Monthly Archives: Agosto 2016

Animais políticos

As longas sessões do Senado nos dão o que pensar. Se você teve paciência de acompanhá-las, todas ou parte delas, viu o estofo de que são feitos nossos senadores. Eu já escrevi em outra ocasião — talvez não aqui, mas em alguma das minhas colaborações como articulista — que os políticos eleitos são reflexo do povo, por isso não vou me estender sobre assunto já pisado e repisado.

O que me deixa mais perplexo é o baixo nível dos senadores. Não me refiro a palavrões, mas aos discursos rotos e desgastados, à falta de postura, à elevação de tom. À vista do Senado do Brasil, quase se dá razão a Mussolini, que, em famoso discurso ao parlamento italiano, disse que, se fosse sua vontade, teria transformado aquele plenário em um bivacco di manipoli, mais ou menos um “acampamento de milicianos”.

Mas deixando de lado os ditadores, gostaria de lembrar o mais digno representante que a classe senatorial já teve, se pudéssemos considerar todos os senados do mundo e em todos os tempos: trata-se de Incitatus, senador romano.

Incitatus não foi eleito, mas indicado pelo imperador romano Calígula — cujo nome nos vem apenas pelo do pornô cult homônimo de 1979. O senador gozava de todos os luxos possíveis, alguns dos quais restritos apenas ao autocrata, como o uso de púrpura. Calígula ainda deu-lhe por esposa Penélope, formosa dama patrícia, além de 18 criados pessoais. Em seus manjares eram postas lascas finíssimas de ouro, como há em certos sorvetes tomados por filhas de ex-ministros de esquerda. Tudo era feito para Incitatus, que comia do bom e do melhor e era fiel aliado do imperador.

Porém, a cereja do bolo é que Incitatus não era uma pessoa, mas um cavalo. Um belo cavalo de corrida, verdade seja dita, mas ainda assim um cavalo. Di-lo Suetônio, e não eu; o lapso temporal me impede de ser testemunha ocular da equina beleza. Embora a nomeação de Incitatus seja atribuída à demência imperial, Calígula o fez para manifestar seu desprezo pelo Senado romano, instituição patrícia. E nós também já fomos Calígula. Em 1959, os paulistanos elegeram vereador Cacareco, o rinoceronte do Zoológico da Capital, com mais de 100 mil votos. O Rio fez o mesmo com o Macaco Tião, no final dos anos 80. Hoje, os políticos nos tiraram a vingança suprema, que era poder votar nos animais de nossa preferência apenas com a introdução de um quadradinho de uma linha sobressalentes. Aliás, os políticos nos tiram o gosto de tudo, como os médicos.

Aristóteles disse que o homem é um animal político. Logo, políticos animais não são má ideia; nossos políticos atribuem-se honras quais as de Incitatus, mas não valem um pangaré esquálido.

E não percam tempo ofendendo o autor; este texto foi escrito por um cavalo.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 1º/9/2016.

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Balas e votos

Muitos fazem escarcéu com a questão da liberação das armas. Atribuem a um objeto inanimado poderes mágicos: “arma mata”. Trata-se de um fetiche pós-moderno. Dizer que “arma mata” é a mesma coisa que atribuir poderes sobrenaturais a talismãs ou cultuar pedras. A arma em si não mata; quem mata é quem a tem nas mãos.

“Temos de banir as armas porque as pessoas usam-nas para matar.” Agora o argumento começa a ficar convincente. Mas é igualmente falho. Durante minha passagem pela Tribuna como revisor, lembro-me de um ano em que metade ou quase metade dos assassinatos em Araraquara havia sido consumada com armas brancas, o que não incluía apenas facas, mas também canos de ferro, tijolos e pedaços de pau. Quando o ódio domina alguém a ponto de este alguém querer matar, qualquer coisa vira arma. Proibir arma de fogo por mero fetichismo politicamente correto foi erro. E continua sendo. Não me citem as pesquisas que já conheço; vocês as citam porque lhes é conveniente. Eu lhes dou agora uma estatística e um fato: no Paraguai, o porte é livre e o país tem o menor índice de assassinatos da América Latina; e, na Suíça, há uma arma de fogo para cada dois habitantes. Se apenas a questão da proibição ou não das armas contasse, a Suíça seria o lugar mais perigoso do mundo, de fazer um morro carioca parecer a terra dos ursinhos carinhosos.

