Prípyat e Bento Rodrigues

Talvez o primeiro nome seja desconhecido ao leitor. É como se chama uma aldeiazinha ucraniana, a cerca de 90 quilômetros de Kyiv, capital da problemática Ucrânia, rachada por uma guerra civil. Prípyat não, mas Tchernobyl o leitor certamente conhece.

Há pouco mais de 30 anos, na madrugada de 26 de abril de 1986, o quarto reator da Usina de Tchernobyl, localizada na então República Socialista Soviética da Ucrânia, parte da União Soviética, colapsou, emitindo vapor radioativo e causando um derretimento nuclear. Foi um dos maiores acidentes nucleares de todos os tempos, posto que divide com o incidente de Fucuxima, Japão.

As nuvens radioativas sobrevoaram todo o norte da Europa até que o então premiê soviético, Mikhail Gorbatchov, admitisse publicamente o acidente para a comunidade internacional. Além dos mortos e daqueles que carregam sequelas por conta da radiação, o acidente deixou alguns suvenires assombrosos. Um é o sarcófago de concreto em que foi isolado o reator danificado. Sim, é chamada de sarcófago a estrutura similar a uma caixa. Outro são as cidades fantasmas, a começar pela própria Prípyat, a cidade mais próxima da usina.

Basta uma olhada na internet. A entrada na zona de exclusão de 30 km ao redor da usina é controlada; ninguém entra sem autorização. As fotos que há na rede mostram lugares fantasmagóricos, abandonados na pressa. Na creche, desenhos infantis e bonecas espalhados pelo chão. Em Tchernobyl, outra cidade abandonada, o cenário não parece tão assustador. Parece apenas uma cidade vazia num domingo.

Exumo esses fatos de há tanto tempo, pois vi na última Piauí (118, julho/2016) as fotografias do distrito de Bento Rodrigues, no município mineiro de Mariana. As fotos, grandes, vão da página 31 à 47. O rastro de destruição deixado pelo mar de lama que rebentou da barragem de fundão varreu o distrito do mapa. O que resta é uma paisagem semidesértica e derruída, com restos de casas tingidos de vermelho. O fato de não haver radiação no lugar, como em Prípyat, fez dos escombros repasto para os abutres. As casas e edifícios estão cegos, sem suas portas e janelas, levadas por saqueadores.

Assim como os efeitos da radiação não se limitaram a Prípyat, indo pelos céus ao sul da Bielorrússia e parte da Rússia, o lamaçal que esmigalhou Bento Rodrigues tomou o curso do rio Doce fez estragos ainda em Paracatu de Baixo e Gesteira, daí a jusante, apenas as águas do rio — e quem dependia dela — sofreram consequências.

A natureza demorará muitos anos para recompor-se na área atingida pela lama, não tantos quanto a radiação para deixar de agir na zona de exclusão de Tchernobyl. Mas são ambas as ruínas monumentos. Monumentos ao desprezo pelo próximo, o cenotáfio dos exilados.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara em 14/7/2016.

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