Monthly Archives: Setembro 2016

Argumentum ad Hitlerum

Nossa vida é feita de concessões e cessões, e hoje cedo ao lugar-comum. Quando, para reprovar ou exaltar algo, recorre-se à comparação ao nazismo, a falácia é chamada reductio ou argumentum ad Hitlerum. De nada; quando for oportuno, você, leitor, pode me pagar um café.

E como funciona a tal reductio ad Hitlerum? Fácil. Se algo teve o apoio de Hitler e/ou dos nazistas, é ruim; se foi rejeitado e/ou combatido, é bom. A ideia não é minha, mas do filósofo alemão Leo Strauss, em 1950.

Recorro a uma reductio ad Hitlerum, ou ad nazium, para falar de algo muito em voga nos meios políticos, a certeza da impunidade. Vejam que não é apenas certeza ou impunidade, mas a certeza da impunidade, que é a esperança que alguém, com culpa no cartório notória e consciente, nutre de fugir da vara da justiça. Adolf Eichmann, por exemplo. Eichmann era o gerentão, por assim dizer, da chamada Solução Final, ou seja, era o responsável pela execução da política de extermínio do povo judeu e outras etnias consideradas indesejáveis pelo regime nazista; ele conseguiu fugir da Europa ao fim da guerra e estabeleceu-se na Argentina, onde viveu confortavelmente sob nome falso até ser detido e levado a Israel pelo Mossad, numa operação digna de filme do James Bond. Lá, foi julgado e enforcado, o que é belo e instrutivo.

Quinze anos viveu Eichmann na Argentina, onde se fez chamar Ricardo Klement. Mas a justiça o alcançou; como alcançou também Klaus Barbie e Erich Priebke, “funcionários” frios de um regime fascista e assassino, nacional-socialista. Há, claro, exemplo de quem morreu como gente comum, sem maiores problemas, como Josef Mengele, que definhou com os pulmões cheios de água do Atlântico, em Bertioga, litoral do nosso amado Estado.

Assim como nazistas, há muitos cretinos por aí, sectários de ideologias oportunistas — ou seria o caso de oportunismo ideológico? — que tratam a locupletação pessoal e a tomada do Estado como parte do jogo; gente que conta com o esquecimento, com a impunidade e com populismo barato de marca getulista, ainda mais na República da Banânia, onde a constituição é papel molhado. As fugas não apagam as culpas, nem as mitigam. Eichmann, Barbie et caterva tiveram apoio de colegas, organizados em uma associação de ex-combatentes, foram bem acolhidos em seus refúgios, mas, mesmo assim, a justiça chegou a eles, mesmo que algo atrasada.

Os fujões que se cuidem, pois as varas da justiça andam cada vez mais ágeis. E que o leitor aceite as minhas desculpas pelo uso de falácia retórica.


Publicado na Tribuna Araraquara de 29/9/2016.

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Rede social

Ninguém quer saber da vida comum. Reclame do horário dos ônibus para a prefeitura; reclame das filas de banco para o Banco Central. Pare de fazer textão chato, daqueles em que seus colegas de Facebook dão like por piedade. Se for para isto aqui virar um puxadinho do elevador, estamos fritos. Leia Antonio Machado, tente tirar algum colorido da sua vida cinza. Quem sabe assim ela não começa a valer a pena.

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Macunaíma já!

Senhores vereadores.

Pensei em protocolar um documento com este tema na Câmara, com cópia para cada uma de Vossas Excelências, mas preferi fazer uso deste espaço. Assim, além de comunicar-lhes a minha ideia, torno-a pública a toda a cidade e também aos candidatos a vereador que venham a ser eleitos. A época não poderia ser mais propícia.

Sabemos que o grande Mário de Andrade escreveu em nossa terra seu opus magnum, o romance “Macunaíma”, pedra angular do Modernismo brasileiro. É absolutamente inaceitável que não tenhamos nada além da Chácara Sapucaia que recorde o fato, um totem, nem um miserável marco de concreto em alguma de nossas praças engolidas pelo matagal.

É hora de sanar tal injustiça! A personagem-título é a síntese da alma brasileira, da nossa política, das nossas relações diárias; é o arquétipo da nossa nacionalidade. Araraquara deve-lhe uma homenagem justa, imensa e sólida.