Se você continua achando que a resolução do problema da violência resume-se à proibição das armas de fogo, dou-lhe um paralelo curioso: a democracia. A democracia é uma maravilha, não é? Votamos em quem achamos que temos de votar e, com isso, conferimos aos nossos eleitos o poder de conduzir o Estado, o que é belo e instrutivo. Mas existe um problema: o exercício da democracia, que se consuma pelo voto, é tão ou até mais perigoso que a arma de fogo. Com uma arma pode-se fazer muito estrago: seis balas, seis mortos em potencial. Com o voto mal pensado pode-se danar um país, um estado, uma cidade. Milhares, milhões de pessoas. E pensar que o voto é obrigatório; como se cada cidadão fosse obrigado a carregar consigo uma arma de fogo.

Sabemos que há gente irresponsável. Arma ou voto na mão dela é desastre certo. Se o uso de arma não é obrigatório, por que o voto o é? Por que não podemos deixar as pessoas que não querem votar em casa? Há gente que não faz ideia por que está lá votando. Digo isso com autoridade, pois fui mesário em quatro eleições e um referendo. Há gente que vai votar sem ter ideia do que está fazendo e acaba dando força aos espertalhões da vez. É presa fácil.

O exercício do voto tem de ser como o porte de arma: uma opção, não uma obrigação. Ou é democracia goela abaixo.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 25/8/2016.

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‘O tradutor cleptomaníaco’, de Dezsö Kosztolányi

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O que os muros dizem

Antes de qualquer coisa, que fique claro o penso sobre “manifestações” murárias: é vandalismo e atentado à propriedade privada. As pessoas pintam os muros externos de suas não com o intuito de deixar ali uma página em branco para garatujas aleatórias, mas para que permaneçam limpos e conservados.

Isto posto, comecemos. Os muros de Araraquara contam a narrativa anônima de mãos vis, que se valem da penumbra noturna para espalhar ideias minoritárias, quando não duvidosas. Numa das esquinas da rua 7, ocupada por um açougue, a letra torta feita com tinta aerossol preta informa que “carne é assassinato”. A pessoa que sai de casa para escrever isso no muro de um açougue não pode ser maior de idade; se o for é caso grave não apenas de infração, mas de infantilidade. Garanto que o fulano que foi lá escrever tamanha besteira se acha o revolucionário; é o cara que almoça sozinho, pois costuma dizer às companhias que “não compactua com o massacre animal” ou que não suporta “ter animais mortos no seu prato”, ignorando o papel da carne na evolução humana. Para se ter ideia da importância da proteína animal na nossa dieta, recomendo a leitura de “Uma breve história da linguagem”, de Steven Roger Fischer.

Não longe ali, acho que entre as ruas 10 e 11, na área da Sete de Setembro, outro garrancho diz “facsistas não passarão”. Sim, facsistas. A primeira premissa de quem quer passar uma mensagem escrita é o mínimo conhecimento do código. Possivelmente o medo de ser apanhado no ato fez com que nosso pichador trocasse as letras, o que deu à coisa um efeito cômico. O que seria um facsista? Alguém que em plena era do WhatsApp não consegue largar o fax? Pode ser que o pichador passe por ali de dia e sinta vergonha. Ou não, já que, pela temática, o anônimo pode ser muito bem imune a senso crítico.

O que dizer das letras garrafais de “eleições gerais já”? Puro desconhecimento do sistema legal, falta de noção ou torcida pelo caos? Ou as três coisas juntas.

Sei que sai da área do nosso condado, mas, em São Carlos, durante anos, no muro do cemitério ficou a inscrição “não suste”, em tinta azul. Quem passava em direção do Terminal Rodoviário podia vê-la. Ainda não sei se era uma corruptela de “não se assuste”, para alertar o transeunte sobre o trânsito eventual de almas penadas durante as ore piccole, ou se simplesmente o pichador era um bancário rebelde protestando contra cheques fraudulentos.

