Monthly Archives: Julho 2016

Medo e preguiça

A gente em que as virtudes são fracas pode valer-se de vícios ou defeitos na busca de uma existência decente. O primeiro desses “defeitos virtuosos” é o medo. Fala-se muito do medo como traço de fraqueza, mas esse sentimento, aliado ao instinto de autoconservação, é benéfico àqueles que não foram agraciados pela Fortuna. Um azarado temerário é um risco para si e para quem o cerca, como aquelas pessoas que têm a rara condição de não sentir dor. O medo em doses bem-administradas é saudável.

O outro “defeito virtuoso” é a preguiça, que impede também ações destrutivas. O preguiçoso inapto, longe de ser um parasita de si mesmo, é alguém que transformou tal falha substituta da prudência.

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No silêncio enfumaçado do Cáucaso…

No silêncio enfumaçado do Cáucaso, a pequena Armênia continua seu opróbrio. Deixou de ser millet turco e passou a ser protetorado russo. Embora seja nominalmente um país independente, continua sob forte influência russa, dançando ao ritmo da balalaica moscovita e atrelada à Área Econômica Eurasiana.

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Ocidente moribundo

Durante um colóquio em um churrasco, um dileto amigo me chamou a atenção ao significado da palavra ocidente. Ocidente é a mesma coisa que poente, não apenas no senso comum, mas também etimologicamente. Occidens,-entis é particípio presente do verbo latino occido, occidere, occidi, occasum, que significa pôr-se, derrubar, matar. Daí também a nossa palavra ocaso para pôr do sol e o verbo italiano uccidere, assassinar, matar.

Isso posto, estaria o Ocidente marcado para morrer? Se levarmos em conta os últimos ataques no coração do Ocidente, a França, parece que sim. O europeu, emasculado pelo relativismo cultural, tem de enfrentar a luta pela própria existência. A sobrevida cultural da Europa, e, por extensão, do Ocidente, depende da reação aos ataques de uma organização terrorista de outra matriz civilizacional, o Oriente islâmico.

Fala-se muito do respeito a outras culturas, mas qual o respeito que o Islã pratica para com seus diferentes? Quantas igrejas existem na Arábia Saudita? Nenhuma, pois a legislação local não as permite ou tolera. Por que nós — sim, nós, porque, por mais que neguemos, somos floração do Ocidente no Novo Mundo — por que temos obrigação de tolerar o Islã enquanto ele nos caceta?

Ainda estamos longe do problema que enfrenta a Europa, com seus céus espetados pelos minaretes das mesquitas e pelos quais ecoa o azan cantarolado pelos muezins. A tolerância e o respeito são via de mão dupla. O unilateralismo promovido pelo relativismo cultural de cepa francesa, e talvez algum sentimento de culpa (que culpa?) da Europa pelo neocolonialismo, jogará o Ocidente todo na vala comum da história.

Critica-se muito a Europa do neocolonialismo, mas se esquece da limpeza étnica promovida pelo Islã na sua primeira expansão pelo norte da África, área em que a presença romana era mais fraca, mas existente, que matou o Ocidente que por ali se engendrava.

“Ah, mas e as cruzadas?” poderá indagar-me você. O Islã expandiu-se até as portas da França, onde foi detido por Carlos Martel, no século 8º; ocupou a península Ibérica totalmente ou parcialmente por sete séculos. Sem falar no Império Otomano, que ocupou os Bálcãs, da Grécia à Romênia, por vários séculos e chegou mesmo às portas de Viena.

Ainda há tempo de resistir. E, nós, na periferia do Ocidente, poderemos ter papel importantíssimo nesse processo. Podemos salvar o Ocidente do sumiço cultural a que uma fatwa extraoficial o condenou. Precisamos reformar nossos foros culturais; é preciso contrariar a etimologia. Cultura de verdade, alta cultura, não essa que precisa de ministério para existir. Precisamos de antídotos, porque cicuta a cultura do relativismo já produziu bastante.

É isso ou a fossa comum.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 28/7/2016.

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Prípyat e Bento Rodrigues

Talvez o primeiro nome seja desconhecido ao leitor. É como se chama uma aldeiazinha ucraniana, a cerca de 90 quilômetros de Kyiv, capital da problemática Ucrânia, rachada por uma guerra civil. Prípyat não, mas Tchernobyl o leitor certamente conhece.

Há pouco mais de 30 anos, na madrugada de 26 de abril de 1986, o quarto reator da Usina de Tchernobyl, localizada na então República Socialista Soviética da Ucrânia, parte da União Soviética, colapsou, emitindo vapor radioativo e causando um derretimento nuclear. Foi um dos maiores acidentes nucleares de todos os tempos, posto que divide com o incidente de Fucuxima, Japão.

