Argumentum ad Hitlerum

Nossa vida é feita de concessões e cessões, e hoje cedo ao lugar-comum. Quando, para reprovar ou exaltar algo, recorre-se à comparação ao nazismo, a falácia é chamada reductio ou argumentum ad Hitlerum. De nada; quando for oportuno, você, leitor, pode me pagar um café.

E como funciona a tal reductio ad Hitlerum? Fácil. Se algo teve o apoio de Hitler e/ou dos nazistas, é ruim; se foi rejeitado e/ou combatido, é bom. A ideia não é minha, mas do filósofo alemão Leo Strauss, em 1950.

Recorro a uma reductio ad Hitlerum, ou ad nazium, para falar de algo muito em voga nos meios políticos, a certeza da impunidade. Vejam que não é apenas certeza ou impunidade, mas a certeza da impunidade, que é a esperança que alguém, com culpa no cartório notória e consciente, nutre de fugir da vara da justiça. Adolf Eichmann, por exemplo. Eichmann era o gerentão, por assim dizer, da chamada Solução Final, ou seja, era o responsável pela execução da política de extermínio do povo judeu e outras etnias consideradas indesejáveis pelo regime nazista; ele conseguiu fugir da Europa ao fim da guerra e estabeleceu-se na Argentina, onde viveu confortavelmente sob nome falso até ser detido e levado a Israel pelo Mossad, numa operação digna de filme do James Bond. Lá, foi julgado e enforcado, o que é belo e instrutivo.

Quinze anos viveu Eichmann na Argentina, onde se fez chamar Ricardo Klement. Mas a justiça o alcançou; como alcançou também Klaus Barbie e Erich Priebke, “funcionários” frios de um regime fascista e assassino, nacional-socialista. Há, claro, exemplo de quem morreu como gente comum, sem maiores problemas, como Josef Mengele, que definhou com os pulmões cheios de água do Atlântico, em Bertioga, litoral do nosso amado Estado.

Assim como nazistas, há muitos cretinos por aí, sectários de ideologias oportunistas — ou seria o caso de oportunismo ideológico? — que tratam a locupletação pessoal e a tomada do Estado como parte do jogo; gente que conta com o esquecimento, com a impunidade e com populismo barato de marca getulista, ainda mais na República da Banânia, onde a constituição é papel molhado. As fugas não apagam as culpas, nem as mitigam. Eichmann, Barbie et caterva tiveram apoio de colegas, organizados em uma associação de ex-combatentes, foram bem acolhidos em seus refúgios, mas, mesmo assim, a justiça chegou a eles, mesmo que algo atrasada.

Os fujões que se cuidem, pois as varas da justiça andam cada vez mais ágeis. E que o leitor aceite as minhas desculpas pelo uso de falácia retórica.


Publicado na Tribuna Araraquara de 29/9/2016.

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