E os dizeres emaconhados que ornam o muro do cemitério na rua 12? Longas frases de filosofia barata dão bom-dia a quem tem a porta da frente voltada para o longo paredão. Lembrando os vários casos de furto de ornamentos de bronze, parece que os cemitérios perderam o status de campo santo. Se as mãos silentes não respeitam nem os mortos, que dirá os muros.

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Publicado na Tribuna Araraquara de 18/8/2016.

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Ninguém foge de sua natureza

Ninguém foge de sua natureza. Ou de seu destino; ou do desígnio divino. O importante não é o nome que se lhe atribui, mas o que isso é exatamente. Quando li Bukowski pela primeira vez, fiquei extasiado. Que candidato moderno a literato gerado pela faculdade de letras não sonha em ser Bukowski? Mesmo com os dentes caídos na calçada, Bukowski é Bukowski. Gosto de beber, mas gosto de sossego; não sossego financeiro, coisa que nunca tive, mas o silêncio, a garantia de uma noite bem dormida, a possibilidade de fugir do mundo, nem que seja ficando no escuro da caixa vazia da máquina de lavar. A capacidade de abstrair-se, coisa que as pessoas perderam. As pessoas querem saber do jogo do Coringão, de praguejar contra a política, de caçar pokémons. Eu flerto com o nada. Mas com o nada real, não o nada falso criado por estados de consciência alterados. Talvez sejam excessivamente “burguesas” as minhas volições. Quem escreve não precisa estar atrelado a uma causa ou fazer da falta de causa bandeira, como os ateístas militantes, que cultuam o antideus. Há várias maneiras de escrever como há várias maneiras de pentear o cabelo. Não precisa ter a petulância fedorenta dos meios acadêmicos e nem o cheiro da sarjeta. É possível o meio-termo (não se trata de estar em cima do muro). É possível escrever de maneira estoica; é um dos caminhos. Minha natureza não é Bukowski; qualquer coisa que eu fizer nessa direção vai ficar artificial como um duende de jardim pintado de cores berrantes. Dizem que a normalidade não existe e que a loucura mora ao lado, ou mesmo dentro da nossa casa. Não duvido, mas tenho comigo que ela ainda não é regra, mas um ímpeto de fúria, um fogo-fátuo, belo e efêmero. Uma vez, um amigo a quem entreguei uma pasta cheio de escritos disse que na minha literatura (que honra, não?) não acontecia nada, mas disse também que talvez esse nada, essa inércia, fosse o centro de tudo. Há anos esse amigo sumiu do radar e, com ele, essa pasta de escritos. Foram parar em algum ponto do nada. O nada é o meu elemento natural; ou antielemento.

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Tempus est jocundus

Tempus est jocundus, já dizia lá aquele poema do Codex Buranus imortalizado nos “Carmina Burana”, de Carl Orff. Mas o tempo pode ou não ser agradável, depende muito.

Durante um tempo, na minha infância, tive um sonho recorrente. Devo tê-lo sonhado umas dez ou doze vezes. Aparecia sobre a minha cabeça um mostrador de relógio imenso, como o do Big Ben, com algarismos romanos. Mas em vez de ponteiros havia facões gigantes que, girando, cortavam mãos e braços que tentavam sair de buracos no mostrador do relógio. Já recorri mesmo a “especialistas” em interpretar sonhos e nenhum deles me deu resposta satisfatória.

Fazia um belo par de anos que não me lembrava do sonho, mas esse é o tipo de imagem que, uma vez vista — ou sonhada —, é impossível esquecer; está lá no arquivo. Qualquer fato da realidade pode abrir a gaveta e sacar a foto. E foi justamente o que aconteceu numa manhã desta semana.

