Balas e votos

Muitos fazem escarcéu com a questão da liberação das armas. Atribuem a um objeto inanimado poderes mágicos: “arma mata”. Trata-se de um fetiche pós-moderno. Dizer que “arma mata” é a mesma coisa que atribuir poderes sobrenaturais a talismãs ou cultuar pedras. A arma em si não mata; quem mata é quem a tem nas mãos.

“Temos de banir as armas porque as pessoas usam-nas para matar.” Agora o argumento começa a ficar convincente. Mas é igualmente falho. Durante minha passagem pela Tribuna como revisor, lembro-me de um ano em que metade ou quase metade dos assassinatos em Araraquara havia sido consumada com armas brancas, o que não incluía apenas facas, mas também canos de ferro, tijolos e pedaços de pau. Quando o ódio domina alguém a ponto de este alguém querer matar, qualquer coisa vira arma. Proibir arma de fogo por mero fetichismo politicamente correto foi erro. E continua sendo. Não me citem as pesquisas que já conheço; vocês as citam porque lhes é conveniente. Eu lhes dou agora uma estatística e um fato: no Paraguai, o porte é livre e o país tem o menor índice de assassinatos da América Latina; e, na Suíça, há uma arma de fogo para cada dois habitantes. Se apenas a questão da proibição ou não das armas contasse, a Suíça seria o lugar mais perigoso do mundo, de fazer um morro carioca parecer a terra dos ursinhos carinhosos.

Se você continua achando que a resolução do problema da violência resume-se à proibição das armas de fogo, dou-lhe um paralelo curioso: a democracia. A democracia é uma maravilha, não é? Votamos em quem achamos que temos de votar e, com isso, conferimos aos nossos eleitos o poder de conduzir o Estado, o que é belo e instrutivo. Mas existe um problema: o exercício da democracia, que se consuma pelo voto, é tão ou até mais perigoso que a arma de fogo. Com uma arma pode-se fazer muito estrago: seis balas, seis mortos em potencial. Com o voto mal pensado pode-se danar um país, um estado, uma cidade. Milhares, milhões de pessoas. E pensar que o voto é obrigatório; como se cada cidadão fosse obrigado a carregar consigo uma arma de fogo.

Sabemos que há gente irresponsável. Arma ou voto na mão dela é desastre certo. Se o uso de arma não é obrigatório, por que o voto o é? Por que não podemos deixar as pessoas que não querem votar em casa? Há gente que não faz ideia por que está lá votando. Digo isso com autoridade, pois fui mesário em quatro eleições e um referendo. Há gente que vai votar sem ter ideia do que está fazendo e acaba dando força aos espertalhões da vez. É presa fácil.

O exercício do voto tem de ser como o porte de arma: uma opção, não uma obrigação. Ou é democracia goela abaixo.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 25/8/2016.

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