Over the hills and far away

É bom “viver a cidade”, o lugar em que vivemos, mas não podemos fazer dela caixa ou redoma. Podemos e temos de olhar para fora, principalmente para ver como a situação externa pode nos afetar. Se vem tormenta, de pouco valerá o guarda-chuva chinês, esse incrível objeto que, à primeira ventania, vira antena parabólica.

Nos últimos tempos, tivemos uma safra de assombros sem precedentes; as reviravoltas políticas no Brasil entram na cornucópia. “Nunca antes na história desse (sic) país”, diria aquele ex-presidente, houve tanto rebuliço.

Mas deixando um pouco de lado Brasília e Curitiba — atualmente os nervos expostos do país —, é hora de uma escala em Londres. No último dia 23, houve no Reino Unido um referendo para decidir sobre a permanência ou não da terra de Sua Majestade Britânica dentro da União Europeia. A resposta foi um tímido não, recebido com perplexidade por gente que não entende nada.

“Mas como eles puderam?” Entenda: o Reino Unido nunca foi um país europeísta convicto. A entrada no bloco deu-se a partir de 1973, sob o governo de sir Edward Heath. No referendo de 5 de junho de 1975, a adesão às então chamadas Comunidades Europeias ganhou com 67,2%. Não estranhe; era assim mesmo: Comunidades Europeias, que eram um conjunto, incluindo aí o Mercado Comum Europeu. Com o tratado de Maastricht, em 1992, parte dessas comunidades formou a União Europeia.

O Reino Unido não tinha planos para adotar o euro, moeda que, aparentemente, só é boa para dois lados: a Alemanha, a Meany Ranheta da “pensão Europa”, e os turistas; a moeda única implicou a perda da soberania financeira dos países que o adotaram, que ficaram dependentes do Banco Central Europeu. Para os pequenos, como Portugal e Grécia, o euro trouxe-lhes um quadro de crise crônica após o deslumbramento inicial de terem sido “promovidos à Europa”.

Perda da soberania financeira, ingerência em assuntos internos, prestação de contas a um espantalho de parlamento do outro lado do canal da Mancha; situações que azedaram o espírito britânico. Um país que já mandou em um quarto do globo ver-se reduzido a província de Bruxelas e enredado na burocracia europeia é, no mínimo, humilhante.

Eu sempre tive comigo que, se um dia algum país deixasse o bloco, esse seria o Reino Unido. Dito e feito. Um alerta à Moody’s: estou disponível.

Um velho joke inglês narra que um englishman vê que o English Channel está sob forte nevoeiro, o que impossibilitaria a travessia até a França. Após alguns minutos de reflexão e umas baforadas no cachimbo, ele se vira ao interlocutor, outro gentleman, e diz:

— É verdadeiramente uma pena. O continente vai ficar isolado hoje.

* * *

Publicado na Tribuna Araraquara de 30/6/2016.

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