Fazia eu o caminho de casa para o escritório, aproveitando o sol da manhã, quando, diante de uma casa — não direi o endereço para não atrair gente; nem quero ser processado por perturbar o sossego alheio —, algo no jardim me chamou a atenção. As pessoas têm péssimo gosto para decorar seus jardins: duendes e sapos de concreto e pintados em cores berrantes, alegorias monstruosas que ofendem as plantas; quando não deixam aqueles jardins que só são jardins por ser em retângulo de terra, perecendo mais uma miniatura do Kalahari ou de alguma outra área desértica.

Esse jardim que vi, não. Estupendo. Bem cuidado. Úmido ainda da regada feita por uma mão cuidadosa. Pedras, seixos, belas plantas, flores, cactos. Um jardim de verdade e não um minicampo de futebol com grama pedestre. Coroando o conjunto, um relógio solar, como um totem de pedra, com as horas gravadas em semicírculo e uma vareta metálica trabalhada para fazer a sombra. Eram 8h37, segundo o meu celular. No relógio solar, a sombra da vareta estava ligeiramente deslocada da metade do espaço entre o oito e o nove. É nessas coisas antigas, que nos lembram dos primeiros tempos da civilização, que vemos a inventividade do homem, que começou a contar o tempo pelo passo do sol no céu.

Fiquei parado alguns instantes refletindo sobre tudo isso, a inventividade humana e a beleza da natureza organizada num jardim; aí me veio a maldita imagem do relógio dos ponteiros de faca. Foi um tempo agradável, até a exumação da alegoria monstruosa, evocada pelo mostrador de números romanos do relógio de sol, vir me assombrar mais uma vez.

Fechei a cara e saí mal-humorado, como acordado por um chute. Se o dono da casa me viu por entre as frestas da persiana, certamente, pela reação gestual que pôde observar, tomou-me por doido varrido.

Mas o relógio era lindo. Ah, como era. Tempus est jocundus, amici!

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 11/8/2016.

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Sebastião

Sebastião bateu na minha porta. Ainda não eram oito da manhã.

Abri-lhe.

— Entra, a casa é sua.

Sentamos à mesa do café. Só café.

— Você acha que é uma boa hora de aparecer?

— Não, Tião. Não é. Só vai causar mais celeuma ainda

— Mas o povo pede pela minha volta…

— A quanto tempo você parou de ler os jornais? Isso virou crendice, coisa de maluco. Até tinha uma turma no Nordeste que achava que você estava dentro de uma pedra e matou crianças em cima dela, achando que você fosse sair de lá. Além do mais, você deixou Portugal na mão do seu tio decrépito e o que aconteceu? Aquele seu primo, o Felipe, tomou tudo. Foi só o João de Bragança, muito tempo depois, que resolveu a situação. E mal e mal ainda…

— Então eu não devo aparecer…?

— É claro que não. Depois disso tudo? Ainda vão pô-lo na cadeia. Não procuram você mais para lhe dar o trono, mas para tirar a cabeça que os mouros não tiraram… aliás, você nunca explicou direito essa história de ir meter-se na África. Que tinha na cabeça?! Largou tudo por uma franja de terra seca e infestada de berberes. Só mesmo a Espanha ainda para ficar com Ceuta e Melilla, aqueles dois aquários na borda do deserto.

— É que a cristandade…

— Que cristandade, Sebastião? Que cristandade?! Essa que está de calças arreadas para o Islã esperando a verga de Maomé, o comedor de criancinhas? Acorda, Tião. O Ocidente está mais morto que a sua reputação.

Sebastião tomou um gole de café.

— Sinto-me um lixo…

— Sem autopiedade, Tião. Não tinha consciência do que estava fazendo? Sabe qual era o problema? Você era um molecote miolo-mole. Faria de novo a loucura de encabeçar um exército para conquistar um depósito de areia? Se ainda tivesse a desculpa do petróleo, vá lá, mas, àquela época, nem isso!

— É verdade.

— Muito bem, Tião. Vamos, tenho de ir para o trabalho. Depois a gente conversa mais. Aliás, como está o curso de computação?

— Está bem. Começamos o Excel ontem…

— Perfeito. Vamos nos falando.

Abracei Sebastião, e ele foi embora. A aula de informática começaria dali meia hora.

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