Minha proposta é uma estátua. Como Grande Otelo deu vida à personagem interpretando-a no filme homônimo de 1969, é justo que nosso Macunaíma tenha as feições do finado ator. Ou ainda a estátua pode ser a representação de seu sublime nascimento, incluindo no conjunto escultórico sua pulcra e proba mãe, interpretada no filme por Paulo José. Mas não pode ser uma simples estátua de cinco metros. Não. Tem de ser algo à altura da personagem e daquilo que Araraquara deu ao país. Uma estátua à beira da Washington Luís, de 40, 50 metros, ali, perto da cervejaria! Um colosso de concreto armado!

É justo e certo que Araraquara celebre aquilo que deu ao país, algo tão sublime e verdadeiro que, além das memoráveis páginas de Mário, tem de ser imortalizado em formas rijas e plúmbeas. O que é nosso vai, mas volta!

Além da estátua, por que não um concurso anual de acrósticos? Poetas do país todo virão cantar a glória de Macunaíma, o genius populi brasiliani, e, de quebra, celebrar a cidade que o viu nascer. Imaginem, imaginem comigo: “Araraquara, a morada de Macunaíma”!

Senhores vereadores, senhores futuros vereadores, ouçam o clamor! Uma estátua de Macunaíma visível em São Carlos para rivalizar com aquela imitação bufa da Estátua da Liberdade que lá há, diante de uma loja. O que é uma Liberdade franco-americana perto de Macunaíma?

É hora de fazermos um crowfunding, uma vaquinha; um vacão! Vamos erguer a maior estátua que este país já viu. Vamos celebrar o mais profundo da nossa alma e da nossa cultura. Comerciantes, industriais, revendedores de automóveis, fazedores de meias, vamos todos contribuir com a iniciativa. Temos de inscrever o nome de Araraquara nos pátrios anais. Araraquara é a terra de Macunaíma e de vários outros nomes dignos de serem macunaímas.


Publicado na Tribuna Araraquara  de 22/9/1981.

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Tóbi

Isso de ser recente de volante com 35 anos me faz suar muito. Pegar o carro para ir ao centro é uma epopeia.

O carro é uma máquina fantástica, mas de difícil operação. Você dirá que é tarefa comezinha, que basta ligar e sair. Ainda brigo muito com a alavanca de câmbio, com a seta; volta e meia ligo o limpador de para-brisa quando queria, na verdade, acender os faróis. Basta que eu me sente ao volante para sentir a garganta seca, as mãos úmidas; o carro não responde aos meus comandos e morre. Ou seja, estou sofrendo aos 35 o que deveria ter passado aos 18. Não sei se tenho saúde suficiente.

Faz uns dias que ia com minha esposa deixar meu menino na escolinha. Um caminho cheio de cruzamentos em que é preciso parar o carro, voltar à primeira marcha e começar tudo de novo. Num meio de quadra, minha esposa freia bruscamente por conta de uns pardais que, sem medo, saltitavam pelos paralelepípedos.

— Cuidado. Se brecar assim com outro carro atrás, é batida na certa.

Por sorte, ninguém nos seguia. Temos de brecar para os animais desde que isso não ponha em risco os ocupantes do carro.

Algum tempo depois, voltávamos de Boa Esperança, aqui colado. Vínhamos tranquilos. Era a terceira vez que eu pegava a estrada. A certa altura, quando éramos escoltados de perto por um bitrem de cana, me sai do meio do mato um cachorro, desses vadios que vivem em chácaras. Tentei reduzir, mas o choque foi inevitável: pegamos o cão.

Parei no acostamento; o bitrem passou silvando. O cachorro estava no meio da pista, morto. Logo, outro carro para no acostamento; dele salta uma mulher descabelada, berrando que eu tinha matado o cachorro. Sim, eu matara o cão, mas tinha esposa e filho no carro. Tive de optar.

A mulher berrava e eu olhava o cão. Não podia deixá-lo onde estava. Saquei do porta-malas um saco e recolhi o cachorro. A mulher berrava a um metro de mim, chamando-me de todos os nomes possíveis. O porta-malas estava abarrotado de malas, o cachorro não cabia lá. Não tive dúvidas, depositei o saco no banco traseiro, do lado do meu filho, e continuei o caminho.

A mulher ainda me seguiu um tempo, piscando os faróis e fazendo sinal com as mãos. Peguei a saída para Pedra Branca e ela continuou na rodovia. Minha esposa chorava ainda pelo susto e pelo cachorro. Vi um homem capinando na beira da estrada; parei o carro e perguntei se ele me emprestava a enxada. Tirei o saco do carro e comecei a cavar um buraco junto do acostamento.

— Como será que ele se chamava? — perguntou minha esposa.

— Tóbi. Se chamava Tóbi.

Fiz uma cova rasa, o suficiente para enterrar Tóbi. E lá ficou ele, em companhia das cruzes que ornam as beiras de estrada.