As nuvens radioativas sobrevoaram todo o norte da Europa até que o então premiê soviético, Mikhail Gorbatchov, admitisse publicamente o acidente para a comunidade internacional. Além dos mortos e daqueles que carregam sequelas por conta da radiação, o acidente deixou alguns suvenires assombrosos. Um é o sarcófago de concreto em que foi isolado o reator danificado. Sim, é chamada de sarcófago a estrutura similar a uma caixa. Outro são as cidades fantasmas, a começar pela própria Prípyat, a cidade mais próxima da usina.

Basta uma olhada na internet. A entrada na zona de exclusão de 30 km ao redor da usina é controlada; ninguém entra sem autorização. As fotos que há na rede mostram lugares fantasmagóricos, abandonados na pressa. Na creche, desenhos infantis e bonecas espalhados pelo chão. Em Tchernobyl, outra cidade abandonada, o cenário não parece tão assustador. Parece apenas uma cidade vazia num domingo.

Exumo esses fatos de há tanto tempo, pois vi na última Piauí (118, julho/2016) as fotografias do distrito de Bento Rodrigues, no município mineiro de Mariana. As fotos, grandes, vão da página 31 à 47. O rastro de destruição deixado pelo mar de lama que rebentou da barragem de fundão varreu o distrito do mapa. O que resta é uma paisagem semidesértica e derruída, com restos de casas tingidos de vermelho. O fato de não haver radiação no lugar, como em Prípyat, fez dos escombros repasto para os abutres. As casas e edifícios estão cegos, sem suas portas e janelas, levadas por saqueadores.

Assim como os efeitos da radiação não se limitaram a Prípyat, indo pelos céus ao sul da Bielorrússia e parte da Rússia, o lamaçal que esmigalhou Bento Rodrigues tomou o curso do rio Doce fez estragos ainda em Paracatu de Baixo e Gesteira, daí a jusante, apenas as águas do rio — e quem dependia dela — sofreram consequências.

A natureza demorará muitos anos para recompor-se na área atingida pela lama, não tantos quanto a radiação para deixar de agir na zona de exclusão de Tchernobyl. Mas são ambas as ruínas monumentos. Monumentos ao desprezo pelo próximo, o cenotáfio dos exilados.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara em 14/7/2016.

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Política sobre feltro

Peço ao leitor que, primeiramente, se acalme. Apesar do título, o enfoque não é o tradicional, garanto-lho.

Estamos fartos de saber que a corrupção lubrifica as engrenagens da política. Os valores dos desvios, de tão altos, chegaram à abstração. O que são 80 bilhões de reais? Consegue imaginar? Consegue pensar em qual seria o volume ocupado por essa quantia em notas de cem? O peso, considerando que cada cédula de cem tem perto de 0,25 g, seria de 200 toneladas. Em resumo, os valores não comovem mais.

O que resta? O sectarismo entre militâncias e o teatro dos poderosos. Desisti de levar política a sério; o que não quer dizer absolutamente que eu a tenha deixado de lado. Muito pelo contrário.

Transformei a política num hobby. Até pensei em, inicialmente, neste texto, compará-lo à relação que as pessoas têm com o futebol como entretenimento, mas me lembrei da rivalidade existente também nesse campo, torcidas organizadas — o equivalente à militância da política —, brigas. Enfim, não é isso. Lembrei-me então das corridas de cavalo, em que não há torcida exclusiva para apenas um cavalo, mas apenas para aquele em que se apostou. Não, não é isso ainda. Ah, já sei: posso dizer que a política é uma espécie de corrida de cavalos com xadrez, em que o mais importante é apreciar a estratégia; quem vai ganhar pouco importa, pois em geral é o mais do mesmo, com diferença na capacidade de drenar o erário.

Transformei a política num hobby, e ela me transformou num bom observador. Ou pelo menos acima da média. Acompanho o noticiário da manhã: os passos das várias facções ou quem foi preso nas habituais e matutinas operações da Polícia Federal. E a turma ainda me vem falar de “Game of Thrones”. A nossa versão real de “House of Cards” é bem melhor. E nem precisa de tevê a cabo para vê-la.

Eu e um grupo de amigos temos uma planilha com apostas. A Caixa que sossegue, pois nossa moeda são latas de cerveja; nada a dinheiro. Algumas categorias básicas, como queda de ministro e preso da semana, são fixas, mas criamos outros bolões conforme a necessidade; por exemplo, se Dilma será mesmo impedida. E, para fazer bem as apostas, é preciso estar atento ao noticiário e aos “termômetros” do impeachment.

Ao fim disso tudo, você pode dizer que é leviandade e menoscabo para com a classe política. Sim, é isso; mas também é mais. Homens ditos públicos apostam todos os dias com aquilo que deveriam administrar como bem comum; fazem suas bancas com dinheiro do contribuinte. E ainda tentam defender o indefensável.

A nós resta apenas a troça. Quando esta tomar proporções inauditas, quem sabe a classe política não sai da mesa.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara em 7/7/2016.

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Carta aberta de um venezuelano ao povo espanhol

Vocês não fazem ideia do quão difícil foi escrever esta carta aberta. Minha intenção não é ser intrometido; tampouco sou movido por mero estilo. Faço-o pelos vínculos que me unem cultural e familiarmente à Espanha e faço-o pelo compromisso que tenho com a verdade.

