O que os muros dizem

Antes de qualquer coisa, que fique claro o penso sobre “manifestações” murárias: é vandalismo e atentado à propriedade privada. As pessoas pintam os muros externos de suas não com o intuito de deixar ali uma página em branco para garatujas aleatórias, mas para que permaneçam limpos e conservados.

Isto posto, comecemos. Os muros de Araraquara contam a narrativa anônima de mãos vis, que se valem da penumbra noturna para espalhar ideias minoritárias, quando não duvidosas. Numa das esquinas da rua 7, ocupada por um açougue, a letra torta feita com tinta aerossol preta informa que “carne é assassinato”. A pessoa que sai de casa para escrever isso no muro de um açougue não pode ser maior de idade; se o for é caso grave não apenas de infração, mas de infantilidade. Garanto que o fulano que foi lá escrever tamanha besteira se acha o revolucionário; é o cara que almoça sozinho, pois costuma dizer às companhias que “não compactua com o massacre animal” ou que não suporta “ter animais mortos no seu prato”, ignorando o papel da carne na evolução humana. Para se ter ideia da importância da proteína animal na nossa dieta, recomendo a leitura de “Uma breve história da linguagem”, de Steven Roger Fischer.

Não longe ali, acho que entre as ruas 10 e 11, na área da Sete de Setembro, outro garrancho diz “facsistas não passarão”. Sim, facsistas. A primeira premissa de quem quer passar uma mensagem escrita é o mínimo conhecimento do código. Possivelmente o medo de ser apanhado no ato fez com que nosso pichador trocasse as letras, o que deu à coisa um efeito cômico. O que seria um facsista? Alguém que em plena era do WhatsApp não consegue largar o fax? Pode ser que o pichador passe por ali de dia e sinta vergonha. Ou não, já que, pela temática, o anônimo pode ser muito bem imune a senso crítico.

O que dizer das letras garrafais de “eleições gerais já”? Puro desconhecimento do sistema legal, falta de noção ou torcida pelo caos? Ou as três coisas juntas.

Sei que sai da área do nosso condado, mas, em São Carlos, durante anos, no muro do cemitério ficou a inscrição “não suste”, em tinta azul. Quem passava em direção do Terminal Rodoviário podia vê-la. Ainda não sei se era uma corruptela de “não se assuste”, para alertar o transeunte sobre o trânsito eventual de almas penadas durante as ore piccole, ou se simplesmente o pichador era um bancário rebelde protestando contra cheques fraudulentos.

E os dizeres emaconhados que ornam o muro do cemitério na rua 12? Longas frases de filosofia barata dão bom-dia a quem tem a porta da frente voltada para o longo paredão. Lembrando os vários casos de furto de ornamentos de bronze, parece que os cemitérios perderam o status de campo santo. Se as mãos silentes não respeitam nem os mortos, que dirá os muros.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 18/8/2016.

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