Publicado na Tribuna Araraquara de 15/9/2016.

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O general Viegas

Já escrevi sobre um atendente de telemarketing que botou um ovo e sobre um abacate possuído, mas a primeira ficção a gente jamais esquece.

Já lhes advirto que não se trata de história gloriosa. Longe disso. Eu estava na 5ª série do 1º grau — sabe lá Deus ao que equivale hoje — e tinha 11 anos. A professora de geografia pedira à turma um trabalho sobre os países do continente americano; alguns dados e um pequeno histórico. Era hora de cair sobre os livros e sobre a enciclopédia. Ainda não havia internet como temos hoje: a pesquisa dependia totalmente dos livros, mas um amigo que tinha computador me permitiu usar um programinha chamado PC Globe, uma espécie de atlas eletrônico, hoje rudimentar, que trazia mapas, hinos e dados dos países. Com o software levantei as informações de que precisava sobre os mais obscuros países do continente, incluindo o nome de seus dirigentes àquela altura, além de um resuminho de cinco ou seis linhas sobre algum fato histórico relevante.

Cuba, Brasil, Argentina e Chile tinham notas sobre suas ditaduras, mas o resto do trabalho parecia uma sopa insossa de dados. Diante do teclado da máquina de escrever — era o único luxo tipográfico que eu possuía —, tive uma ideia: criar alguma passagem sobre um país apagado, coisa que não falta nesta América. Escolhi uma ilhota das Pequenas Antilhas, não lembro mais qual, e criei-lhe um episódio sangrento, em que um ditador de talhe sul-americano tomava o poder, mas era rapidamente deposto. Dei-lhe um nome hispânico: Viegas, o general Viegas. Embora o país em questão não fosse de língua espanhola.

Escrevi um pequeno relato do golpe inexistente e a reação rápida da sociedade ilhoa, o triunfo da democracia: seis linhas batidas à máquina. Entreguei o trabalho e me esqueci dele por uns dias; dali um tempo, a professora mo devolveu: nota máxima. Dentro, tiques de conferência; no trecho fictício sobre a ditadura das Antilhas, um “muito bom” em vermelho.

Quando se tem 11 ou 12 anos, os escrúpulos estão em formação. O trabalho voltou para casa e ficou abandonado numa gaveta até uma dessas limpezas gerais que se fazem de lustro em lustro.

Dia desses, porém, me lembrei do episódio. Fora minha primeira ficção deliberada fora das redações escolares. Ainda penso se o “muito bom” da professora de geografia foi por conta de mera distração, desconhecimento ou o equivalente a uma piscadela. Agora vejo seu rosto enquanto me devolve o trabalho: um sorrisinho irônico, um risolino, a cumplicidade, como dizendo: “eu sei o que você fez, mas está convincente; parabéns”.

Depois de mais de 20 anos, sinto aquela vergonha, aquela farpa na alma. Fica aqui o mea culpa.


Publicado na Tribuna Araraquara de 8/9/2016.

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Sete de Setembro

Sete de setembro. Eis um feriado que nunca me disse nada. Antes de atirarem pedras, perguntem-se se ele significa lhes algo.

No meu tempo de escola, lembro-me de ter cantado o hino nacional pontualmente uma ou duas vezes. A última delas foi uma homenagem a Ayrton Senna, no dia 2 de maio de 1994. Lembro-me bem porque Senna morreu no domingo, 1º de maio. Depois disso, não me lembro de ter cantado o hino em público.

É sintomático. A minha geração entrou na escola na primeira década da Nova República, época em que os símbolos pátrios “saíram de moda” por conta do uso insistente que o regime militar havia feito deles. A democracia e o freirianismo pernicioso os expulsaram da escola. Por isso temos uma geração com um conceito totalmente deturpado de pátria e de Estado, que espera tudo do Estado, mas não tem identidade com nada. Não apenas não tem identidade, é uma geração que tem ojeriza a qualquer coisa lhe lembre obrigação, por mais abstrata que seja.

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‘Vivere, non riesco a vivere’

Escrevo porque gosto, é uma terapia para mim. Mas longe de mim de dizer que “escrevo para mim”. Mentira. E quem diz isso é igualmente mentiroso.

Os que dizem escrever para si mesmos fazem mise-en-scène de serem avessos a holofotes. Ao contrário: querem que o mundo lhes preste atenção por serem misantropos. A misantropia fingida rende muitos dividendos literários neste mundo de simulacros.

Pode ser que o autor não tenha direcionado o texto, mas que há um destinatário, certamente há.

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