Tóbi

Isso de ser recente de volante com 35 anos me faz suar muito. Pegar o carro para ir ao centro é uma epopeia.

O carro é uma máquina fantástica, mas de difícil operação. Você dirá que é tarefa comezinha, que basta ligar e sair. Ainda brigo muito com a alavanca de câmbio, com a seta; volta e meia ligo o limpador de para-brisa quando queria, na verdade, acender os faróis. Basta que eu me sente ao volante para sentir a garganta seca, as mãos úmidas; o carro não responde aos meus comandos e morre. Ou seja, estou sofrendo aos 35 o que deveria ter passado aos 18. Não sei se tenho saúde suficiente.

Faz uns dias que ia com minha esposa deixar meu menino na escolinha. Um caminho cheio de cruzamentos em que é preciso parar o carro, voltar à primeira marcha e começar tudo de novo. Num meio de quadra, minha esposa freia bruscamente por conta de uns pardais que, sem medo, saltitavam pelos paralelepípedos.

— Cuidado. Se brecar assim com outro carro atrás, é batida na certa.

Por sorte, ninguém nos seguia. Temos de brecar para os animais desde que isso não ponha em risco os ocupantes do carro.

Algum tempo depois, voltávamos de Boa Esperança, aqui colado. Vínhamos tranquilos. Era a terceira vez que eu pegava a estrada. A certa altura, quando éramos escoltados de perto por um bitrem de cana, me sai do meio do mato um cachorro, desses vadios que vivem em chácaras. Tentei reduzir, mas o choque foi inevitável: pegamos o cão.

Parei no acostamento; o bitrem passou silvando. O cachorro estava no meio da pista, morto. Logo, outro carro para no acostamento; dele salta uma mulher descabelada, berrando que eu tinha matado o cachorro. Sim, eu matara o cão, mas tinha esposa e filho no carro. Tive de optar.

A mulher berrava e eu olhava o cão. Não podia deixá-lo onde estava. Saquei do porta-malas um saco e recolhi o cachorro. A mulher berrava a um metro de mim, chamando-me de todos os nomes possíveis. O porta-malas estava abarrotado de malas, o cachorro não cabia lá. Não tive dúvidas, depositei o saco no banco traseiro, do lado do meu filho, e continuei o caminho.

A mulher ainda me seguiu um tempo, piscando os faróis e fazendo sinal com as mãos. Peguei a saída para Pedra Branca e ela continuou na rodovia. Minha esposa chorava ainda pelo susto e pelo cachorro. Vi um homem capinando na beira da estrada; parei o carro e perguntei se ele me emprestava a enxada. Tirei o saco do carro e comecei a cavar um buraco junto do acostamento.

— Como será que ele se chamava? — perguntou minha esposa.

— Tóbi. Se chamava Tóbi.

Fiz uma cova rasa, o suficiente para enterrar Tóbi. E lá ficou ele, em companhia das cruzes que ornam as beiras de estrada.


Publicado na Tribuna Araraquara de 15/9/2016.

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