Ter de dirigir-me a todo o povo espanhol por um motivo tão lúgubre e doloroso revolve-me as entranhas…

Há muitos espanhóis simpáticos ao Podemos que troçam da situação da Venezuela. Isso se espera de canalhas, não de gente que vive repetindo ladainhas progressistas em nome da Liberdade e da Igualdade. Vejo aí mais uma prova para demonstrar a hipocrisia da esquerda.

Escrevo seja à Espanha decente, que não quer ir em direção do comunismo, como a toda gente infame da Esquerda que pulula em todos os lugares.

Sei que é maçante escutar todos os dias notícias da Venezuela, já que é mais chique rasgar as roupas pelos africanos. Mas, para que saibam, na Venezuela vivemos pior que os refugiados sírios por culpa do Socialismo do Século XXI que os senhores Pablo Iglesias e Juan Carlos Monedero tanto defendem.

Na Venezuela de há 16 anos, os venezuelanos de então, atraídos pelos cantos de sereia de alguém que prometia mudanças, votaram nesse alguém e assinaram sua sentença de morte.

Não vou falar do paralelismo que há entre Pablo Iglesias e Hugo Chávez, algo mais que evidente. Advirto-lhes que Pablo Iglesias pode ser até pior que Chávez e pode converter a Espanha em algo pior que uma segunda Venezuela. Pelo menos Chávez prometia devolver à Venezuela a institucionalidade que nunca teve; Pablo Iglesias promete abolir todas “as instituições burguesas de merda” e governar para os movimentos sociais. Seu discurso é frontal e agressivo. Os chavistas blasfemam dizendo que Jesus era comunista e que Chávez é Deus. Os de Podemos partem de que Deus não existe e fazem com Ele brincadeiras vulgares e vis.

Pretendem até abandonar o idioma espanhol, a maior contribuição da Espanha à Humanidade…

Não creiam ser simples safar-se dessa gente. Na Venezuela tornou-se impossível livrar-se dela. Gente que não apenas converteu o país no seu quintal, mas, mesmo que nos livremos dela, os danos e as consequências perdurarão na alma das pessoas, tornando-as seres totalmente fracos e pervertidos, presas fáceis de voltar ao sistema caso este colapse.

Você quer isso para o seu país, para a sua família ou para você mesmo?

Não há nada mais espúrio que uma revolução. Sim, as revoluções buscam apenas subverter a ordem, arrancar as raízes do passado e criar um mundo novo do nada, com a pretensão de não apenas modificar a estrutura da sociedade, afundando-a em um caos completo, mas também de mudar a própria natureza humana. As revoluções promovem transformações tão profundas — e tão perversas —, que, uma vez extintas, já não é possível voltar à normalidade.

É preciso ser muito inocente, ou cúmplice, para não se dar conta das consequências reais do socialismo. A Venezuela, graças ao Socialismo, à Igualdade, à Inclusão, ao Progresso, aos Movimentos Sociais, à Compulsão pela Mudança e à Distribuição da Riqueza, é um inferno em que as pessoas, para comprar comida, têm de fuçar no lixo; os idosos e os doentes morrem pela falta de medicamentos. Ninguém está livre de morrer nas mãos da delinquência e em que as crianças não têm futuro não apenas porque morrem de fome, mas porque cada dia tudo piora, como uma queda no vazio do infinito.

A Venezuela, lamentavelmente, sempre foi o idiota útil de todas as revoluções. No passado, nas guerras de independência, e, hoje, novamente, como financiadora da Esquerda mundial.

Entendo que, na Espanha, queiram uma transformação profunda, mas é preciso entender quais são as reformas necessárias para sair desse imbróglio. É preciso votar nos partidos que defendam o capitalismo liberal, o governo limitado, a propriedade privada, os valores ocidentais, a família e as raízes cristãs da Europa.

Qual é a melhor forma de conseguir as mudanças? Dizia Platão que o preço de não se interessar pela política é ser governado por quem é inferior. Pelo fato de muitos de vocês não se interessarem pela política pode chegar ao governo Pablo Iglesias, Juan Carlos Monedero, Iñigo Errejón, Manuela Carmena, Ada Colau e outros delinquentes. Assim, façam política e sejam uma sociedade ativa…

Simão Bolívar, um dos piores venezuelanos de toda a história, que, na verdade, foi um caudilho e um tirano, como Chávez ou Maduro, disse uma vez: “Espanhóis e canários, contai com a morte”.

E está claro que Chávez e Maduro, fiéis à memória daquele jacobino, viram no Podemos um meio para cumprir e continuar com o decreto de guerra de extermínio.

Darão eles o gosto a todos os hispanofóbicos que querem ver a Espanha destruída porque são incapazes de superar dívidas históricas?

Vocês ainda têm tempo… Estão avisados…

Um venezuelano.

Original.

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