Ninguém foge de sua natureza

Ninguém foge de sua natureza. Ou de seu destino; ou do desígnio divino. O importante não é o nome que se lhe atribui, mas o que isso é exatamente. Quando li Bukowski pela primeira vez, fiquei extasiado. Que candidato moderno a literato gerado pela faculdade de letras não sonha em ser Bukowski? Mesmo com os dentes caídos na calçada, Bukowski é Bukowski. Gosto de beber, mas gosto de sossego; não sossego financeiro, coisa que nunca tive, mas o silêncio, a garantia de uma noite bem dormida, a possibilidade de fugir do mundo, nem que seja ficando no escuro da caixa vazia da máquina de lavar. A capacidade de abstrair-se, coisa que as pessoas perderam. As pessoas querem saber do jogo do Coringão, de praguejar contra a política, de caçar pokémons. Eu flerto com o nada. Mas com o nada real, não o nada falso criado por estados de consciência alterados. Talvez sejam excessivamente “burguesas” as minhas volições. Quem escreve não precisa estar atrelado a uma causa ou fazer da falta de causa bandeira, como os ateístas militantes, que cultuam o antideus. Há várias maneiras de escrever como há várias maneiras de pentear o cabelo. Não precisa ter a petulância fedorenta dos meios acadêmicos e nem o cheiro da sarjeta. É possível o meio-termo (não se trata de estar em cima do muro). É possível escrever de maneira estoica; é um dos caminhos. Minha natureza não é Bukowski; qualquer coisa que eu fizer nessa direção vai ficar artificial como um duende de jardim pintado de cores berrantes. Dizem que a normalidade não existe e que a loucura mora ao lado, ou mesmo dentro da nossa casa. Não duvido, mas tenho comigo que ela ainda não é regra, mas um ímpeto de fúria, um fogo-fátuo, belo e efêmero. Uma vez, um amigo a quem entreguei uma pasta cheio de escritos disse que na minha literatura (que honra, não?) não acontecia nada, mas disse também que talvez esse nada, essa inércia, fosse o centro de tudo. Há anos esse amigo sumiu do radar e, com ele, essa pasta de escritos. Foram parar em algum ponto do nada. O nada é o meu elemento natural; ou antielemento.

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