Tempus est jocundus

Tempus est jocundus, já dizia lá aquele poema do Codex Buranus imortalizado nos “Carmina Burana”, de Carl Orff. Mas o tempo pode ou não ser agradável, depende muito.

Durante um tempo, na minha infância, tive um sonho recorrente. Devo tê-lo sonhado umas dez ou doze vezes. Aparecia sobre a minha cabeça um mostrador de relógio imenso, como o do Big Ben, com algarismos romanos. Mas em vez de ponteiros havia facões gigantes que, girando, cortavam mãos e braços que tentavam sair de buracos no mostrador do relógio. Já recorri mesmo a “especialistas” em interpretar sonhos e nenhum deles me deu resposta satisfatória.

Fazia um belo par de anos que não me lembrava do sonho, mas esse é o tipo de imagem que, uma vez vista — ou sonhada —, é impossível esquecer; está lá no arquivo. Qualquer fato da realidade pode abrir a gaveta e sacar a foto. E foi justamente o que aconteceu numa manhã desta semana.

Fazia eu o caminho de casa para o escritório, aproveitando o sol da manhã, quando, diante de uma casa — não direi o endereço para não atrair gente; nem quero ser processado por perturbar o sossego alheio —, algo no jardim me chamou a atenção. As pessoas têm péssimo gosto para decorar seus jardins: duendes e sapos de concreto e pintados em cores berrantes, alegorias monstruosas que ofendem as plantas; quando não deixam aqueles jardins que só são jardins por ser em retângulo de terra, perecendo mais uma miniatura do Kalahari ou de alguma outra área desértica.

Esse jardim que vi, não. Estupendo. Bem cuidado. Úmido ainda da regada feita por uma mão cuidadosa. Pedras, seixos, belas plantas, flores, cactos. Um jardim de verdade e não um minicampo de futebol com grama pedestre. Coroando o conjunto, um relógio solar, como um totem de pedra, com as horas gravadas em semicírculo e uma vareta metálica trabalhada para fazer a sombra. Eram 8h37, segundo o meu celular. No relógio solar, a sombra da vareta estava ligeiramente deslocada da metade do espaço entre o oito e o nove. É nessas coisas antigas, que nos lembram dos primeiros tempos da civilização, que vemos a inventividade do homem, que começou a contar o tempo pelo passo do sol no céu.

Fiquei parado alguns instantes refletindo sobre tudo isso, a inventividade humana e a beleza da natureza organizada num jardim; aí me veio a maldita imagem do relógio dos ponteiros de faca. Foi um tempo agradável, até a exumação da alegoria monstruosa, evocada pelo mostrador de números romanos do relógio de sol, vir me assombrar mais uma vez.

Fechei a cara e saí mal-humorado, como acordado por um chute. Se o dono da casa me viu por entre as frestas da persiana, certamente, pela reação gestual que pôde observar, tomou-me por doido varrido.

Mas o relógio era lindo. Ah, como era. Tempus est jocundus, amici!

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 11/8/2016.

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