Macunaíma já!

Senhores vereadores.

Pensei em protocolar um documento com este tema na Câmara, com cópia para cada uma de Vossas Excelências, mas preferi fazer uso deste espaço. Assim, além de comunicar-lhes a minha ideia, torno-a pública a toda a cidade e também aos candidatos a vereador que venham a ser eleitos. A época não poderia ser mais propícia.

Sabemos que o grande Mário de Andrade escreveu em nossa terra seu opus magnum, o romance “Macunaíma”, pedra angular do Modernismo brasileiro. É absolutamente inaceitável que não tenhamos nada além da Chácara Sapucaia que recorde o fato, um totem, nem um miserável marco de concreto em alguma de nossas praças engolidas pelo matagal.

É hora de sanar tal injustiça! A personagem-título é a síntese da alma brasileira, da nossa política, das nossas relações diárias; é o arquétipo da nossa nacionalidade. Araraquara deve-lhe uma homenagem justa, imensa e sólida.

Minha proposta é uma estátua. Como Grande Otelo deu vida à personagem interpretando-a no filme homônimo de 1969, é justo que nosso Macunaíma tenha as feições do finado ator. Ou ainda a estátua pode ser a representação de seu sublime nascimento, incluindo no conjunto escultórico sua pulcra e proba mãe, interpretada no filme por Paulo José. Mas não pode ser uma simples estátua de cinco metros. Não. Tem de ser algo à altura da personagem e daquilo que Araraquara deu ao país. Uma estátua à beira da Washington Luís, de 40, 50 metros, ali, perto da cervejaria! Um colosso de concreto armado!

É justo e certo que Araraquara celebre aquilo que deu ao país, algo tão sublime e verdadeiro que, além das memoráveis páginas de Mário, tem de ser imortalizado em formas rijas e plúmbeas. O que é nosso vai, mas volta!

Além da estátua, por que não um concurso anual de acrósticos? Poetas do país todo virão cantar a glória de Macunaíma, o genius populi brasiliani, e, de quebra, celebrar a cidade que o viu nascer. Imaginem, imaginem comigo: “Araraquara, a morada de Macunaíma”!

Senhores vereadores, senhores futuros vereadores, ouçam o clamor! Uma estátua de Macunaíma visível em São Carlos para rivalizar com aquela imitação bufa da Estátua da Liberdade que lá há, diante de uma loja. O que é uma Liberdade franco-americana perto de Macunaíma?

É hora de fazermos um crowfunding, uma vaquinha; um vacão! Vamos erguer a maior estátua que este país já viu. Vamos celebrar o mais profundo da nossa alma e da nossa cultura. Comerciantes, industriais, revendedores de automóveis, fazedores de meias, vamos todos contribuir com a iniciativa. Temos de inscrever o nome de Araraquara nos pátrios anais. Araraquara é a terra de Macunaíma e de vários outros nomes dignos de serem macunaímas.


Publicado na Tribuna Araraquara  de 22/9/1981.

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