Política sobre feltro

Peço ao leitor que, primeiramente, se acalme. Apesar do título, o enfoque não é o tradicional, garanto-lho.

Estamos fartos de saber que a corrupção lubrifica as engrenagens da política. Os valores dos desvios, de tão altos, chegaram à abstração. O que são 80 bilhões de reais? Consegue imaginar? Consegue pensar em qual seria o volume ocupado por essa quantia em notas de cem? O peso, considerando que cada cédula de cem tem perto de 0,25 g, seria de 200 toneladas. Em resumo, os valores não comovem mais.

O que resta? O sectarismo entre militâncias e o teatro dos poderosos. Desisti de levar política a sério; o que não quer dizer absolutamente que eu a tenha deixado de lado. Muito pelo contrário.

Transformei a política num hobby. Até pensei em, inicialmente, neste texto, compará-lo à relação que as pessoas têm com o futebol como entretenimento, mas me lembrei da rivalidade existente também nesse campo, torcidas organizadas — o equivalente à militância da política —, brigas. Enfim, não é isso. Lembrei-me então das corridas de cavalo, em que não há torcida exclusiva para apenas um cavalo, mas apenas para aquele em que se apostou. Não, não é isso ainda. Ah, já sei: posso dizer que a política é uma espécie de corrida de cavalos com xadrez, em que o mais importante é apreciar a estratégia; quem vai ganhar pouco importa, pois em geral é o mais do mesmo, com diferença na capacidade de drenar o erário.

Transformei a política num hobby, e ela me transformou num bom observador. Ou pelo menos acima da média. Acompanho o noticiário da manhã: os passos das várias facções ou quem foi preso nas habituais e matutinas operações da Polícia Federal. E a turma ainda me vem falar de “Game of Thrones”. A nossa versão real de “House of Cards” é bem melhor. E nem precisa de tevê a cabo para vê-la.

Eu e um grupo de amigos temos uma planilha com apostas. A Caixa que sossegue, pois nossa moeda são latas de cerveja; nada a dinheiro. Algumas categorias básicas, como queda de ministro e preso da semana, são fixas, mas criamos outros bolões conforme a necessidade; por exemplo, se Dilma será mesmo impedida. E, para fazer bem as apostas, é preciso estar atento ao noticiário e aos “termômetros” do impeachment.

Ao fim disso tudo, você pode dizer que é leviandade e menoscabo para com a classe política. Sim, é isso; mas também é mais. Homens ditos públicos apostam todos os dias com aquilo que deveriam administrar como bem comum; fazem suas bancas com dinheiro do contribuinte. E ainda tentam defender o indefensável.

A nós resta apenas a troça. Quando esta tomar proporções inauditas, quem sabe a classe política não sai da mesa.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara em 7/7/2016.

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