que o resultado mostra, de quase 42% para Edinho e pouco menos de 29% para a tucana implume Edna, são proporções dos votos válidos. Vinte e seis mil eleitores de Araraquara optaram por anular o voto ou deixá-lo em branco, quantidade pouco inferior à dos votos recebidos pelos outros candidatos a prefeito, plâncton eleitoral.

Em outras cidades, o Zé Ninguém ganhou. Se os resultados fossem levados às últimas consequências, em São Paulo, a Prefeitura ficaria vazia por quatro anos, pois Ninguém teve mais votos que o neotucano João Dória. No Rio de Janeiro, brancos e nulos são quase o dobro de votos que recebeu o universal Crivella, que passou para o segundo turno em primeiro lugar. Em Curitiba, Belém, Porto Alegre, Belo Horizonte, Ribeirão Preto, Campinas e Santo André, os fantasmas também teriam ganhado as prefeituras.

Que significa isso? Significa que a conversa fiada da politicagem não desce mais. Significa que a Justiça Eleitoral pode gastar todo seu latim dizendo que as pessoas “têm de votar em alguém”. Acabou. Ninguém mais cai nessa esparrela.

Sabe-se bem que, contados os votos e aclamados os eleitos, beijinho, beijinho, tchau, tchau. Mas, mesmo depois dos eventos deste ano, tem político achando que tudo continua como antes no quartel de Abrantes. Mudou, e vossas senhorias têm de levar em conta que governarão com apoio de, no máximo, um quarto do eleitorado, um terço, não mais que isso. Conversinha mole de legitimidade e representação popular não se justifica mais. A classe política afastou-se do povo; agora, o povo afasta-se ainda mais dela. Ele descobriu que é o Estado que o impede de crescer, que lhe empata a vida com mil leis ridículas, discussões inócuas e asfixia econômica; o povo optou por viver ignorando o Estado, dando de ombros. O que é bom e ruim.

É bom porque as pessoas acham que o Estado lhes deve tudo, como a mãe a um filho mimado; estão aprendendo que a vida é mais que esperar a boa vontade de quem assenta as nádegas no trono. Estão simplesmente vivendo sem pedir autorização ao Estado (que sacrilégio!). O lado ruim é que, sem fiscalização, as ratazanas gordas, de todos os matizes partidários, se locupletam no poder e no erário…

Bom ou mau, é o que aí está. E é um aviso. Os prefeitos eleitos e os senhores vereadores que não façam ouvidos moucos, pois há gente de olho; poucos, sim, mas atentos e valentes. O Brasil não é mais a casa da mãe Joana que foi desde 1985, o oba-oba da Nova República. A Nova República acabou, e Ninguém é dono do que sobrou.


Publicado na Tribuna Araraquara de 6/10/2016.

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