Sobre gostos

Diz o famoso anexim que gosto não se discute, cada um tem o seu. E, com toda razão, deveríamos deixar os gostos fora de certos julgamentos que fazemos. O fato de eu não gostar de determinado sucesso ou coisa não é válido como justificativa; é preciso ver se tal fato é benéfico ou não em função daquilo a que se propõe.

Mas áreas há em que o gosto é válido, como na alimentação. Recuso-me a usar o termo gastronomia, essa afetação pedantesca de chefs e enólogos, gente que nos faz pegar birra de comida. Vamos falar de gostos aplicados à comida, mas de u’a maneira particular: as sensações, digamos, estranhas que as pessoas têm a certos alimentos.

Comecemos pela abobrinha, inimiga dos infantes e alegria das vovós; o gosto da cucurbitácea muda de acordo com a idade de quem a come. Já viu criança comer abobrinha? Ainda está para nascer; em compensação, a terceira, a quarta e a quinta idade não vivem sem a bendita. Pode ver: enquanto a vovó prepara a ceia de Natal com todas as iguarias da época, refoga, quase escondida, um pouco de abobrinha para si e para os convidados mais velhos. A abobrinha, segundo fontes pouco confiáveis, tem gosto de angústia, de angústia num dia de calor. Angústia suada.

E o chuchu? O legume (?) de origem mesoamericana é considerado popularmente o quarto estado físico da água — friso o popularmente porque sei que há físicos que batem os olhos por aqui, e eles conhecem seis ou sete estados da matéria. Um vizinho nosso, especialista em nadas, disse que o chuchu sabe a lágrimas de criancinha chinesa.

As cebolas são ponto polêmico. Não há meio-termo: são amadas ou odiadas. Um grande amigo, cepulifóbico — belo termo, não? —, qualifica a “prima” do alho com palavras e expressões impublicáveis neste distinto e cada vez menor espaço.

Imagino que o leitor tenha chegado até este ponto e se perguntado por que se gasta papel e tinta para imprimir tanta besteira, afinal, abobrinha é maravilhosa, chuchu é néctar dos deuses e as cebolas são a obra prima da criação divina. Pois é, meu amigo, questão de gosto. E temos de nos cuidar para não tratar questões republicanas como chuchu. Nem sempre o que eu gosto é o melhor para decisões coletivas; é preciso pôr decisões acima de gostos. Não se tomam decisões com a língua ou com a pele, mas com a razão. E enquanto a vida pública limitar-se à imitação ruim de um banquete de degustação de abobrinha, enquanto insistirmos em fazer política com as papilas ou com as mucosas, a situação ficará como está: seremos enólogos da vida pública, e não atores.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 4/8/2016.

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