As ítalo-paulistas

As italianas têm um jeitão melancólico. Não as da Itália, mas as que transitam por São Paulo, as ítalo-paulistas, um tipo relativamente comum. Elas dificilmente se chamam dessa maneira; às vezes têm um sobrenome italiano, às vezes esse se perdeu pelos casamentos interétnicos de seus ancestrais. Dificilmente conhecem uma palavra do italiano ou do dialeto dos antenati, a não ser as que são de uso corrente no português, o português de todo mundo.

Mas é fácil reconhecê-las pelo olhar murcho, escondido por uma capa suburbana, comum. Têm vários disfarces: atendente de telemarketing, recepcionista, bancária. As mais intelectualizadas estão sempre às voltas com um tema de mestrado que nunca se concretizará. Tomam cerveja ruim com displicência nos botecos sujos da Augusta ou da via principal das tépidas cidades interioranas. Se magra, a melancolia é ainda mais patente no rosto comprido e seco; as mais carnudas conseguem disfarçar melhor a tristeza atávica que lhes orna a alma. A tristeza de quem veio ao Novo Mundo atrás de fortuna e ganhou uma vida apenas um pouco melhor. Jamais se achará essa tristeza em uma M***, em uma L***, ou em alguma família que tenha ascendido. Essas têm a alegria eterna do novo rico, mesmo quando já decaídas.

Ao entardecer, a ítalo-paulista pega o ônibus, o trem ou o metrô e volta para os bairros longínquos que seus antepassados, deixando a lavoura de café, colonizaram.

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