O general Viegas

Já escrevi sobre um atendente de telemarketing que botou um ovo e sobre um abacate possuído, mas a primeira ficção a gente jamais esquece.

Já lhes advirto que não se trata de história gloriosa. Longe disso. Eu estava na 5ª série do 1º grau — sabe lá Deus ao que equivale hoje — e tinha 11 anos. A professora de geografia pedira à turma um trabalho sobre os países do continente americano; alguns dados e um pequeno histórico. Era hora de cair sobre os livros e sobre a enciclopédia. Ainda não havia internet como temos hoje: a pesquisa dependia totalmente dos livros, mas um amigo que tinha computador me permitiu usar um programinha chamado PC Globe, uma espécie de atlas eletrônico, hoje rudimentar, que trazia mapas, hinos e dados dos países. Com o software levantei as informações de que precisava sobre os mais obscuros países do continente, incluindo o nome de seus dirigentes àquela altura, além de um resuminho de cinco ou seis linhas sobre algum fato histórico relevante.

Cuba, Brasil, Argentina e Chile tinham notas sobre suas ditaduras, mas o resto do trabalho parecia uma sopa insossa de dados. Diante do teclado da máquina de escrever — era o único luxo tipográfico que eu possuía —, tive uma ideia: criar alguma passagem sobre um país apagado, coisa que não falta nesta América. Escolhi uma ilhota das Pequenas Antilhas, não lembro mais qual, e criei-lhe um episódio sangrento, em que um ditador de talhe sul-americano tomava o poder, mas era rapidamente deposto. Dei-lhe um nome hispânico: Viegas, o general Viegas. Embora o país em questão não fosse de língua espanhola.

Escrevi um pequeno relato do golpe inexistente e a reação rápida da sociedade ilhoa, o triunfo da democracia: seis linhas batidas à máquina. Entreguei o trabalho e me esqueci dele por uns dias; dali um tempo, a professora mo devolveu: nota máxima. Dentro, tiques de conferência; no trecho fictício sobre a ditadura das Antilhas, um “muito bom” em vermelho.

Quando se tem 11 ou 12 anos, os escrúpulos estão em formação. O trabalho voltou para casa e ficou abandonado numa gaveta até uma dessas limpezas gerais que se fazem de lustro em lustro.

Dia desses, porém, me lembrei do episódio. Fora minha primeira ficção deliberada fora das redações escolares. Ainda penso se o “muito bom” da professora de geografia foi por conta de mera distração, desconhecimento ou o equivalente a uma piscadela. Agora vejo seu rosto enquanto me devolve o trabalho: um sorrisinho irônico, um risolino, a cumplicidade, como dizendo: “eu sei o que você fez, mas está convincente; parabéns”.

Depois de mais de 20 anos, sinto aquela vergonha, aquela farpa na alma. Fica aqui o mea culpa.


Publicado na Tribuna Araraquara de 8/9/2016.

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