Animais políticos

As longas sessões do Senado nos dão o que pensar. Se você teve paciência de acompanhá-las, todas ou parte delas, viu o estofo de que são feitos nossos senadores. Eu já escrevi em outra ocasião — talvez não aqui, mas em alguma das minhas colaborações como articulista — que os políticos eleitos são reflexo do povo, por isso não vou me estender sobre assunto já pisado e repisado.

O que me deixa mais perplexo é o baixo nível dos senadores. Não me refiro a palavrões, mas aos discursos rotos e desgastados, à falta de postura, à elevação de tom. À vista do Senado do Brasil, quase se dá razão a Mussolini, que, em famoso discurso ao parlamento italiano, disse que, se fosse sua vontade, teria transformado aquele plenário em um bivacco di manipoli, mais ou menos um “acampamento de milicianos”.

Mas deixando de lado os ditadores, gostaria de lembrar o mais digno representante que a classe senatorial já teve, se pudéssemos considerar todos os senados do mundo e em todos os tempos: trata-se de Incitatus, senador romano.

Incitatus não foi eleito, mas indicado pelo imperador romano Calígula — cujo nome nos vem apenas pelo do pornô cult homônimo de 1979. O senador gozava de todos os luxos possíveis, alguns dos quais restritos apenas ao autocrata, como o uso de púrpura. Calígula ainda deu-lhe por esposa Penélope, formosa dama patrícia, além de 18 criados pessoais. Em seus manjares eram postas lascas finíssimas de ouro, como há em certos sorvetes tomados por filhas de ex-ministros de esquerda. Tudo era feito para Incitatus, que comia do bom e do melhor e era fiel aliado do imperador.

Porém, a cereja do bolo é que Incitatus não era uma pessoa, mas um cavalo. Um belo cavalo de corrida, verdade seja dita, mas ainda assim um cavalo. Di-lo Suetônio, e não eu; o lapso temporal me impede de ser testemunha ocular da equina beleza. Embora a nomeação de Incitatus seja atribuída à demência imperial, Calígula o fez para manifestar seu desprezo pelo Senado romano, instituição patrícia. E nós também já fomos Calígula. Em 1959, os paulistanos elegeram vereador Cacareco, o rinoceronte do Zoológico da Capital, com mais de 100 mil votos. O Rio fez o mesmo com o Macaco Tião, no final dos anos 80. Hoje, os políticos nos tiraram a vingança suprema, que era poder votar nos animais de nossa preferência apenas com a introdução de um quadradinho de uma linha sobressalentes. Aliás, os políticos nos tiram o gosto de tudo, como os médicos.

Aristóteles disse que o homem é um animal político. Logo, políticos animais não são má ideia; nossos políticos atribuem-se honras quais as de Incitatus, mas não valem um pangaré esquálido.

E não percam tempo ofendendo o autor; este texto foi escrito por um cavalo.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 1º/9/2016.

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